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Correio da Manhã

Desporto
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Indicador positivo

Não tem sido fácil a tentativa de melhorar a imagem da Liga portuguesa, quando tantos jogos se traduzem numa aridez de lances interessantes e de golos. Persiste a ideia de que os jogos são enfadonhos, lentos e muito parados, com protagonismo de árbitros recorrentes na marcação de faltas inexistentes. Esta imagem genérica foi construída ao longo dos anos 90 do século passado, mas já não corresponderá totalmente à realidade.
12 de Setembro de 2009 às 00:00
Na época passada, Pedro Henriques, o árbitro mais aberto ao jogo com contacto físico, apitou apenas 26 faltas por cada jogo, muito abaixo da média nacional
Na época passada, Pedro Henriques, o árbitro mais aberto ao jogo com contacto físico, apitou apenas 26 faltas por cada jogo, muito abaixo da média nacional FOTO: Manuel Araújo/Record

Com a redução para apenas 16 clubes, verificou-se uma descida acentuada do número de faltas por partida, de um nível quase de ‘guerra civil’ em 2002-03, para números mais próximos dos padrões europeus, que se situam na ordem das 25/28 faltas. Curiosamente, nas 14 partidas das provas da UEFA que os clubes portugueses já realizaram este ano, quando o nível qualitativo dos árbitros também é mais baixo do que nas fases mais adiantadas, a média de faltas situa-se precisamente nas 31, em linha com a Liga nacional.

Conseguir espectáculos mais agradáveis, menos polémicos e com maior aproximação às balizas passa por reclassificar o conceito de ‘resultadismo’ que condiciona a abordagem dos jogos por parte dos treinadores dos clubes de segunda linha. Pensar mais na bola e menos no adversário, com a contribuição de árbitros inflexíveis na condenação disciplinar dos exageros, é o único caminho a seguir, mas a maioria dos dirigentes não parece pronta para o desafio, mantendo sobre os treinadores uma pressão desmedida que os impede de correr riscos desportivos, sobretudo nos clubes menos apetrechados.

Nos dois jogos disputados em casa pelo Benfica, frente ao Marítimo e ao Vitória de Setúbal, a atitude dos árbitros foi muito influente para desfechos tão diferentes. No primeiro, Soares Dias foi permissivo, favorecendo o antijogo, e só no segundo tempo forçou a repressão disciplinar, que o obrigou a mostrar dez cartões amarelos. No segundo, mostrando apenas seis amarelos, Duarte Gomes foi implacável com as primeiras faltas perigosas dos sadinos e deu azo à manifestação de diferença desportiva, exuberantemente demonstrada em golos. A diferença residiu no timing: Soares Dias mostrou o primeiro amarelo só aos 25’, Duarte Gomes mostrou quatro amarelos antes dos 25’.

Este é também o princípio que o FC Porto defende para a protecção de um jogador como Hulk, agressivo no ataque, por vezes descontrolado na luta pela bola, mas obviamente mais vítima do que culpado.

CARLOS XISTRA RECORDISTA DO APITO

Em contramão, Carlos Xistra, o árbitro que expulsou Hulk, tem conseguido resistir à tendência para apitar menos, prosseguindo uma carreira que se iniciou há nove anos com 80 (oitenta) faltas num só jogo, um autêntico recorde nacional. Esta época, já assinalou 85 faltas em duas partidas, média de 43 bem cima do normal, reclamando uma reciclagem urgente.

SAIBA MAIS

65

Em 166 partidas, o jogador mais duro da Liga, Flávio Meireles, capitão do V. Guimarães, viu 61 cartões amarelos e quatro vermelhos.

CAPITÃO DOS DUROS

Com idêntico número de jogos (173), Pedrinha, capitão do P. Ferreira, é um pouco mais moderado: 43 amarelos e cinco vermelhos

TÉCNICO JOSÉ MOTA MESTRE DAS FALTAS

Se há alguém que sabe tirar o melhor partido do jogo faltoso, extraindo dividendos desportivos, ele é o treinador do Leixões, José Mota, que já se distinguia pela agressividade em campo quando era jogador. Durante os últimos três anos da carreira à frente do Paços de Ferreira, entre 2005 e 2008, a equipa foi sempre a mais faltosa do campeonato, rondando as 20 faltas por jogo, praticamente 25 por cento acima da média geral do campeonato. Na época passada mudou para Matosinhos e colocou logo o Leixões como a equipa com mais faltas cometidas. E, nas três primeiras jornadas deste ano, o adversário do FC Porto hoje à noite já é novamente o mais faltoso, com uma média de 19 por partida e dois encontros no ‘top 5’ dos mais interrompidos.

O que distingue as equipas de José Mota é a capacidade de controlar os danos disciplinares e sobrecarga de castigos: na época passada, o Leixões combinou o primeiro lugar em faltas com o de menos castigado com cartões vermelhos (apenas 1), em igualdade com o FC Porto, a equipa menos faltosa. Por pouco, não conseguiu repetir esse recorde absolutamente bizarro e inexplicável de conseguir fazer um campeonato com o máximo de faltas e uma absoluta virgindade em termos de expulsões, como aconteceu com o Paços de Ferreira de 2005-06!

SEM HULK EM CAMPO MENOS 35% DE PARAGENS

Um terço das faltas do Paços de Ferreira-FC Porto envolveu Hulk, em ambos os papéis, de sofredor e provocador. E sem o brasileiro em campo o número de faltas dos jogos seguintes dos dragões baixou 35 por cento, de um total de 40 em Paços para apenas 28 e 26 nas duas partidas seguintes. Em termos desportivos, o FC Porto evoluiu da distracção de um empate, para duas vitórias folgadas.

Hoje, o regresso de Hulk desperta a curiosidade sobre uma eventual mudança de atitude: o avançado e o clube terão mais a ganhar se ele se concentrar na bola e não nos despiques físicos.

EQUIPA MENOS FALTOSA

A atitude positiva do Benfica de Jorge Jesus tem reflexos no registo de faltas, recolocando a equipa no lugar tradicional de menos faltosa em campo, que lhe fugira nos últimos dois anos.

 ÉPOCA CLUBE FALTAS
 2009-10 BENFICA  13
 2008-09 FC PORTO 14
 2007-08 FC PORTO 14
 2006-07 BENFICA 13
 2005-06 BENFICA 15
 2004-05 BENFICA 16
 2003-04 ALVERCA 17

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