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Correio da Manhã

Desporto

Jesus volta a demonstrar paciência

Mais do que uma aposta surpreendente, Djaló é um desafio à real capacidade de Jorge Jesus em 'melhorar' jogadores.
4 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Treinador do Benfica já permitiu a evolução de vários jogadores
Treinador do Benfica já permitiu a evolução de vários jogadores FOTO: Vítor Mota

A contratação de Yannick Djaló pelo Benfica deixou perplexos os adeptos de ambos os clubes rivais, na dúvida entre a real capacidade do jogador, o espaço de afirmação na equipa e as possibilidades de evolução.

A responsabilidade foi assumida e transferiu-se na plenitude para as costas do treinador Jorge Jesus, cuja paciência e resiliência na tarefa de formar jogadores não serão as suas capacidades mais reconhecidas, apesar de passar a imagem contrária.

Ao longo do seu mandato no Benfica, Jorge Jesus já proporcionou a evolução de vários jogadores e a sua coroa de glória é, sem dúvida, a transformação fabulosa de Fábio Coentrão, resgatado ao ostracismo e transformado num dos melhores do Mundo numa posição que desconhecia. Mas será possível repetir esta excepção?

O reverso desta medalha tem várias faces: César Peixoto, Carlos Martins, Ruben Amorim, Eduardo, para lembrar apenas os raros portugueses contratados nos últimos anos. Quase todos foram apostas pessoais como Yannick Djaló, mas acabaram no meio do trajecto ao esgotarem a paciência do treinador, quer pela rejeição das readaptações tácticas e técnicas exigidas, quer pela pressão de resultados imediatos dos adeptos, exigentes e pouco tolerantes.

O avançado despedido pelo Sporting enfrenta um desafio estimulante, mas de difícil sucesso. Tem potencialidades técnicas, velocidade invulgar, experiência q.b. Mas falta-lhe cultura táctica, autoconfiança e uma marca pessoal. Para ter sucesso no Benfica, Yannick precisa de provocar impacto e abrir espaço no meio de uma série de concorrentes com créditos muito firmados: ambos os objectivos carecem de tempo e de paciência, muita paciência.


 


 

 

VÍCIO DAS APOSTAS

Javi Garcia é a única nova aposta do primeiro ano de Jorge Jesus no Benfica que ainda resiste no plantel, a par do consagrado Saviola que entrou na mesma altura. Ao todo, o vício das descobertas de novos valores já fez contratar 34 jogadores em dois anos e meio.

2009-10          13

2010-11          7

2011-12          14*

*sem contar jogadores contratados, mas cedidos por empréstimo a outros clubes.

POTENCIAL RECONHECIDO

«Parece menos deslumbrado em sair, a menos que o empurrem, e os sinais de maturidade projectam-no para um posto de referência na equipa ».

CM SPORT 9-07-2011

Djaló perfilava-se como um dos valores mais seguros do Sporting, mas acabou por ser empurrado para fora, incapaz de resistir à concorrência dos novos estrangeiros. O clube reconhecia-lhe o potencial, mas não tinha meios de o desenvolver.

6 ÉPOCAS

155 JOGOS

34 GOLOS

14 ASSISTÊNCIAS


 


 

UMA LESÂO POR ANO

Excepto no ano de estreia, todas as temporadas de Djaló no Sporting foram prejudicadas por lesões graves, sobretudo musculares mas também uma fractura do perónio (2009-10), que lhe roubaram mais de 40 por cento das partidas.

COMO SE FAZ UM JOGADOR

O processo de construção de um grande jogador, seguido por Jorge Jesus, pode esquematizar-se em 6 passos essenciais. Os casos recentes das reconversões de Fábio Coentrão e César Peixoto a lateral esquerdo, uma bem-sucedida e a outra não, ajudam a perceber que quase tudo depende do empenho e da resposta dos atletas.

1 - DEFINIR A POSIÇÃO

Definir o posicionamento táctico que melhor se adequa às características do jogador e convencê-lo disso, quando tal obrigue a uma adaptação táctica e reeducação funcional, como fez com Fábio Coentrão, que percebeu a oportunidade que lhe era oferecida.

2 - CONCEDER TEMPO

O processo de consciencialização, motivação e aprendizagem pode ser demorado e exige muita paciência, condescendência e bom trato ao treinador. Mas pode não chegar, quando um jogador como César Peixoto não valoriza a importância de representar um clube grande.

3 - MANTER A CONFIANÇA

Ultrapassar sem sequelas psicológicas os maus jogos e com apoio de proximidade aos atletas, ajudando-os a perceber que se trata de um processo gradual, estando atento aos factores externos como uma chamada à selecção ou manifestações de impaciência dos adeptos.

4 - MODERAR EXPECTATIVAS

O empolgamento do treinador ao «inventar» um novo percurso para o jogador pode ser contraproducente e é mais tolerável por jovens à procura de reorientar os objectivos pessoais, sobretudo se tiverem passado por más experiências noutros clubes.

5 - AUMENTAR A EXIGÊNCIA

À medida que a adaptação se consolida, o treinador sobe a fasquia: melhor da equipa, melhor do campeonato, melhor do país, melhor do Mundo. O excepcional trajecto de Fábio Coentrão, do ostracismo ao Real Madrid em dois anos, constitui um caso de estudo para o futuro.

6 - GERIR A CONCORRÊNCIA

Num plantel de alto nível, os mais inseguros são os polivalentes, que se confrontam no dia-a-dia com especialistas de várias posições e não conseguem superar a chegada de 'reforços', sentindo-se continuamente sob escrutínio a desempenhar uma função secundária.

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