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Correio da Manhã

Desporto
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Jordan o parente pobre

São precisos milhões, muitos milhões de euros para se estar no disputado ‘circo’ da fórmula 1. O piloto Tiago Monteiro, o quarto português a competir na categoria, senta-se num bólide que custa uma fortuna, compete ao lado de outras máquinas dotadas da mais alta tecnologia mundial, que custam outros tantos milhões, e que são conduzidos por pilotos milionários, verdadeiros ídolos em todo o Mundo.
26 de Março de 2005 às 00:00
Numa visita ao quartel-general da Jordan Grand Prix, a equipa que albergou o piloto portuense nesta nova aventura, o Correio da Manhã pôde ‘cheirar’ um pouco os bastidores da Fórmula 1. Não as boxes, nem os treinos, mas sim todo o processo sem o qual seria impossível colocar um bólide nos circuitos. E Tiago Monteiro foi um digno anfitrião.
Localizadas na região de Northamptonshire, a cerca de 500 metros do circuito de Silverstone, as oficinas são o ponto nevrálgico da Jordan. Aí se dão os primeiros passos para se obter o sucesso ou insucesso nas pistas. Numa fase de transição, após o milionário russo naturalizado canadiano Alex Shnaider ter comprado a escuderia – que no próximo ano se vai chamar Midland –, a Jordan não deixa de preparar, da melhor maneira possível, o futuro. E foi isso que o CM percebeu.
Dias após o GP da Malásia, a azáfama na equipa não era a maior. Não pelo falta de trabalho, mas sim por parte da equipa já estar a caminho do Bahrain, juntamente com os carros.
A Jordan, criada em 1991, conta actualmente com 250 trabalhadores (190 na fábrica e 60 no túnel de vento), todos eles com contratos que obrigam ao máximo sigilo profissional (o segredo é a alma do negócio) e distribuídos por 24 departamentos. Meia centena dos quais acompanham a equipa em cada corrida. Criativos, engenheiros, designers, técnicos, mecânicos, directores, pilotos, todos estão em sintonia na procura de um carro mais rápido, fiável e, acima de tudo, ganhador. A fórmula para tudo isso passa, igualmente, por conseguir peças “mais leves, resistentes, fiáveis e baratas”, como adiantou Tiago Monteiro.
É por causa dessa procura da poção milagrosa que o CM pôde presenciar uma equipa bastante profissional, onde os trabalhadores mal pestanejam, raramente desviam o olhar do ecrã do computador e mal são vistos num momento de descontração entre si. Num meio de muitos milhões – o orçamento da Jordan está entre os 50 e 70 milhões de euros, contra os 350 milhões da poderosa Ferrari – é caso para dizer que tempo é dinheiro.
Na fábrica tudo funciona na perfeição. Todos sabem o seu papel, por vezes em áreas poucos acessíveis, como o CM pôde perceber. Ainda assim, foi permitida uma visita ao pouco visto túnel de vento, onde as fotografias são proibidas (assim como na sala de design, onde são concebidos os esboços das mais variadas componentes do carro). A aerodinâmica do carro constitui um dos actuais problemas da Jordan, já que o chassis não foi concebido para o motor Toyota que serve de propulsor ao bólide. Como tal, no túnel, um modelo (a 40 por cento do tamanho real) estava a ser preparado, a pensar nas próximas corridas.
Os moldes são mesmo a base de tudo: não só para as partes visíveis do carro, mas também para os bancos (consoante a fisionomia do piloto) e até para os pedais de acelerador e travão. Noutra área, são testadas a elasticidade, a dureza e a fiabilidade de várias peças, enquanto o acesso à parte que trata dos componentes hidráulicos ser praticamente vedado a todos os que não trabalham nesse departamento. É que essa pequena sala não tem uma única impureza de modo a proteger o material, devido a um sistema de vácuo. Tanta tecnologia e empenho, mas ainda longe das equipas de topo.
FERRARI GASTA 350 MILHÕES
Apesar de altos para a maioria das pessoas, ou até empresas, os 50 a 70 milhões de euros investidos pelo russo Alex Shnaider em nada se comparam com os 350 milhões da Ferrari. A equipa italiana é a verdadeira rainha da Fórmula 1. O quartel-general, erguido em Maranello, está dotado dos mais variados luxos e conta com a presença de milhares de trabalhadores diariamente nas suas instalações. Tem um enorme lago artificial, edifícios bastante modernos e estende-se por uma área de 15 hectares. Aí são desenhados, concebidos e testados os carros mais vitoriosos da Fórmula 1, que levaram o alemão Michael Schumacher a conquistar o hexacampeonato.
2,6 SEGUNDOS EM 100 METROS
Tiago Monteiro confessou estar maravilhado com esta nova aventura, guardando para sempre as emoções do arranque no GP Austrália. Não só porque foram os seus primeiros segundos ao lado dos melhores pilotos da actualidade, como também porque conseguiu efectuar uma boa largada. A velocidade e o perigo não incomodam o piloto portuense que, em testes, conseguiu levar o seu Jordan a percorrer 100 metros em apenas 2,6 segundos, enquanto o seu colega, o indiano Karthikeyan demorou mais três décimos para percorrer a distância. Já na Malásia, na corrida, Tiago chegou a atingir os 330 km/hora, enquanto em testes já rolou a incríveis 360 km/hora. Só falta voar.
MAIS UM CAPRICHO RUSSO
A entrada de milionários russos no desporto está na moda. Depois de Roman Abramovich (Chelsea) e Alexey Fedorychev (Dínamo de Moscovo), chegou a vez de Alex Shnaider, de apenas 36 anos. Só que este último não enveredou pelo futebol, mas sim pela ruidosa Fórmula 1.
Com uma fortuna estimada em 1.1 mil milhões de euros, Shnaider, que se naturalizou canadiano, conseguiu a sua riqueza através dos negócios no aço e construção civil. No início deste ano, o russo, que já estava ligado à Jordan, através da sponsorização da Benson & Hedges, tirou uns trocos do bolso e decidiu comprar a formação irlandesa por 50 milhões de euros, investindo outro tanto na época de 2005. Tiago Monteiro já conheceu o seu patrão e traça-lhe o perfil. “Ele nunca esteve ligado directamente a este mundo, mas é um verdadeiro apaixonado dos automóveis. É uma pessoa de negócios muito inteligente e com uma grande visão. Pessoalmente é simpático, calmo e algo reservado. Algumas das vezes mostra-se mesmo uma pessoa muito tímida”, adiantou ao Correio da Manhã o piloto português.
14 ANOS DE HISTÓRIA
A Jordan, cujo nome em 2006 vai dar lugar à Midland, conta com 14 anos de história. Fundada em 1991 pelo irlandês Eddie Jordan – o mesmo que possibilitou a entrada de Schumacher na classe, em Agosto de 1991 –, a formação saboreou, em 233 corridas, o sabor do champanhe por quatro vezes, a última das quais há dois anos, quando Giancarlo Fisichella triunfou no GP do Brasil. Foi a escuderia que albergou pilotos como o japonês Takuma Sato, o italiano Giancarlo Fisichella, o brasileiro Rubens Barrichelo e o irlandês Eddie Irvine. Em 2000, os problemas financeiros começaram a aparecer e, no início deste ano, a Midland do russo Alex Shnaider comprou a equipa a Eddie Jordan por 50 milhões de euros.
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