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Correio da Manhã

Desporto

“Jorge Jesus revitalizou o Benfica"

António Pimenta Machado quer que as águias ganhem o campeonato nacional e não descarta vir a ser presidente da Liga ou da Federação Portuguesa de Futebol.
20 de Fevereiro de 2010 às 00:00
Pimenta Machado
Pimenta Machado FOTO: D.R.

Correio Sport – Quem quer que ganhe a Liga: o Sporting de Braga ou o Benfica?

Pimenta Machado – Tenho uma costela benfiquista e sou amigo de Jorge Jesus, logo prefiro o Benfica campeão. Agora, elogio o Sp. Braga. Enquanto o Boavista ganhou à custa dos ‘apitos’, com auto-estrada e via verde, o Sp. Braga ganharia por mérito próprio. 

– Esperava que Jorge Jesus tivesse tanto sucesso?

 

- Não está no galarim, como Mourinho, porque não tem os jogadores dele. Fui eu que o fui buscar para o Vitória. É um técnico de mão cheia, o protagonista e grande responsável pela revitalização do Benfica, até porque a estrutura já estava lá.

 

– Costuma ir a estádios?

– Depois de deixar o Vitória de Guimarães, fui três vezes ao estádio, duas na companhia do Jesus para vermos o Estrela da Amadora.

– Desistiu da candidatura à presidência do Vitória de Guimarães por razões familiares. Foi uma decisão difícil?

– A minha filha mais nova [Joana Patrícia, de 17 anos] precisa de mim perto dela. Há situações na vida que mexem com a família e não deixam outra saída. Por mais que goste do meu clube, a família vem primeiro.

– Teve uma recepção apoteótica na sede do V. Guimarães. O carinho dos adeptos sensibiliza-o?

 

– Naturalmente que fico triste e desiludido por não poder dar mais aos adeptos. Mas nunca disse que era candidato. Disse que era um candidato potencial, porque o Vitória é um filho meu, foi no meu tempo que se criou o património todo. Fica para uma próxima, se existir. Quero agradecer a manifestação espontânea de apreço por parte dos adeptos. O povo de Guimarães, aquele que pouco tem além do amor ao clube, sempre esteve a meu lado. Sempre. Temos uma ligação quase umbilical.

 

– As finanças do V. Guimarães [12 milhões de euros de dívidas] pesaram na sua decisão?

 

– Não foi esse o impedimento. Foi a questão familiar, ponto final. Estive lá 24 anos, passei momentos difíceis em termos de finanças e habituei-me a ser uma espécie de trapezista. Tudo acabaria por se resolver.

 

– Vai apoiar algum candidato?

 

– Não conto envolver-me na campanha eleitoral.

 

– Que opinião tem sobre os dois candidatos, Emílio Macedo e Pinto Brasil?

 

– Nenhuma. Com certeza que tentarão fazer o melhor e vão imbuídos de boas intenções para reverter a situação financeira, desastrosa. O problema é que não basta querer fazer bem, é preciso saber fazer bem.

 

– E não é o caso?

 

– Espero que seja. É preciso mudar tanta coisa...

 

– Por exemplo?

 

– Não faz sentido fazer-se orçamentos e depois não se concretizarem. É exactamente por isso que nunca fiz orçamentos em 24 anos no clube. Porque o risco de falibilidade é grande. Chegaram a fazer orçamentos com base em previsões fantasmagóricas de vendas de jogadores. Passado um ano, só números ridículos de vendas e uma derrapagem de cinco ou seis milhões. Ficam mal na fotografia, claro.

 

– A situação agravou-se por causa das derrapagens?

 

– Por causa dos orçamentos loucos, da gestão danosa da Direcção que me sucedeu, dos gastos. A Direcção que ganhar agora as eleições tem que travar a fundo nas despesas.

 

– O que fez a Direcção que lhe sucedeu?

 

– Além de ter levado o clube ao abismo da II Divisão, enganou os sócios, convencendo-os a hipotecar o património. É imperdoável.

 

– Culpa Vítor Magalhães?

 

– ... e outros que estavam com ele, com tanta ou mais responsabilidade na degradação do clube. Receberam rendas antecipadas e encaixaram seis milhões. O problema foi o uso dado ao dinheiro. Não foi para criar riqueza mas para pagar salários a jogadores fora da realidade do Vitória. Os jogadores foram-se e o dinheiro perdeu-se.

 

– E a Direcção actual?

 

– Agravou tudo com previsões de vendas erradas. E gastos sem sentido. É impensável suportar entre 800 mil e um milhão de euros _de encargos com as modalidades amadoras. Antigamente, as secções amadoras eram auto-suficientes. E o futebol juvenil é outro problema.

 

– Por que motivo?

 

– Gastos demasiados também. A lei permite que os clubes celebrem contratos-programa com as câmaras para desenvolver a formação. _O engenheiro Mesquita Machado já faz isso em Braga. Em Guimarães não acontece e ninguém quer saber.

 

– Que prioridade deve ter a Direcção que ganhar?

 

– O mais importante é ter um projecto comunitário, não pode ser uma direcção de facção. Atendendo à debilidade financeira do clube, se continuar a haver divisões pode ser trágico para o clube. Estou disponível para colaborar a nível das estruturas desportivas portuguesas. 

 

– Sente saudades do futebol?

 

– Do Vitória. Com a minha saída, o clube perdeu voz nacional.

 

– O que quer dizer com isso?

 

– Quando é prejudicado dentro das quatro linhas, ninguém vem a terreiro defender o clube. A única referência do clube é a massa associativa, ao nível dos clubes que andam habitualmente na Champions. Tudo o resto passa despercebido, está numa penumbra desportiva.

 

– Já esqueceu o processo judicial de que foi alvo?

 

– Fui acusado de peculato e absolveram-me. O processo só foi possível devido à condenação mediática que me fizeram. A doutora Maria José Morgado foi a culpada. Achava que a investigação na área do crime económico devia ter fóruns televisivos. As pessoas, em praça pública, ardiam em lume brando, porque a justiça é morosa. E não podiam defender-se porque estavam em segredo de justiça. Quando publicar o meu livro, meterei lá os documentos e os pressupostos inacreditáveis da investigação. Vergonha!

 

– O que mudou no futebol?

 

– Tem menos graça e menos capacidade de persuasão junto do poder político. Na arbitragem, já não há a escandaleira que existia no passado. Mas ainda assim continua a haver muitos erros.

 

- O que pensa  de Hermínio Loureiro, actual presidente da Liga?

 

– À partida, sou contra os comissários políticos. Foi esse o mal do Valentim [Loureiro], misturar política e futebol.

 

– E Gilberto Madail, líder da federação?

 

– Apresentou bons resultados com  Scolari e agora com Carlos Queiroz.

 

– Já pensou em ser presidente da Liga ou da Federação?

 

– Qual era o problema? Sou uma pessoa genuinamente do futebol.

 

PERFIL

 

António Pimenta Machado nasceu a 12 de Abril de 1950, em Guimarães (59 anos). Foi eleito com 29 anos para a presidência do V. Guimarães e manteve-se no cargo durante  mais de duas décadas. Construiu o primeiro centro de estágio do futebol português, que se revelou fundamental para os bons resultados do clube (só por três vezes o Sp. Braga ficou à frente do V. Guimarães). Deixou o Vitória em 2004 e está a escrever um livro sobre a sua experiência no futebol.

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