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Correio da Manhã

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JUÍZES AMEAÇADOS DE MORTE

Pimenta Machado foi detido e depois solto sob caução (um milhão de euros). Vale e Azevedo foi detido e ficou em prisão preventiva até julgamento, revelando que houve pressões sobre os juízes nesse sentido. O ex-líder benfiquista voltou a dizer de sua justiça em entrevistas à Rádio Renascença, SIC e TVI.
19 de Dezembro de 2002 às 00:05
– Como reagiu à situação que viveu Pimenta Machado que foi praticamente igual à sua?

Vale e Azevedo – Como é do conhecimento público, o meu caso foi muito mais complicado porque fui vítima de uma situação de linchamento. O que eu digo é que neste momento em Portugal as pessoas preocupam-se mais com o acessório do que com o principal. Agora está na moda perseguir determinadas pessoas, de se criar factos graves, manipular a informação e fazer do oito o oitenta [Pimenta Machado defende a mesma linha de raciocínio]. Quando vejo preocupações como estas em relação ao sr. Pimenta Machado e à minha pessoa e depois uma despreocupação sobre coisas mais graves como a pedofilia ou crianças que são raptadas ou ainda cancros perigosos que por aí proliferam, está tudo dito.

– Que paralelismo vê entre o seu caso e o do presidente do Vitória?

– O paralelismo que vejo é no fundo a utilização de uma pessoa para depois esconder outras situações. No fundo os indícios de acusação, são rigorosamente iguais aos meus.

– Mas Pimenta Machado teve direito a uma caução [um milhão de euros]?

– E eu fui direito à prisão efectiva. Estive seis meses preso em casa e estou no Estabelecimento Prisional há ano e meio. Eu sou a excepção. Aquilo que aconteceu ao sr. Pimenta Machado é o tratamento correcto que qualquer arguido em Portugal normalmente tem, que é a presunção da inocência e, portanto, não é preso por dá cá aquela palha.

– Faltou coragem para o libertarem?

– Faltou coragem para tudo. Lembre-se que o colectivo de juízes que me condenou não poderia ter feito outra coisa. Foi pressionado e ameaçado de morte se não me condenasse.

– Acredita que poderá ser rectificada a sua pena?

– Se houver coragem na Justiça, não tenho dúvidas de que isso vai acontecer. Mas só se houver coragem.

– Foi então mais prejudicado que o dr. Pimenta Machado?

– Mas eu é que sou excepção. É necessário referir que o sr. Pimenta Machado teve o tratamento correcto.

– Como está a viver o actual momento?

– Não é fácil estar preso, sobretudo quando se recebem diariamente dezenas de pessoas nas prisões. Existe um grande esforço de todas as pessoas que trabalham nas prisões que desconhecia. Têm feito um trabalho fantástico. Agora o problema é que as prisões estão cheias, sobrelotadas. A prisão onde eu estou é para 88 reclusos e estamos 150 pessoas.

– Para quando outro livro, ou a continuação de “A Armadilha”?

– Este primeiro livro é o aperitivo para o segundo. No segundo vai haver mais nomes, vou contar com documentos anexos. Vai ser um livro mais extenso porque vai ter documentos que vão provar muita coisa. Mas só o vou publicar em liberdade para poder provar aquilo que ali se vai poder ler.

– Como vê a carreira do Benfica?

– Com alguma tristeza porque foi prometido o céu e a terra e o Benfica recebeu o calvário e o inferno.

– Fala-se que a PJ está a investigar outros clubes. Suspeita de alguém que possa estar nessa situação?

– Há aqui uma situação que eu não entendo. Os clubes estão sem dinheiro para pagar ao Fisco e à Segurança Social. As receitas são muito inferiores às despesas. No caso do Benfica, essa diferença era de quase 10 mil contos dia. Portanto, não entendo onde é que se pode tirar dinheiro. Há aqui uma ficção. Portugal está cada vez mais a aproximar-se do país do faz de conta.

– Acha então que o futebol está a ser bode expiatório?

– Não, o bode expiatório chama-se Vale e Azevedo.

NEGÓCIO DE MEIRA FOI DIRECTO

Contrariamente a Pimenta Machado, que diz ter existido um intermediário, Vale e Azevedo garante que a transferência foi directa.

– Como se realizou a transferência de Fernando Meira?

– Essa transferência foi feita directamente entre o V. Guimarães e o Benfica. Quem fez o negócio foi o sr. Pimenta Machado, o juiz Cândido Gouveia e o sr. José Capristano. Mais ninguém.

– E houve algum acordo de pagamento fora do contrato?

– Não. O pagamento foi feito através das contas do Benfica SAD. Pagámos 200 mil contos mais IVA, da primeira prestação. Depois houve letras que já se venciam, com excepção da primeira, depois das eleições.

– E intermediários, ou agentes do jogador, estiveram nas negociações?

– Foi uma compra directa entre os clubes. Não houve intermediários nem agentes FIFA.
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