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Leonel Pontes: "Ronaldo foi obrigado a crescer depressa"

Leonel Pontes, adjunto de Paulo Bento na Selecção, diz ao ‘Correio Sport’ que jogadores e técnicos ficaram desiludidos por não terem chegado à final do Europeu e frisa que CR7, que conhece desde 1996/97, lidou com as críticas como os campeões: não se deixou abater nem deslumbrar
7 de Julho de 2012 às 15:00
Adjunto de Paulo Bento foi tutor de Cristiano Ronaldo durante a adolescência do avançado
Adjunto de Paulo Bento foi tutor de Cristiano Ronaldo durante a adolescência do avançado FOTO: Francisco Paraíso
Correio Sport - A verdadeira final do Europeu foi o Portugal-Espanha?

Leonel Pontes - Pela qualidade e intensidade do jogo, pelo rendimento de alto nível das duas equipas, pela riqueza do confronto estratégico e pela elevada qualidade dos jogadores envolvidos, e sem menosprezo pela selecção italiana, podia muito bem ter sido a final do Euro'2012,

- O que faltou a Portugal para ter ganho à Espanha antes da lotaria dos penáltis?

- O desgaste provocado pelo trabalho ao longo dos 90 minutos tirou-nos alguma capacidade para tomar as melhores decisões em alguns momentos específicos do prolongamento. A competência e a sorte andam lado a lado, mas a sorte faz parte do lado aleatório do jogo, e aí ela não esteve connosco.

- No prolongamento do jogo com a Espanha, deu a ideia de que os jogadores da Selecção estavam cansados...

- A intensidade do jogo provocou--nos um desgaste enorme, mas também é verdade que controlámos o jogo na maioria do tempo e nos 90 minutos tivemos muitos momentos de domínio sobre o adversário, criando situações de golo, igualando a percentagem da posse de bola e provocando erros na selecção espanhola que nenhuma outra equipa conseguiu provocar neste Europeu.

- Com que sensação se fica depois de perder com os campeões da Europa e do Mundo numa meia-final decidida por penáltis ?

- A sensação é que podíamos ter estado na final. Naturalmente ficámos desiludidos por não o ter alcançado, no entanto, podemos ver a questão também sob outro prisma. Os jogadores e toda a estrutura de apoio mostraram ao longo do processo uma dinâmica e um rigor de alto nível, quer quanto ao comportamento, quer a nível profissional. A Selecção revelou em todos os jogos do Europeu uma organização colectiva elevadíssima.


- Que possibilidades tem este grupo no Mundial do Brasil?

- Só poderemos fazer algo se nos qualificarmos. No entanto, este grupo mostrou que pode bater-se com qualquer equipa do Mundo.

- O Europeu foi o ponto mais alto da sua carreira?

- Sim.

- Foi tutor de Cristiano Ronaldo quando ele chegou ao Sporting com 11 anos. Como exercia essa função?

- A expressão ‘tutor' não fazia parte da nomenclatura das minhas funções. Fui encarregado de educação de um conjunto de jogadores dos quais, a partir da época 1996/97, fez parte o Cristiano Ronaldo até a época de 1998/99. Eu era responsável por todo o planeamento escolar com estreita relação com a escola, nomeadamente com os directores de turma. Fazia a ligação com os treinadores do escalão e com os pais dos jogadores.

- Essa função foi-lhe atribuída por ser madeirense, tal como Cristiano Ronaldo?

- A função de encarregado de educação já a tinha. No entanto, acho que o facto de ser madeirense, conhecer a sua família e de ter ido à Madeira orientar uma equipa num torneio de escolas para o observar pela primeira vez foram motivos para ele fazer parte do meu grupo.

- Como era Ronaldo nesse tempo?

- Já demonstrava uma personalidade diferenciada. Era reservado em determinados contextos, mas muito atrevido quando jogava e competia. Aí não tinha receios de assumir e mostrar todas as suas qualidades, quer no treino ou jogo, quer nos jogos de mesa: ténis de mesa, matraquilhos ou bilhar. Já revelava alguma ascendência sobre os colegas e motivava alguma admiração dos mais velhos, que o acolheram muito bem. Mostrava firmeza nas acções e orgulho nas suas qualidades. Foi obrigado a ‘crescer depressa', mas teve grande capacidade de manter o foco na sua ambição: ser jogador de futebol e poder ajudar a família.

- Ajudava Ronaldo nos trabalhos escolares e geria-lhe a mesada?

- Sim, tal como em outras questões que iam aparecendo ao longo desse processo.

- Desse tempo para o presente, o que mudou em Ronaldo?

- A vida para todos nós muda, e muda em função dos contextos que nos vão surgindo. Para que essa mudança seja natural e sustentada, há vários factores. Naturalmente a vida do Cristiano mudou a todos os níveis, mas foi uma mudança sustentada, fruto essencialmente do seu talento, do seu trabalho e da sua ambição, aliados a uma forte personalidade e ao seu carácter.


- Como é hoje a sua relação com ele?

- Tenho uma muito boa relação profissional, baseada no respeito e na amizade.

- Continua a aconselhar-se consigo?

- O Ronaldo hoje é um homem independente, responsável e maduro. Hoje, mais do que pedir conselhos, ele é referência para os colegas mais novos - como aliás muitos o têm dito - e a quem eles pedem conselhos.

- No Europeu, como lidou Ronaldo com as críticas que lhe fizeram após os primeiros jogos?

- Quem anda nesta actividade sabe que a crítica tem os dois lados. Não foi a primeira, nem será a última. Reagiu como todos os campeões reagem, nem se deixar deslumbrar quando ela foi positiva, nem se deixando abater quando foi negativa.

- Como conheceu Paulo Bento?

- Ele era jogador da equipa principal e eu era treinador adjunto da equipa B do Sporting na época de 2001/2002.

- Como é que a equipa técnica recuperou um conjunto que parecia afastado da luta pela qualificação e quase chegou a campeão da Europa?

- Está à vista de todos, mas destaco como essencial a liderança e competência do seleccionador. A partir daí, tudo se desenrola com elevado profissionalismo, ambição, responsabilidade e compromisso. O Paulo acredita, defende e dá através da sua conduta um exemplo de rigor, trabalho e competência, sempre aliados a um forte contexto de equipa e solidariedade entre todos. Se a isto se juntar o enorme talento que os nossos jogadores têm, estão criadas as condições para termos bons resultados.

- Pensa vir a ser um dia treinador principal de uma equipa?

- Aquilo em que penso para o futuro é o próximo desafio que temos pela frente. Quero continuar a colaborar para que a Selecção se qualifique para o Mundial.

PERFIL

Leonel Pontes da Encarnação nasceu no dia 9 de Julho de 1972 (39 anos) em Porto da Cruz, no Funchal. Licenciado em Educação Física pela Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, entrou no Sporting em 1995 como treinador dos infantis e responsável pelo centro de estágio, juntamente com Paulo Cardoso. Em 2001/02, foi adjunto da equipa B. Em 2004/05, integrou a equipa técnica de Paulo Bento nos juniores de Alvalade (campeões) e, desde então, trabalham juntos.

 

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