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Correio da Manhã

Desporto
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Má sorte ser interino

Leões voltam a recorrer a uma solução interna de emergência que Oceano tenta reverter a seu favor inspirado em outros «milagres» do passado
20 de Outubro de 2012 às 00:00
oceano, sporting
oceano, sporting FOTO: Paulo Calado

A maior honra para um treinador profissional é ser convidado por um grande clube, maior honra ainda quando se trata do emblema do coração. Mas quando esse convite transporta o veneno da interinidade, o estigma de uma comissão de serviço, quase um sacrifício, o não poder dizer não aproxima este protagonista de ocasião de um infeliz condenado.

Aliás, o posto de treinador interino é uma transição só possível em clubes desorganizados, em grande instabilidade e sem um projecto sólido de futuro. Às vezes, é a solução para a dificuldade em encontrar no mercado um profissional cotado que aceite sujeitar-se a tais condições. Um clube organizado e com liderança tem sempre uma solução prevista para uma crise de consequências tão gravosas como a demissão do treinador principal.

Mas Oceano não podia dizer não ao apelo para substituir Sá Pinto, nem contrariar a falta de convicção que o acompanhava, com uma derrota anunciada no Dragão. Nessa semana na cadeira de sonho, Oceano convivia com esse misto de orgulho e desilusão: cumpria um sonho, mas sofria com a falta de confiança generalizada, dos dirigentes aos media, dos adeptos aos adversários, pois ninguém lhe vaticinava melhor do que uma derrota nesse jogo de estreia.

Por acaso, os dirigentes do Sporting não conseguem resolver a questão e o tempo vai sorrindo a Oceano, com mais alguns jogos extra para tentar provar o seu valor. Ele vê-se na linha de Juca, de Mário Lino, de Fernando Mendes e de Inácio, pelos quais também ninguém apostava um centavo e que, partindo de uma escolha de emergência e limitada no tempo, conseguiram chegar ao título. Mas muitos outros viveram esta situação e não tiveram sucesso, suscitando a comiseração no aforismo de que «santos da casa não fazem milagres».

É daí que Oceano parte: da necessidade de operar um milagre, contra todos os prognósticos e expectativas. Não há quem lhe inveje a sorte. 

DE VOLTA AO SACRIFÍCIO DAS GRANDES REFERÊNCIAS

JUCA

1961-62 25 jogos

Um caso de sucesso

O treinador dos juniores pega na equipa após a 1.ª jornada, no meio de uma crise, e chega ao título. Com apenas 32 anos, Juca passou de interino a campeão, legitimando a ambição dos que passaram pela mesma experiência, como Oceano.

 

OSVALDO

1974-75 11

Após derrota na 1.ª jornada, o grande Alfredo Di Stéfano assumiu o conflito com João Rocha, que recorreu a Osvaldo Silva, uma velha glória, treinador dos juniores há dois anos, para o período de transição para Fernando Riera (6 vitórias em 11 jogos).

 

MARINHO

1983-84 2

Joseph Venglos antecipou a saída e Marinho cumpriu os últimos dois jogos, um deles com o Benfica (1-1).

1986-87 2

A meio da temporada, entre o despedimento de Manuel José e a chegada de Keith Burkinshaw, o Sporting só alcançou dois empates.

 

PEDRO GOMES

1984-85 2

Pelo segundo ano consecutivo, o treinador principal saiu antes das últimas duas jornadas e de um derbi, deixando o lugar ao adjunto: desta vez, o galês John Toshack abdicou para Pedro Gomes (uma derrota com o Benfica e uma vitória).

 

VÍTOR DAMAS

1988-89 4

Entre Manuel José e Pedro Rocha, Damas esteve um mês no banco principal (duas derrotas e duas vitórias).

1989-90 1

Oito meses depois, a cena repetiu-se (apenas um jogo, uma vitória) entre nova saída de Manuel José (a terceira) e a aposta em Raul Águas.

 

F.MENDES

1995-96 2

Após a saída de Carlos Queiroz, o antigo capitão e treinador (campeão em 1979-80) assegurou a transição para Octávio Machado.

2000-01 5

Voltou a ser chamado após um dérbi perdido para o Benfica de Mourinho que custou o lugar a Augusto Inácio, até à chegada de Manuel Fernandes.

 

 

VITAL

1997-98 4

Apesar da confiança pública de José Roquette, Francisco Vital não agarrou a oportunidade aberta pela demissão de Octávio Machado e só durou 4 jornadas (apenas uma vitória), fragilizado por não ser uma figura histórica, ao contrário dos antecessores.

 

L.PONTES

2009-10 1

Após uma derrota e três empates, o longo mandato de Paulo Bento foi interrompido e a dificuldade em encontrar um sucessor (seria Carlos Carvalhal) obrigou ao recurso ao adjunto pessoal Leonel Pontes, preferido em vez do histórico Carlos Pereira.

 

A.CABRAL

2010-11 1

Como na situação anterior, a transição entre Paulo Sérgio e José Couceiro foi entregue ao adjunto pessoal do ex-treinador (uma derrota), praticamente desconhecido no clube porque ao contrário da tradição a equipa técnica não incluía figuras leoninas.

 

OCEANO

2012-13 ?

Oceano, que já tinha sido adjunto de José Couceiro, foi promovido da equipa B para suceder a Ricardo Sá Pinto, num retorno dos dirigentes ao recurso a figuras gradas e incontestáveis do clube para tentar serenar um período complicado. Começou com uma derrota no Dragão, mas a demora em encontrar uma solução externa abre-lhe a oportunidade de se firmar como treinador permanente, ainda que com reduzidas chances de repetir o êxito de Juca.

 

FÉ NOS SANTOS DA CASA

Ter sido campeão com Juca, Mário Lino, Fernando Mendes e Inácio inspira os sportinguistas para acreditarem no efeito das apostas drásticas em históricos, particularmente em períodos críticos. O último foi Manuel Fernandes (2000-01), mas não resultou.

 

BENFICA DE VIEIRA GANHOU ESTABILIDADE

INTERINOS NO BENFICA

1996-97   Mário Wilson       1 jogo

1997-98   Mário Wilson       4 jogos

1998-99   Sheu Han             4 jogos

2002-03   Fernando Chalana 1 jogo

No pior período da história do Benfica, a instabilidade também obrigou a recorrer a figuras da casa para cumprir hiatos de liderança. Fernando Chalana ainda cumpriu o final da época de 2007-08 (8 jogos), após a renúncia de Camacho foram os voluntários de um serviço que caiu em desuso com a estabilização empreendida nos últimos tempos por Luis Filipe Vieira.

  

Em 30 anos, Pinto da Costa só teve um precário

Não deve haver outro indicador mais preciso da estabilidade do treinador assegurada por Pinto da Costa ao longo da sua longa liderança do FC Porto, do que a quase total ausência de improvisação em matéria de treinadores. Só uma vez, por uma curta semana, ele foi obrigado a recorrer à interinidade de Alfedo Murça ao ser apanhado desprevenido pela demissão de Quinito, no começo da época de 1988. Ter uma solução assegurada para o futuro é um lema da gestão portista, de forma a evitar surpresas.

 

ALFREDO MURÇA

1988-89 1 jogo

O antigo defesa internacional era adjunto de Quinito quando este cedeu à pressão do cargo e se demitiu, tendo assegurado durante uma semana (uma vitória) a transição para o regresso de Artur Jorge.

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