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Correio da Manhã

Desporto
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MAIS UMA CABALA

Num País atravessado por uma vaga interminável de escândalos, que abalam o mito dos brandos costumes, a vitória do FC Porto em Sevilha só pode ser mais uma cabala
25 de Maio de 2003 às 00:00
Há coincidências assim: o País em estado de choque e o FC Porto em Sevilha para tentar trazer a Taça UEFA. O País em estado de choque, porque depois da prisão de Carlos Cruz, alegadamente por ser a ponta mais visível de um icebergue de pedofilia que está a minar a consciência do país dos bons costumes; depois da fuga de Fátima Felgueiras, presidente de câmara e símbolo de uma certa forma de exercer o poder local que acabou em quase linchamento para o líder da distrital do PS portuense, Francisco Assis; só faltava mesmo, no âmbito das investigações em torno deste fenómeno bárbaro e angustiante que é a pedofilia, a detenção do deputado e porta-voz dos socialistas, Paulo Pedroso, ex-secretário de Estado do Emprego e Formação, ex-ministro do Trabalho e da Solidariedade, um dos políticos mais promissores da geração de 60, braço-direito de Ferro Rodrigues e um dos poucos novos rostos de um partido envelhecido.
Quarta-feira, 21 de Maio. A luz e o calor em Sevilha. As trevas e o frio em Lisboa e em Portugal.
O País, já rachado, a abrir fendas preocupantes, como espécie de legado deixado por Guterres que deixou Portugal cor-de-rosa por fora e podre por dentro, e o presidente da República em Sevilha.
O País em estado de choque e o primeiro-ministro em Sevilha, acompanhado por uma corte de políticos no activo e no passivo, entre os quais se poderiam descortinar os inefáveis Fernando Gomes, Nuno Cardoso, Narciso Miranda e Filipe Menezes (que já teve o seu momento de glória suprema quando se foi babar ao programa do Herman), só para falar daqueles que a comunicação social mais procura.
É azar esta sensação de abandono e orfandade vivida por muitos milhões de portugueses, que testemunharam a angústia e o embaraço de Ferro Rodrigues, na tentativa de proteger o seu amigo e braço- -direito Paulo Pedroso, acusado pelo Ministério Público de 15 crimes de abuso sexual de crianças?
É azar, é coincidência, mas é também o País que temos. O País de duas faces. A luminosa e a obscura, O País que, por não saber como se constrói e sustenta a autoridade do Estado, sem recurso a nenhum tipo de opressão, se habituou a encostar-se às vitórias do futebol. O País ou os seus cidadãos que confundem valores como solidariedade e simpatia, mais ou menos pontuais, com o ridículo da troca pura e simples de cachecol.
Simplesmente, Portugal no seu melhor. As vitórias no futebol fazem o País perder a consciência e a memória. É uma espécie de bebedeira colectiva.
Foi evidente a incomodidade de Jorge Sampaio. Ele sabe que o País tem nele, nesta fase, no activo, talvez a única referência de máxima credibilidade. Pois ele queria testemunhar em Sevilha algo de importante para a imagem de Portugal mas percebia-se que o seu pensamento se encontrava noutros lugares. Ao contrário de Nuno Cardoso, que disse dever estar onde estavam os portuenses (não estava ninguém no Porto?), os azares e as coincidências fizeram com que o presidente da República ficasse mais exposto perante a sua ausência de Belém. Não adiantaria nada ter permanecido no País? No fundo, talvez não. Porém, os portugueses com alma de portugueses, que cultivam os valores, que não acham graça à pedofilia, que encaram com natural preocupação o suposto envolvimento de figuras de proa da sociedade e agora da política nacional, a um alto nível do parlamento, em práticas tão ignóbeis como a pedofilia, podem fingir durante 90, 120 minutos ou seja lá o que for que nada de profundamente grave se está a passar em Portugal?
PORTUGAL E AS SUAS CABALAS
Tudo é uma cabala. Há gente ruim, invejosa, despeitada, capaz de inventar o diabo para levar a taça, e, por isso, todo o cuidado é pouco. O Ministério Público e a Judiciária são constituídos por homens, falíveis como os outros, mas as investigações não são, não podem ser, assomos de leviandade. A justiça é muitas vezes injusta, mas em Portugal, face a um clima de impunidade perante situações realmente graves, criou-se a ideia de que certas pessoas, com ar muito respeitável, podiam até, face ao seu estatuto, abusar de crianças. Banalmente. A invasão dos jardins secretos do ser humano parecia inatingível. Não é.
Cada cavadela cada cabala.
Vivemos na fase das cabalas e do que estão, realmente, por detrás delas.
Nessa medida, num país atravessado por uma vaga interminável de escândalos, que abalam o mito dos brandos costumes, a vitória do FC Porto em Sevilha só pode ser mais uma cabala.
Seria bom que a UEFA, o Benfica e o Sporting, nomeadamente, se explicassem.
Nota - Nem a vitória do FC Porto nem a vitória de qualquer clube português são capazes de me animar ou entusiasmar quando sei que o meu País é um edifício à beira de ruir. Social e politicamente.
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