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MANUEL BOTTO: HÁ TENTATIVA DE DITADURA

Manuel Botto, antigo dirigente do Benfica, assume críticas duras à gestão de Luís Filipe Vieira. Botto diz que não será candidato às eleições de Outubro, mas garante “vai haver luta eleitoral”. E acusa Vieira de querer assumir o poder total...
12 de Maio de 2003 às 00:00
Correio da Manhã – Sentiu-se atingido por Luís Filipe Vieira (LFV) quando o presidente da SAD chamou “papagaios” a “alguns notáveis”?
Manuel Botto - As pessoas que dirigem um clube como o Benfica têm de aceitar a divergência de opiniões. Luís Filipe Vieira, que nem sequer foi eleito, é um dirigente do passado e um factor de desunião. Estamos a resvalar para uma tentativa de ditadura, quando o clube sempre foi extremamente democrático.
- São acusações graves. Pondera candidatar-se às eleições de Outubro para tentar alterar essa situação?
- Não penso nisso. Mas o Benfica, neste momento, tem muitos candidatos potenciais à liderança.
-Quem?
- Não vou referir nomes, mas de certeza absoluta que vai haver luta eleitoral. Há movimentações, já falaram comigo, mas não estou interessado. Assim estou mais à-vontade para falar.
- Quais as críticas que aponta ao mandato de Manuel Vilarinho?
- Foi um enorme erro estratégico atacar ao mesmo tempo os três vectores fundamentais: a recuperação económico-financeira; a recuperação da equipa de futebol; e a construção do novo estádio. A prazo, vamos pagar estas megalomanias.
- O estádio devia ter ficado para trás?
- Sim. Até já comprei dois lugares para o novo estádio, mas dada a situação do clube foi uma escolha errada. Mas existe outro erro que está no cerne de tudo: quando foi lançada a subscrição de 7,5 milhões de contos de acções da SAD, apenas três milhões foram compradas e contraiu-se um empréstimo de 4,2 milhões de contos para cobrir o valor em falta. Esse empréstimo tem hoje os seus custos. Devíamos ter sabido viver com a realidade.
- Por que é que o ‘project-finance ‘ do novo estádio não está aprovado?
- Porque tem pressupostos de receitas desfasados da realidade. A 60 contos cada, o clube tinha 8 mil cativos, aos novos preços quantos terá? São pressupostos que deixam o Benfica refém de um passivo perigoso.
- Hoje, qual é a real situação económica do clube?
- É complicadíssima. As contas consolidadas estavam prometidas para Dezembro mas ainda não foram apresentadas. O Benfica tem uma cultura de sociedade secreta. Mas sei que tem capitais próprios fortemente negativos.
- O Sporting e o FC Porto também...
- Sobre os outros não me pronuncio, a não ser para desejar felicidades ao FC Porto em Sevilha. Faço 50 anos nesse dia e era uma bela prenda.
- Em sua opinião, o que levou Vilarinho a ‘afastar-se’?
- Pessoalmente, não aguentou a pressão e algumas questões de saúde terão também contribuído para isso. Apoiei-o e tenho pena que se tenha ‘apagado’.
- As suas críticas a LFV estendem-se a Tinoco Faria e Fonseca Santos?
- Não. Tinoco Faria é competentíssimo. Devia ser presidente da SAD, porque a maioria do capital é do Benfica. Fonseca Santos é um homem moderno, de muito valor e mal aproveitado.
- Reconhece que a equipa de futebol melhorou?
- O mérito é de Camacho, um treinador que uniu os benfiquistas e interessa manter. Fez exactamente o oposto do que faz LFV, personagem profundamente divisora. O seu estilo é contraproducente e desmobilizador de muita gente que faz falta ao clube. O Benfica não pode ser só Luís Filipe Vieira e aqueles que lhe sabem dizer sim. Um Benfica a fazer múltiplos contratos com o Alverca não ajuda à ética que deve existir no clube. O futebol português precisa de novas mentalidades, nova gente, novos dirigentes.
PERFIL
Manuel Botto, de 49 anos, sócio n.º 6438 do Benfica, ganhou protagonismo no clube quando integrou o Conselho Fiscal da era Vale e Azevedo, tendo sido o primeiro a sair, movendo desde então feroz oposição ao antigo presidente. Chegou a anunciar a sua candidatura contra Vale, mas desistiu em favor de Manuel Vilarinho. Casado e pai de quatro filhas, este Revisor Oficial de Contas é hoje um crítico do estilo de Luís Filipe Vieira, a quem não reconhece legitimidade.
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