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MANUEL JOSÉ: TRÊS ANOS PARA COLOCAR O BELENENSES NO TOPO

Falar de treinadores e não referir Manuel José é praticamente uma heresia. Ao ‘CM’ garantiu que será treinador até que as capacidades físicas e mentais o permitam, rejeitando sem rodeios que seja um técnico da ‘velha guarda’...
14 de Agosto de 2003 às 00:00
Manuel José assume-se como técnico moderno e fã da Internet
Manuel José assume-se como técnico moderno e fã da Internet FOTO: Jorge Paula
Correio da Manhã – A pré-época decorreu como pretendia?
Manuel José – Sim, até agora tudo tem decorrido muito bem. Não temos tido lesões, os jogadores tem estado todos à disposição e a equipa vai tomando forma.
– A equipa apresenta já os níveis esperados para o momento?
– Ainda não, mas mal seria se já estivesse porque depois era difícil manter esse nível durante toda a época. Estamos a 50 por cento daquilo que foi o ponto de partida da época.
– Espera entrar bem no Campeonato?
– Sim. Temos uma equipa jovem e um início de campeonato extremamente exigente, mas se conseguirmos entrar na prova a 60 por cento já será bom.
– Este 'seu' Belenenses será diferente?
– Certamente. Estamos a criar o culto da vitória nos jogadores. Queremos conviver com naturalidade com a vitória. É isso que estamos a transmitir em todos os jogos. Queremos um Belenenses virado para as vitórias.
– Quais os objectivos do Belenenses?
– Lançar jogadores jovens através de uma política desportiva diferente daquela que existia. Vamos apostar nos jovens e criar uma filosofia competitiva, muito mais agressiva e totalmente virada para a vitória. É certo que este ano não será muito exigente, mas será o arranque para daqui a dois ou três anos o Belenenses começar a jogar definitivamente para os lugares cimeiros.
– Como analisa os jovens jogadores em que apostou?
– Todos eles têm excelentes possibilidades. São bons jogadores. Agora, terão de evoluir e adquirir a mentalidade ganhadora que pretendemos. A juventude dá-lhes a irreverência e a ambição necessária para se imporem no futebol nacional. Mas terão de trabalhar muito e adquirir estrutura mental ganhadora. O futuro é que vai dizer a verdade quanto às esperanças que tenho neles.
– O Manuel José é conhecido como um técnico tradicionalista. Concorda?
– Aos 100 anos se quiser ser treinador e tiver longevidade para tal estarei apto. É uma treta aquilo que se está a criar sobre o treinador jovem que é mais evoluído, etc... Só não me actualizo se não quiser. Hoje existe a Internet onde temos acesso a tudo o que se faz no futebol mundial. Antigamente navegávamos com as caravelas, hoje navegamos na Internet sem sair da cadeira. A tudo o que há e que se faz de mais moderno no futebol eu posso ter acesso. Em termos de idade serei um pouco mais velho do que os outros, mas tenho o ‘curso’ do saber e da experiência feita. Em termos de ambição tenho a mesma quando comecei a carreira há vinte e muitos anos. Trabalho para ter sucesso. Chegar ao top não custa muito. Agora andar todos estes anos como eu ando no top, isso é que é mais difícil. Já vi nascer e morrer muitos treinadores.
– Qual é o seu treinador de referência?
– Nenhum.
– Em que aspecto se acha mais à frente em relação aos seus colegas?
– Não conheço o dia-a-dia dos outros treinadores. Vejo-os nos jogos e analiso a forma como intervêm nas partidas. Por isso, não me quero diferenciar de ninguém. Não sei se sou melhor ou pior. Apenas sei que trabalho e que tenho um amor muito grande pelo futebol. Enquanto tiver saúde mental e física serei treinador. Quero apenas servir o melhor que sei a minha entidade patronal.
– Para si o Belenenses é, de facto, o quarto clube português?
– Em termos de implantação popular a nível nacional é de facto o 4.º grande clube. Não tenho dúvidas.
–Como analisa o êxito que teve a treinar no Egipto?
– Aquilo foi uma aventura que quis fazer e que me saiu muito bem. Ganhei a Liga e a Supertaça de África, competições que tem a mesma importância para eles que a Liga dos Campeões para a Europa. E o que é que me aconteceu? Dei duas ou três entrevistas na altura e nada mais.
– Vai voltar a repetir a experiência?
– Nunca se sabe. Sou treinador de futebol.
– Concorda com a redução de clubes na SuperLiga?
– Já no tempo em que eu jogava futebol, 16 equipas era o padrão do campeonato. Agora digam-me qual é a diferença em jogar um campeonato com 16 ou com 18 equipas. Parece que descobriram a pólvora. Quais são as diferenças? Gostava que alguém me explicasse para ver se entendo, porque não percebi.
"NÃO ESPERO MAIS REFORÇOS"
-–As contratações foram aquelas que pretendia?
– Foram as possíveis em função do orçamento que o clube tem. Daí o termos apostado em jogadores pouco conhecidos.
– A SAD satisfez as suas intenções?
– Dentro das possibilidades que tem, não tenho razão de queixa.
– A equipa está deficitária em algum sector?
– Claro que sim, porque não há possibilidades financeiras para podermos ter dois jogadores por posição. É verdade que temos algumas posições com mais de um jogador, mas outras existem que não temos. Contudo, contratámos jogadores com polivalência que podem fazer duas ou três posições, em caso de necessidade.
– João Tomás foi hipótese. O que falhou?
– Falou-se de vários jogadores, mas o Belenenses não tem hipótese de pagar os salários que esses jogadores auferem.
– Espera mais reforços?
– Não.
– E o Cabral? Já não vem?
– É verdade que chegámos a pensar nele, mas não era fácil e acabámos por desistir.
"NOMEAÇÕES SÃO UM PASSO ATRÁS"
– Esteve perto de ser o seleccionador nacional. O que é que falhou?
– Já falei sobre isso e não quero voltar a pronunciar-me.
– Saiu magoado com o presidente Gilberto Madaíl?
– Não saí magoado com ninguém porque ando há muitos anos no futebol. Conheço toda a gente e sei qual é o perfil de cada um. É evidente que ser seleccionador nacional é um sonho que tenho para a minha carreira. Isso não é segredo para ninguém, porque sempre o disse publicamente.
– O regresso às nomeações dos árbitros preocupam-no?
– Sim, até porque é um assunto polémico. Não sei quem vai ganhar com isso. O Luís Guilherme – presidente CA da Liga – diz que é o futebol, eu acho que não. Para mim voltar às nomeações foi dar um passo atrás. O sorteio deu alguma credibilidade ao futebol. A suspeição que existia diluiu-se bastante e na época que antecede o Euro'2004 é a pior coisa que poderiam ter feito. Espero que o Luís Guilherme tenha capacidade para se tornar imune às pressões que vai sofrer. Ele esqueceu-se de um pormenor importante: os dirigentes desportivos do tempo das nomeações são praticamente os mesmos. Há velhos hábitos que se tinham perdido e que agora vão voltar.
PERFIL
Natural de Vila Real de Santo António, Manuel José é casado e tem um filho. Estreou-se como jogador no Benfica, chegando a representar um punhado de clubes durante a sua carreira. Em 1978, o amor que ainda hoje tem pelo futebol, levou-o a abraçar a carreira de treinador. Daí para cá, enquanto técnico, defendeu as camisolas do Sp. Espinho, V. Guimarães, Portimonense, Boavista, Benfica e U. Leiria, entre outros. Mais de vinte anos a um ritmo exigente que o levou e mantém no top dos melhores treinadores nacionais.
Gosta de ler e de ir à pesca e elege a cidade de Espinho, logo a seguir à sua terra natal, como a melhor para viver. Ao nível de títulos conquistados, Manuel José colocou o seu ‘carimbo’ numa Taça de Portugal, uma Supertaça, Liga dos Campeões Africanos e Supertaça africana de futebol. Mas promete não se ficar por aqui, até as suas faculdades se manterem, será treinador.
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