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MARINHO PERES: FOI UMA DESPEDIDA MUITO DOLOROSA

Marinho Peres foi o técnico estrangeiro que melhores classificações conseguiu para o Belenenses. Depois de uma série de maus resultados e como ninguém assumia culpas, o profissionalismo falou mais alto e bateu com a porta
31 de Janeiro de 2003 às 00:00
Correio da Manhã – Como se sente na hora da despedida?

Marinho Peres – Sinto-me triste. Fui eu e o Paulo Autuori quem abriu as portas do mercado português aos treinadores brasileiros, depois da época de Manuel Moreira, José Moreira e Otto Glória e isso jamais esquecerei. Depois, foi o facto de ter conseguido, nos clubes por onde passei, deixar o meu cunho pessoal com classificações e conquistas importantes. Por tudo isso, levo comigo um grande orgulho interno, por ter trabalhado em Portugal durante dez anos.

– O que é que falhou depois de excelentes prestações à frente da equipa do Belenenses?

– O que falhou não importa. Foi discutido dentro do clube e isso é que é importante. Agora o que me fez sair, foi o facto de ninguém ter assumido os erros publicamente. Como líder do grupo, entendi que era melhor para o clube vir a público apresentar a minha demissão. Foi isso que fiz.

– Ficou surpreendido pelo facto dos dirigentes do clube terem aceite a sua demissão?

– Sim e não. Mas não quero falar nisso. Digo-lhe apenas que o Luís Campos, como grande profissional que é, fez o mesmo que eu e a direcção do V. Setúbal apoiou-o...

– Quer então dizer que a direcção do Belenenses não o apoiou?

– As acções ficam para quem as pratica. Eu, enquanto profissional, tinha de fazer o que fiz. A direcção do clube aceitou e eu saí.

– Saiu com rescisão amigável?

– Sim. Apenas pedi um mês de ordenado, nada mais. Saí do Belenenses sem exigir nenhuma indemnização.

– Pelas suas palavras percebe-se que sai triste?

– Claro que saio triste. Foram dez anos em Portugal, a maior parte deles ao serviço do Belenenses onde conseguimos lugares que nos últimos anos o clube não vinha a alcançar. Em 88/89 vencemos a Taça de Portugal frente ao Benfica de então, muito forte. Já sinto saudades do clube que, refira-se, hoje, apesar dos problemas, está em oitavo lugar.

– Apesar dos problemas? Como assim?

– Vivi algumas situações que não foram boas, mas esta é a vida de um treinador de futebol.

– Que situações?

– Não interessa referir isso agora. Saí e não quero falar mais sobre isso. Na altura, olhos nos olhos, disse a quem de direito o que tinha a dizer. Esta é a minha postura e não vou mudá-la agora.

– Disse o quê e a quem?

– O quê, não vou referir. A quem, foi aos directores do clube.

– E agora?

– Agora vou tratar das coisas que ainda tenho a resolver em Portugal, que se prendem com o pagamento da luz, água, devolver o carro, a casa e dentro de 15 dias regresso ao Brasil.

– Gostava de ficar a treinar em Portugal?

– Claro que sim, mas não tenho residência aqui e, como tal, tenho de regressar ao meu país. Depois, logo se verá como vai ser o futuro.

– Já recebeu algum convite?

– Não. Quando chegar ao Brasil vou ver como estão as coisas e, se aparecer um convite de Portugal, claro que regressarei.

– O que é que os jogadores lhe disseram na hora da despedida?

– Foi uma despedida muito dolorosa para mim. O Belenenses tem excelentes profissionais que vão levar o clube ao lugar que merece.

SEMPRE GENTLEMAN

Marinho Peres na hora da despedida voltou a ser um “gentleman”. Na conversa que teve com os jornalistas nunca deixou escapar uma palavra menos abonatória para com os dirigentes do clube.

Todavia, o CM sabe que no cerne da questão que o levou a sair da liderança técnica da equipa do Belenenses estiveram algumas contratações de atletas sem que o técnico tivesse sido ouvido, ou opinasse sobre o valor técnico dos jogadores, como aliás seria normal. As divergências aquando da contratação de Mauro ao Paços de Ferreira foram públicas. O angolano Loló foi outro dos jogadores que chegaram ao Restelo sem a concordância de Marinho.

NENÉ ESTREIA-SE NO RESTELO

Consumada a rescisão amigável entre Marinho Peres e o Belenenses, coube a Nené, adjunto do técnico demissionário, assumir a liderança da equipa, apesar de os dirigentes da SAD ‘azul‘ já terem afirmado que estão no mercado à procura de um treinador para substituir Marinho Peres.

O ex-técnico do Leixões, Carlos Carvalhal, continua a ser o favorito da SAD ‘azul’, goradas as hipóteses Manuel José e Fernando Santos. Mas para já é Nené o comandante. Com meia dúzia de treinos já efectuados como técnico principal, Nené vai estrear-se no próximo domingo no Restelo, frente ao Santa Clara, para a 20.ª jornada da SuperLiga.

PERFIL

Marinho Peres, de 55 anos, estreou-se como treinador em Portugal ao serviço do V. Guimarães na época 86/87. No ano seguinte e depois de um 3º lugar no Campeonato ao serviço dos vimaranenses, assumiu a liderança técnica do Belenenses, onde esteve duas épocas consecutivas, alcançando lugares de destaque (3ª e 7ª). O seu trabalho no Restelo, fê-lo entrar em Alvalade pela porta grande. No primeiro ano conseguiu levar os ‘leões’ até ao 3º posto, para no ano seguinte ser substituído por António Dominguez à 25ª ronda. Regressou a Guimarães; transferiu-se depois para o Marítimo e, finalmente, regressou ao Belenenses, clube com o qual rescindiu agora. “Foram dez anos a treinar em Portugal que deixam saudades...”, assume.
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