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“Mourinho ajudou-me quando o meu pai morreu"

Sílvio recua no tempo para falar, pela primeira vez, da tragédia que o aproximou do ‘Special One’. O defesa do Sp. Braga também analisa o jogo de hoje com o Sporting, o superempresário que o representa (Jorge Mendes) e o interesse do FC Porto.
7 de Janeiro de 2011 às 14:30
“Mourinho ajudou-me quando o meu pai morreu'
“Mourinho ajudou-me quando o meu pai morreu'

Correio Sport - O que espera da deslocação a Alvalade (hoje)?

Sílvio – É um jogo que acontece na altura ideal, porque vimos de duas goleadas seguidas [3-1 frente ao V. Guimarães e 5-0 à Académica] e queremos prolongar esse ritmo bom. Vamos lá para ganhar.

- Como é que o Sp. Braga pode ganhar ao Sporting?

- Com a agressividade que mostrámos na Taça da Liga e no jogo com a Académica. Quando temos a bola, somos perigosos. É jogar focados no nosso objectivo. Temos capacidade para anular o Sporting.

- Este é o melhor momento da equipa?

- Já tivemos uma fase muito boa, no início da época, quando nos apurámos para a Liga dos Campeões. Estamos numa fase crescente.

- Ainda dá para o Sp. Braga alcançar o seu objectivo mínimo (4º lugar) na Liga?

- O quarto lugar, sim. Repetir o segundo será mais difícil. Se continuarmos com este andamento e trouxermos uma vitória de Alvalade, vai ser difícil alguém travar-nos. Este jogo com o Sporting é muito importante para nós.

- Com a eliminação da Taça de Portugal e da Liga dos Campeões, a Taça da Liga virou prioridade para o clube?

- É um dos nossos objectivos.

- E a Liga Europa?

- Temos o sonho de chegar longe, depois de termos experimentado a Champions. Mas queremos, sobretudo, deixar uma boa imagem.

-O próximo adversário é o Lech Poznan...

- Ainda não estamos focados nesse jogo.

- O que custou mais: a eliminação da Champions ou as derrotas no campeonato?

- Ainda é cedo para haver decisões na Liga e estamos bem embalados para subir na classificação. Na Champions, custou perder em casa (0-3) com o Shakhtar, mais do que a goleada (0-6) em Londres com o Arsenal. As pessoas esperavam que estivéssemos fora da competição à terceira jornada, mas acabámos por estar bem na Liga dos Campeões até ao fim.

- Arrepende-se de ter saído do Benfica?

- Não. Ofereceram-me um contrato que não era bom para mim. Os valores eram os piores que me podiam ter apresentado. Tinha 18 anos, muitos sonhos, quis logo sair.

- A sua carreira teria tomado outro rumo se tivesse ficado?

- Diferente seria de certeza, até porque só no ano passado seria um jogador livre. Mas acho que fiz a opção certa ao não assinar. Tenho colegas meus que assinaram e andam esquecidos em escalões baixos. Vim para o Sp. Braga, joguei na Champions e cheguei à Selecção A. Não me posso arrepender.

- Depois do Benfica, foi para o Chelsea. Como é que tudo aconteceu?

- Foi um tio meu que falou com o assessor de imprensa do José Mourinho [Eládio Paramés]. Treinei lá uma semana, mas não cheguei a ver o Mourinho, porque ele estava num estágio de pré-época em Seattle (EUA). Acho que não me quiseram por ser pequeno e franzino. Muito diferente do que sou agora. Dei um pulo e ganhei corpo depois dos 18. Estava lá o William Gallas, que ia sair para o Arsenal, e parecia um bicho ao pé de mim.

- Chegou a conversar com Mourinho?

- Não o vi nem falei. Não tinha confiança para tal, apesar de o conhecer do tempo em que treinava o Benfica. Ele esteve presente no momento mais doloroso da minha vida.

- A que se refere?

- Ajudou-me muito quando o meu pai morreu. Nunca falei sobre isto. Foi uma tragédia que aconteceu quando tinha 12 anos (2000), nos iniciados de primeiro ano do Benfica. O meu pai estava a ver o treino e rebentou-lhe uma veia. Faleceu ali mesmo. Foi complicado para mim, fechei-me e não compreendi a morte. O ‘mister’ Mourinho e o Mozer, que na altura treinavam o Benfica, souberam do que aconteceu e levaram-me para estágio no fim-de-semana seguinte. Fui com a equipa principal a Paços de Ferreira e acabei por esquecer um pouco o pesadelo que estava a viver.

-Foi aí que decidiu tornar-se futebolista profissional?

- Decidi isso aos 6 anos. O meu pai jogou nas camadas jovens do Sporting e do Belenenses, o meu irmão mais velho joga agora nas distritais, o futebol faz parte da família. Nesse estágio do Benfica, conheci jogadores com quem me cruzei mais tarde. Por exemplo, reencontrei o João Tomás no Rio Ave.

- Manteve a ligação a José Mourinho?

- Não, não. Como disse, não cheguei a vê-lo no Chelsea. Mandaram-me embora antes de ele chegar.

- Mourinho disse numa entrevista ao CM que Sílvio era o melhor jogador do campeonato português.

- Sim, mas não mantivemos contacto. Quando vi a entrevista não queria acreditar nos elogios.

- Foi uma forma de Mourinho dizer que continua atento?

- Gostava muito que ele estivesse atento ao meu trabalho, mas não sei. Ele tem tanta coisa para ver em Espanha [risos].

- Passou também pelo Portsmouth. Como foi?

- O Manuel Fernandes, meu amigo desde a formação do Benfica, ligou-me para ir lá treinar. Ficava em casa dele, não gastava um tostão. Estive lá um mês e uma semana, gostaram de mim, mas o Benfica tramou-me.

- Como assim?

- Para fazer um jogo oficial, era preciso uma autorização do Benfica por causa dos direitos de formação. Fui a Lisboa pedir o documento, segui as formalidades todas e eles prometeram enviá-lo para Inglaterra. Mentiram. Foi-se a oportunidade. Quando voltei a Portugal, só tinha aberta a III Divisão.

- Foi difícil vir da Premier League para o Atlético do Cacém?

- Foi a única altura em que me arrependi de ter saído da Luz. Chorei.

- Alguma vez pensou em desistir do futebol?

- Nem quando fui enganado por um empresário.

- Pode concretizar?

- Apareceu-me com promessas de um contrato com o Maiorca, viajei para assinar e o avião parou nas Canárias. No aeroporto, veio ter connosco um dirigente do Vecindario, da segunda divisão espanhola. Nunca tinha ouvido falar nesse clube. Virei costas, o empresário revoltou-se e fui insultado até Lisboa.

- E o Rio Ave?

- Saí do Atlético para o Odivelas e fiz uma época espectacular. Num jogo para a Taça de Portugal contra o Rio Ave, repararam em mim. Mal acabou o jogo, um ex-director desportivo do Rio Ave veio ter comigo, elogiou-me e disse que iam estar atentos à minha evolução. No final da época, contrataram-me e assinei com o empresário Paulo Barbosa.

- Depois veio o Sp. Braga e o agente FIFA Jorge Mendes?

- Já ouvia falar no interesse do Sp. Braga desde a primeira época no Rio Ave, mas só assinei neste Verão. Acabei contrato com o Paulo Barbosa a 30 de Setembro e só depois apareceu o Jorge Mendes.

- Com Jorge Mendes, sente a carreira mais segura?

- É o melhor do mundo. É claro que me dá segurança para o futuro.

- Prefere sair para um grande ou para o estrangeiro?

- Antes, preferia um grande português. Agora, vejo-me a jogar mais depressa em Espanha ou Inglaterra.

- Foi sondado pelo Sporting...

- Falaram-me do interesse do Sporting... depois foram contratar o Evaldo ao Sp. Braga.

- Está na lista de reforços do FC Porto. Sabia?

- Não sabia. Li sobre o CSKA, mas não tenho vontade de jogar na Rússia, pelo menos por enquanto.

- Agora que Bosingwa voltou à Selecção, espera ser chamado?

- Se for, será para lateral-esquerdo. Importante é ser convocado. Antes de vir para o Sp. Braga, ninguém me via como jogador de selecção. Agora que subi de nível, vou dar tudo para continuar lá e merecer a confiança de Paulo Bento.

- Mas em que lado prefere jogar?

- Fiz a minha formação na esquerda, mas, como sénior, tenho jogado mais na direita. Prefiro a direita, mas fiz os últimos jogos do Sp. Braga na esquerda e estive bem.

- Paulo Bento mudou a Selecção para melhor?

- Não comento porque não estive no tempo do Carlos Queiroz. Paulo Bento parece-me um excelente treinador. Acredito que vai apurar Portugal para o EURO 2012.

- Quando foi avançado mais difícil de travar que já teve enquanto jogador do Sp. Braga?

- O Hulk, sem dúvida. Mais do que os avançados do Arsenal.

TATUAGENS E AMIZADE COM VIANA

"Adaptei-me bem em Braga com a ajuda do Hugo Viana. É o colega com que me identifico mais, mas dou--me bem com todos. O Viana é tranquilo como eu. A única excentricidade que tenho são as tatuagens. Tenho duas e vou fazer mais"

PERFIL

Sílvio Sá Pereira nasceu em Lisboa a 28 de Setembro de 1987 (23 anos). Ingressou no Benfica aos 7 anos e saiu aos 18, em busca de um contrato vantajoso. Na Luz, venceu um campeonato distrital de infantis, mas perdeu o pai aos 12 anos. Prestou provas no Chelsea e no Portsmouth em 2006, antes de jogar na III Divisão. Mudou-se em 2008 para o Rio Ave e, no Verão passado, para o Sp. Braga, onde somou a primeira internacionalização A. Diz-se avesso à fama, passa muito tempo em casa e dedica-se ao surf nas férias.

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