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Correio da Manhã

Desporto
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Murray contra um muro chamado Nadal

As expectativas do Reino Unido saíram goradas e continuará a não haver um britânico na final de Wimbledon desde 1938. Porque Andy Murray, mesmo jogando bem, foi destroçado por um excepcional Rafael Nadal – que na final mede forças com um antigo rival, o torpedeiro checo Tomas Berdych. A final feminina de sábado joga-se entre Serena Williams e Vera Zvonareva.
2 de Julho de 2010 às 23:58
Rafael Nadal triunfante
Rafael Nadal triunfante FOTO: Phil Noble/Reuters

Antes do respectivo embate nas meias-finais, Andy Murray havia confessado que o jogador que prefere ver actuar é Rafael Nadal. Teve a oportunidade de o ver muito bem do outro lado da rede – e constatar uma vez mais a extrema competência de um dos maiores competidores da história da modalidade e talvez mesmo o melhor da actualidade desportiva..

Depois do enorme fiasco da selecção inglesa de futebol, todo o Reino Unido depositava grandes esperanças no jovem escocês para se tornar no primeiro britânico a atingir a final de Wimbledon desde Bunny Austin, em 1938; afinal de contas Andy, apesar de em desvantagem no mano-a-mano (3/7), havia batido Rafa nas últimas duas vezes que se defrontaram em torneios do Grand Slam. No entanto, o campeão espanhol foi melhor nos momentos decisivos de um duelo de grande qualidade e impôs-se por 6-4, 7-6(8/6) e 6-4. Tanto David Beckham como os vários elementos da casa real inglesa presentes no Centre Court tiveram de se resignar perante a demonstração de força do número um mundial.

LISONJA E LÁGRIMAS

Murray (4º ATP) até actuou em excelente plano e na fase final do segundo set dominava mesmo em quase todos os parâmetros estatísticos, mas Nadal (1º) foi uma parede de consistência (uma parede de extrema mobilidade!) e esteve irredutível nos momentos decisivos: teve um ponto de break no primeiro set e aproveitou-o para fazer a diferença no marcador; a 5-5 no tie-break da segunda partida, cometeu uma inesperada dupla-falta que deu set-point ao adversário no seu serviço, mas reagiu positivamente de maneira estrondosa ao conseguir três fabulosos pontos consecutivos que lhe permitiram arrecadar o segundo set; ainda sofreu um break madrugador na terceira partida, mas encetou uma notável cavalgada a partir de 2-4 para fechar o encontro.

Depois de ter ‘partido a cabeça’ e ‘arrancado o coração’ a Murray, o espanhol deu-lhe um abraço sentido no final do encontro e na conferência de imprensa voltou a mostrar compaixão: «o Andy é bom demais para ser admirador meu e ganhará seguramente um torneio do Grand Slam». Os elogios mútuos prosseguiram na conferência de imprensa do britânico, que disse ser Nadal «um dos melhores jogadores de todos os tempos» e que… chegou a verter uma ou outra lagrimazita de desapontamento. No court, tem-se revelado mais duro do que o anterior número um britânico Tim Henman (que também perdeu duas meias-finais em Wimbledon mas que era ridicularizado pelos tablóides por ser demasiado gentil), mas nunca ninguém viu ‘Gentleman Tim’ chorar…

ARBITRAGEM PORTUGUESA

Tendo em conta que o maiorquino não pôde jogar em 2009 devido às suas crónicas lesões nos joelhos, teoricamente qualificou-se para a sua quarta final consecutiva em Wimbledon: jogou as três primeiras diante do seu incontornável rival Roger Federer (perdeu em 2006 e 2007, ganhou em 2008) e no domingo assume favoritismo diante de um estreante em derradeiros encontros de eventos do Grand Slam: Tomas Berdych, o checo a quem no passado, no torneio de Madrid de 2006, chegou a dizer: «Tu és má pessoa». Nessa ocasião, Berdych exasperou com nacionalismo exacerbado no apoio a Rafa e teve alguns gestos deselegantes após bater o espanhol. Desde então, Nadal nunca mais o deixou ganhar, embora as relações entre ambos tenham ficado cordiais.

Se Murray não conseguiu quebrar um longo jejum de britânicos na final masculina de Wimbledon, Tomas Berdych (13º) é o primeiro checo a atingir tal desiderato desde Ivan Lendl, em 1987; recente semifinalista em Roland Garros, o poderoso jogador de Leste bateu o seu vizinho sérvio Novak Djokovic (3º) por 6-3, 7-6(11/9) e 6-3 num duelo arbitrado pelo árbitro internacional português Carlos Ramos – que teve de admoestar os dois intervenientes (Berdych por violação de tempo, Djokovic por abuso de raqueta). Tal como sucedeu na segunda meia-final entre Murray e Nadal, o tie-break do segundo set foi crucial para o desfecho do encontro: Djokovic salvou quatro set-points consecutivos no tie-break para depois o entregar com uma dupla-falta. E, tal como aconteceu com o escocês, alguns problemas técnicos na pancada de direita do sérvio impediram-no de ser tão agressivo como o adversário. «Esperei pelos erros dele; fiz mal. Não mereci ganhar hoje, tão simples como isso», disse o campeão do Estoril Open de 2007.

GUERRA QUENTE

E a final feminina? Numa altura em que as relações entre EUA e Rússia se deterioraram devido ao caso de espionagem que tem surpreendido o mundo, a cimeira de sábado será protagonizada por jogadoras das duas super-potências – e não será uma guerra fria, porque são ambas temperamentais… com uma grande diferença: Serena Williams canaliza as emoções em benefício próprio e o seu currículo até ao momento já a coloca entre as melhores tenistas de todos os tempos, com 12 títulos do Grand Slam; Vera Zvonareva tem tido uma carreira de altos e baixos caracterizada por lesões constantes e uma fragilidade psicológica que já provocou algumas das mais embaraçosas cenas jamais vistas em competição, mas que não têm impedido incursões suas pelo top 10.

Nas meias-finais, tanto a americana (1º) como a russa (25ª) fizeram valer o seu melhor ranking perante surpreendentes adversárias que não acusaram demasiado a solenidade da ocasião e até ofereceram excelente resistência. Mas, após a eliminação precoce de todas as outras solistas do circuito feminino até aos quartos-de-final, já se sabia que este era um torneio que Serena Williams está obrigada a ganhar obrigatoriamente. O próprio John McEnroe, provavelmente o melhor comentador televisivo da actualidade, já arriscou: «Se ela não ganhar o título, faço os comentários da final masculina a fazer o pino».

VERA VULCÂNICA

Serena é uma das maiores campeãs na história da modalidade e uma das mais mediáticas desportistas do planeta. Já Vera Zvonareva é uma das mais discretas russas do circuito – mas dotada de uma excelente competência técnica e com um notável trajecto curricular que merecia reconhecimento para além da sua fama de jogadora chorona e mentalmente fraca. Será a terceira russa a jogar a final de Wimbledon após Olga Morozova em 1974 e Maria Sharapova em 2004, curiosamente diante de adversárias americanas mas com sortes distintas: Morozova sucumbiu diante de Chris Evert, Sharapova impôs-se a… Serena Williams.

"É um dos meus sonhos, jogar a final de Wimbledon no Centre Court", confessou Zvonareva, que estuda relações internacionais e que até poderia ser uma excelente… espia. E tem ligações remotas com Portugal: o seu agente é Ben Crandell, o mesmo de Michelle Brito; durante três meses foi treinada por António Van Grichen e até ganhou um título nesse período, mas a sua ligação umbilical ao anterior técnico levou à dissolução da parceria. É pena para o treinador lisboeta: a sua ex-pupila ganhará pelo menos 611.000 euros pela presença na final de singulares (exceptuando os prémios de pares, claro) e se vencer arrecada mais de 1,2 milhões de euros!

"Vai ser duro contra a Serena, mas tenho confiança em mim. Não quero saber o que dizem sobre o meu temperamento, posso partir a raqueta mas isso não quer dizer que não esteja concentrada no jogo", referiu. O certo é que a sua carreira ressuscitou após acompanhamento por parte de um psicólogo desportivo na sequência de um período negro que teve como auge um duelo no US Open de 2004 diante de Elena Dementieva (durante praticamente dois sets não parou de chorar e de se auto-flagelar com a raqueta); saiu do top 10 e regressou mais controlada, se bem que outros colapsos tenham acontecido mais recentemente (rasgou as ligaduras no US Open de 2009 diante de Flávia Penetta, estilhaçou espectacularmente uma raqueta na final de Charleston deste ano face a Samantha Stosur) e novas lesões a tenham impedido de se consolidar entre as 10 primeiras da classificação. A presença no derradeiro encontro de Wimbledon fá-la-á regressar a essa elite.

Segundo a cotação dos corretores de apostas, Serena Williams parte para a final com Vera Zvonareva como a mais clara favorita à conquista do título nos últimos dez anos. Lidera o mano-a-mano por 5-1 e ganhou três títulos em cinco finais de Wimbledon, mas até já perdeu com a moscovita este ano na relva da Catedral do Ténis – na variante de pares, ao lado da irmã Venus (juntas são quase imbatíveis, tendo perdido apenas 5 de 60 encontros de pares!), contra Vera Zvonareva e Elena Vesnina. 

MEIAS-FINAIS FEMININAS

Serena Williams (EUA, cs1)-Petra Kvitova (Che), 7-6, 6-2

Vera Zvonareva (Rus, cs21)-Tsvetana Pironkova (Bul), 3-6, 6-3, 6-2

SEXTA-FEIRA: MEIAS-FINAIS MASCULINAS

Tomas Berdych (Che,cs12)-Novak Djokovic (Ser,cs3); 6-3, 7-6, 6-3

Rafael Nadal (Esp,cs2)-Andy Murray (Esc,cs4); 6-4, 7-6, 6-4

SÁBADO: FINAL FEMININA

Serena Williams (EUA,cs1)-Vera Zvonareva (Rus,cs21); MANO-A-MANO: 5-1

DOMINGO: FINAL MASCULINA

Rafael Nadal (Esp, cs2)-Tomas Berdych (Che, cs12) MANO-A-MANO: 7-3

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