Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
4

"Não basta ser bom jogador para estar no Benfica"

Comprometido com a selecção tunisina, que procura o apuramento para o Mundial, Humberto Coelho admite estar atento ao ‘seu’ Benfica. E avisa que a equipa terá de ser mais consistente e ter mentalidade ganhadora para chegar ao título.
18 de Julho de 2009 às 00:00
Humberto Coelho, actual seleccionador da Tunísia
Humberto Coelho, actual seleccionador da Tunísia FOTO: Paulo Ferreira/Record

Correio Sport – A aventura na Tunísia está a corresponder às suas expectativas?

Humberto Coelho – Está dentro das expectativas porque somos líderes do nosso grupo, com 2 pontos de vantagem. O_objectivo mais importante é o Mundial, pois a presença da Tunísia no CAN, que se realiza em Angola, está praticamente assegurada.

– O jogo na Nigéria pode ser determinante para a presença da Tunísia no Mundial. E para o seu futuro?

 

– Isso já não sei dizer. O mais importante, no imediato, é garantir _a presença da Tunísia no Mundial de 2010, e se conquistarmos pontos no próximo jogo será vantajoso para nós.

– Que jogador tunisino indicaria aos ‘grandes’ de Portugal?

 

– Todos. Bem, não se pode pensar assim, os jogadores da selecção tunisina são jovens que estão a começar e a ganhar experiência. Têm lugar na Liga portuguesa mas, em relação aos ‘grandes’, tudo dependeria da adaptação.

 

–Ainda tem esperança de treinar uma equipa portuguesa?

 

– Não sei se algum dia treinarei em Portugal, pois só penso no presente. Nem sequer recebi convites. Em Portugal tudo é estranho, mas eu já nem ligo.

 

– Como está a ver a pré-época do Benfica?

 

– É óbvio que tenho acompanhado o Benfica, pois preocupo-me com o clube e espero que tenha bons resultados nesta época.

 

– E o que pensa da euforia que se instalou entre os adeptos?

 

– É sempre assim todas as pré-épocas, vamos a ver o que acontece quando for a sério. É bom que haja confiança, mas essa euforia tem de ser acompanhada de resultados. A continuidade é um factor muito importante numa equipa.

 

– Há motivos para acreditar que Jorge Jesus vai fazer melhor que Quique Flores?

 

– Jesus é conhecedor do futebol português mas vamos a ver como se adapta à responsabilidade de ter de ganhar sempre. No Benfica, a exigência é muito maior e a adaptação a quem chega é fundamental.

 

– A nível individual, pensa que o plantel é mais forte que o da época passada?

 

– O Benfica tem bons jogadores, já os tinha na época passada. Mas é preciso que tenham mentalidade vencedora, não basta ser bom. O problema do Benfica é a consistência da equipa. Não se pode vencer um jogo e depois estar quatro ou cinco sem ganhar. A equipa precisa de jogar a 100 por cento nos 90 minutos.

 

– Só falta maior consistência para que esta equipa seja mesmo campeã?

 

– Claro que a estrutura é importante. O exemplo tem de vir de cima, por isso a estrutura montada à volta do futebol  é fundamental para que a equipa funcione.

 

– Essa estrutura está montada, ou nem por isso?

 

– Não tem dado mostras de estar bem cimentada mas esperamos que vá melhorando. Para ter sucesso e corresponder às expectativas dos adeptos, o efeito terá de ser imediato.

 

– Surpreendeu-o a esmagadora vitória de Luís Filipe Vieira nas últimas eleições?

– Não fiquei surpreendido pois já sabia que ia ser assim. O Vieira tem feito um bom trabalho em termos financeiros, o clube voltou a ter credibilidade na banca, e isso é importante. É natural que esta realidade viesse ao de cima. Não havia razões para uma mudança nesta altura.

 

– No entanto, após o acto eleitoral, mostrou alguma incomodidade pela forma como decorreu...

 

– Sim, porque penso ser importante que haja democracia no Benfica. As pessoas deviam poder candidatar-se livremente. Não podemos pensar que sabemos tudo, é bom  ouvir os outros também. Passaram-se coisas que não beneficiaram a imagem do Benfica.

 

– Refere-se à antecipação das eleições?

 

– Nada disso, neste ponto estamos a falar de estratégias, e disso eu não falo.  Mas houve candidatos que tiveram problemas e tiveram de sair pela porta dos fundos. Um benfiquista tem de sair pela porta da frente. Mas repito, em minha opinião este não era o momento de mudar – e Luís Filipe Vieira ganhou bem.

 

– Foi convidado para integrar alguma lista ou movimento?

 

- Sim, falaram comigo mas recusei. Primeiro porque o Vieira era a pessoa indicada para continuar, depois porque sou seleccionador da Tunísia e tenho responsabilidades.

 

– Se o Benfica não for campeão nesta época, manterá a mesma opinião?

 

– Depende, mas não vou estar aqui a fazer futurologia. Não posso decidir sem ver se a equipa ganha. No final da época logo se verá.  A equipa terá de ser julgada no fim e não pelo resultado de um ou dois jogos. Seria errado tirar conclusões ao fim de dois ou três jogos.

 

– Muitas vezes foi apontado como um candidato. Admite candidatar-se algum dia à presidência do Benfica?

 

– Não está nos meus horizontes, porque optei por ser treinador e é assim que quero continuar.

 

– Roderick, um jovem central, tem sido a revelação da pré-época. Confirma-se que a aposta na formação é o caminho a seguir?

 

– Há sempre jovens a aparecer, o problema é que às vezes não lhes dão hipóteses. Há muita gente a viver do futebol, empresários, gente que cobra comissões, no fundo, é a modernidade do futebol. É um negócio muito apetecível, e é pena que alguns clubes trabalhem a formação pensando no lucro imediato. Assim desperdiça-se talentos.

 

– Que opinião tem da transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid?

 

– Tiger Woods é o melhor golfista e ganha milhões, tal como Federer no ténis, e ninguém diz nada. O mesmo acontecia com Michael Jordan. Desses ninguém fala. Se Cristiano é o melhor jogador do Mundo, é justo que ganhe como tal. Outra coisa são os problemas sociais graves que existem pelo Mundo fora. Mas disso não tem culpa o desporto. Compete aos governos implementar políticas que erradiquem  essas desigualdades. Mas a  pressão vai ser muita sobre o Real, cada vez que jogarem fora vão apanhar adversários muito mais motivados.

 

PERFIL 

Humberto Manuel de Jesus Coelho nasceu a 20 de Abril de 1950, em Cedofeita, Porto, e representou o Benfica entre 1968 e 1975. Seguiu-se uma passagem pelo Paris Saint-Germain, para regressar ao seu clube do coração em 1977, no qual se manteve até 1984.

Considerado um dos melhores centrais da história do futebol português, Humberto Coelho foi 8 vezes campeão pelo Benfica e conquistou 7 Taças de Portugal.

Como treinador, também escreveu uma das páginas mais brilhantes do futebol português, ao levar a selecção portuguesa até às meias-finais do Europeu de 2000. Actualmente, é o seleccionador da Tunísia.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)