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“Não me sinto treinador do quase”

Mais uma vez, José Peseiro esteve quase a atingir um objectivo. Quase. Como em outras situações do passado, esteve às portas da glória, mas estas não se abriram. E a Arábia Saudita, da qual é seleccionador, fica fora do Mundial 2010. O regresso a Portugal, contudo, pode esperar. O técnico quer voltar, sim, mas dentro de dois anos e deixa perceber que admite treinar de novo o Sporting.
12 de Setembro de 2009 às 00:00
“Não me sinto treinador do quase”
“Não me sinto treinador do quase” FOTO: Pedro Ferreira/Record

Correio Sport – A selecção que orienta – Arábia Saudita – ficou a segundos de se apurar para o play-off final de acesso ao Mundial. O que correu mal?

José Peseiro – Foi um momento. Fomos superiores ao Bahrain, criámos quatro ou cinco ocasiões de golo, estivemos duas vezes em vantagem, mas acusámos alguma falta de experiência e ingenuidade, pois tínhamos a bola na nossa posse no meio-campo adversário já no último minuto, acabámos por a perder, consentimos um canto e foi golo. Não merecíamos, mas há que levantar a cabeça e perceber o que falhou.

– Começa a haver um rótulo em relação a si de treinador do quase. Incomoda-o?

– Não me importo que falem de mim como treinador do quase e não me sinto treinador do quase. Mais vale estar quase a ganhar do que estar muito longe de ganhar. Prefiro ter a imagem do quase do que do nunca quase. Claro que preferia ganhar, mas há factores aleatórios que também são difíceis de controlar. Mesmo assim, deixei marca num ano e três meses no Sporting e ainda hoje se fala nesse Sporting.

– Falhou no Sporting?

– Não acho isso. Quantas vezes é que o Sporting tinha ido à final da Taça UEFA ou lutado pelo título até ao final?

– Faltou-lhe tempo em Portugal?

– Sim, faltou-me tempo. Não estive quatro ou cinco anos num clube para o meu trabalho ser avaliado de uma forma mais distendida no tempo.

– Parece haver aí uma alusão a Paulo Bento no Sporting...

– Não entre por aí. Nada disso. O Paulo tem feito um bom trabalho no Sporting. É apenas uma constatação. Só treinei na Iª Liga durante dois anos e meio e antes passei por todos os escalões secundários. Admito que me tivesse faltado maior relação com o contexto.

– Tem espaço de manobra reduzido para voltar a Portugal?

– Não e recusei convites para voltar. Estipulei que regressarei a Portugal dentro de dois anos. Quero cumprir o contrato com a selecção da Arábia Saudita e depois tenciono voltar.

– Admite treinar o Sporting?

– Tenho o sonho de ser campeão em Portugal e quero um projecto que me permita lutar por esse desejo.

– No Sporting?

– Sabemos que há três clubes que podem atingir esse objectivo. Acho que está respondido.

– Como interpreta as dificuldades de Portugal no apuramento para o Mundial?

– Não podemos negar que qualquer coisa tem falhado. É natural. Estamos numa fase de transição, não é desculpa, mas houve alguma falta de sorte, penáltis por marcar e aqui ou ali, se calhar maior competência.

– Críticas a Queiroz?

– Não. O Carlos é um excelente treinador, mas teve dificuldades devido a lesões, tinham saído jogadores emblemáticos e é preciso reconstruir. Carlos Queiroz pode ser muito importante, mesmo para além da vertente competitiva. Ele reúne condições para projectar, reconstruir e ressuscitar o grande boom do futebol português no início da década de 90, vertente que foi um pouco menorizada.

– Queiroz tem condições para fazer tão bem como Scolari?

– Sem dúvida. Eu acredito que Queiroz tem condições para levar Portugal ao Mundial. Scolari deixou marca, mas é bom lembrar que no apuramento para o Euro’2008 e tal como agora com a Suécia e Dinamarca, também na altura Portugal não ganhou à Sérvia, à Polónia e à Finlândia.

– Há este problema quase crónico da falta de eficácia no futebol português. Ficou incomodado com a naturalização de Liedson?

– Não. Incomodava-me mais que um jogador se naturalizasse para ser comunitário e com o intuito de uma transferência. O Liedson já tem 32 anos e creio que quis mesmo jogar pela Selecção. Mas tê-lo na Selecção também foi uma questão de necessidade.

– Chegou a treiná-lo. Como o classifica?

– Tem um talento inato para marcar golos e uma intuição especial para se posicionar na área. É um excelente jogador, que desequilibra, mas que joga muito bem em equipa.

– Esse tem sido um dos reparos a Cristiano Ronaldo na Selecção. Ele está longe do que pode fazer?

– Ronaldo está num novo caminho. Não acredito que o Cristiano não jogue tão bem como nós queremos por ele não querer fazê-lo. Ou seja, mais do que ninguém, ele quer jogar bem na Selecção, mas não se deve esperar que ele faça tudo sozinho, nem ele deve pensar que pode resolver sem ser em equipa.

– E é uma boa escolha para capitão?

– Essa é para mim uma questão colateral. O Ronaldo sabe as responsabilidades que tem. Um líder não se inventa, vai-se formando e não se pode estar à espera que apareça outro Figo.

PERFIL

José Vítor dos Santos Peseiro tem 49 anos e é treinador de futebol, com passagens, entre outros, por Sporting e Real Madrid – no clube espanhol como adjunto de Carlos Queiroz.

Depois de passagens pelo Panathinaikos (Grécia) e Rapid Bucareste (Roménia), está agora a trabalhar como seleccionador da Arábia Saudita.

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