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Correio da Manhã

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“Não tenho problema em assumir que sou benfiquista”

Pedro Proença foi considerado pela Liga o melhor árbitro da última época. Não renega a preferência clubística mas garante não se sentir influenciado. E diz que os árbitros “têm sempre desculpa”.
3 de Julho de 2010 às 00:00
“Não tenho problema em assumir que sou benfiquista”
“Não tenho problema em assumir que sou benfiquista” FOTO: Hugo Ferreira

Correio Sport - Foi considerado o melhor árbitro da época passada. Qual a sensação?

Pedro Proença - De satisfação, de dever cumprido. Foi consequência das boas pontuações que tenho acumulado.

- Pedro Henriques foi o último classificado. Ficou surpreendido?

- Fiquei porque o Pedro é um excelente árbitro e um amigo. Ao longo da época, vamos recebendo o ‘feedback' das nossas actuações, mas não sabemos como corre o trabalho dos colegas. Fico triste pela despromoção dele e é pena que abandone o futebol desta maneira.

- Como é que tem sido o nível das arbitragens no Mundial?

- Em férias, tenho visto mais resumos e menos jogos inteiros. Acho que a arbitragem tem sido positiva, apesar de alguns incidentes terem relançado o debate dos meios tecnológicos na linha de baliza.

- Podemos considerar o golo (em fora-de-jogo) de Espanha um erro grosseiro?

- Não.

- Então?

- O árbitro não podia fazer melhor, depois de ter consultado os auxiliares. Decidiu no limite das suas capacidades, pois era um golo milimetricamente ilegal. Os tais 22 cm não são claros nem invalidam o facto da Espanha ter sido mais forte.

- Foi pior o golo não assinalado a Frank Lampard?

- Mais flagrante, sim. Mas o árbitro não teve a possibilidade de visionar o lance tranquilamente no sofá. Aceito esse erro com naturalidade porque sou árbitro e não sou inglês.

- Quando é o erro de um árbitro não tem desculpa?

- Tem sempre. Obviamente que há uns mais competentes do que outros.

- Como é que viu a eliminação de Portugal?

- Queria que fosse mais longe, mas estou satisfeito. Não podemos esquecer que somos um país com 10 milhões de habitantes. Tivemos uma prestação positiva, digna. Ainda sou do tempo em que raramente víamos a Selecção nessas competições e andávamos a torcer por terceiros.

- Esperava mais de Cristiano Ronaldo?

- Esperamos sempre muito de quem admiramos. Analisando friamente as coisas, empatámos com a melhor selecção do Mundo, a primeira no ranking da FIFA, e perdemos por valores mínimos com a campeã da Europa. Queiroz fez um bom trabalho.

- Mas o seleccionador está a ser muito contestado. O que pensa disso?

- Admiro-o muito. Admiro os bons profissionais. Dá tudo pela Selecção, tem boas ideias e vontade de melhorar o futebol português. É preciso mais respeito. De todos.

- O último campeonato foi o campeonato dos túneis. Como será o próximo?

- Não sei. Só espero que a arbitragem tenha um papel secundário e que sejam salvaguardados os valores mais importantes da nossa classe.

- O Benfica foi beneficiado na época passada?

- Não tenho essa noção. É unânime que foi um justo vencedor pelo futebol que praticou. Com certeza não ganhou com benesses dos árbitros. O Sporting de Braga superou-se e só abrandou no fim, FC Porto e Sporting ficaram aquém das suas capacidades e a arbitragem esteve bem.

- As competências disciplinares da CD da Liga transitaram para o Conselho de Justiça da Federação. É bom para os árbitros?

- Estou um bocado céptico em relação a isso. A arbitragem deu um salto qualitativo brutal nos últimos anos, precisamente por estar integrada na Liga. É completamente diferente trabalhar com 25 árbitros e trabalhar com um universo de 200 e tal pessoas, que é o que vai acontecer. Não sei se a Federação está preparada para gerir toda essa gente. Que haja bom senso e que a mudança não seja um retrocesso.

- Qual o melhor árbitro da actualidade?

- Há vários acima da média. Em Portugal, posso garantir que o futuro da arbitragem está assegurado com jovens de muita qualidade.

- É possível fazer um novo Colina?

- Se eu fosse careca, tivesse olhos de troll e a imprensa me pegasse ao colo, podia criar-se outro mito. Sinceramente, há muitos árbitros com patamares de excelência idênticos e até superiores.

- Os árbitros deviam ter ‘flash interview'?

- Que valor acrescentado é que traria ao futebol? Infelizmente, as pessoas não querem saber das razões que levam um árbitro a decidir mal uma grande penalidade ou a mostrar um cartão. Às vezes dá vontade de fazer esclarecimentos. Para o adepto, é mais fácil insultar.

- Recusou o projecto de profissionalização dos árbitros. Ia perder dinheiro?

- Não é só a questão financeira, tem a ver com a minha vida privada. Tive uma vida académica e tenho um estatuto social a preservar. Por outras palavras, gosto de ser director financeiro em várias empresas. Depois questiono o projecto. Não me apetece agarrar numa ideia que não está madura. Se tivesse menos 20 anos, aceitava sem hesitações.

- O que o trouxe ao futebol?

- Fui praticante de andebol até ao dia em que não consegui conciliar os horários dos treinos com o tempo de estudo. Chegava tarde a casa e o meu pai pediu-me para optar. Como sou fã compulsivo de desporto, segui o conselho de um amigo e tornei-me árbitro.

- É verdade que é benfiquista desde pequenino?

- Seria uma desonestidade intelectual dizer que não tenho clube. Tenho as minhas preferências políticas, religiosas, clubísticas, sexuais. O meu pai fez-me sócio do Benfica em pequenino. Não tenho problema nenhum em assumir isso. Quando joguei andebol no Sporting, cheguei a ser sócio do Sporting. Isso não tem qualquer tipo de influência nas minhas actuações.

- O que vai fazer depois da arbitragem?

- Dificilmente ficarei no futebol. Adoro maratonas, triatlos, ski. E começo a ficar saturado do futebol. Quando fizer 45 anos vou fazer a maratona de Londres e estudar mais.

Olegário fez um brilharete

"Já esperava que Olegário Benquerença fizesse um brilharete no Mundial. É um árbitro muito competente, que tem dignificado muito o nome de Portugal"

PERFIL

PEDRO PROENÇA Oliveira Alves Garcia nasceu a 30 de Novembro de 1970, em Lisboa. Director financeiro de profissão, iniciou-se na arbitragem em 1988/89. Atingiu o estatuto de internacional em 2003 e arbitrou a final do Europeu de sub-19 em 2004, entre a Turquia e Espanha. Atingiu o topo da carreira vinte anos depois da estreia, tendo sido considerado o melhor árbitro da liga portuguesa na época passada. Para trás, ficou um percurso académico exemplar e uma carreira interessante no andebol. Jogou no clube do coração, o Benfica, mas também passou pelo rival Sporting, onde privou com Carlos Resende, o maior andebolista português de sempre. Antes de se tornar árbitro era conhecido como Pedro Garcia.

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