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O campo dos especialistas

O desemprego grassa entre os treinadores de futebol, mas o alargamento das equipas técnicas através da especialização dos técnicos auxiliares aumentou exponencialmente o mercado de trabalho. Ao longo das últimas décadas, esta nova realidade fez triplicar o número de postos em idêntico número de clubes: as funções que nos anos 60 eram realizadas apenas por um homem ou dois estão hoje repartidas por cinco ou seis profissionais.

12 de junho de 2010 às 00:00

Enquanto no modelo clássico até aos anos 70, raras equipas tinham mais do que o treinador principal, hoje não é possível estar à frente de uma equipa de alta competição sem ter pelo menos três adjuntos. Mas até cinco auxiliares, nos clubes com maiores ambições e orçamentos, constituem um número razoável, tal a diversidade de tarefas e responsabilidades dos treinadores principais. O conceito de equipa técnica e de «professor», com formação académica, teve origem no Brasil, de onde veio, por exemplo, o primeiro especialista em guarda-redes, em 1993.

Esta semana, foi possível completar o quadro de treinadores para a próxima época e confirmar um número total de 75 técnicos nas 16 equipas, o que ainda evidencia crescimento, relativamente a idêntica contagem no tempo em que o campeonato tinha 18 clubes.

A maioria dos treinadores de futebol em princípio de carreira passa por tarefas auxiliares em equipas técnicas já consolidadas ou lideradas por nomes importantes. Assim foi, por exemplo, com André Vilas-Boas ou com o seu próprio tutor, José Mourinho. Primeiro na preparação física, depois nos guarda-redes, mais tarde na observação e análise de adversários e jogadores, a especialização perfilou-se como melhor opção para pretendentes a treinador de futebol, sobretudo os que não têm um passado de jogador de alto nível.

Futuramente, as áreas técnicas podem alargar-se a outras áreas específicas, com os coordenadores ofensivos e defensivos, técnicos virados para a preparação exclusiva de avançados ou defesas, respectivamente, fazendo evoluir a capacidade dos jogadores do talento puro para uma melhoria técnica baseada em trabalho sistemático.

OS PIONEIROS

PREPARADOR

Moniz Pereira, Sporting (1970)

Uns anos depois de uma primeira experiência de Fernando Ferreira, seu velho rival benfiquista, foi campeão no Sporting, trabalhando com Fernando Vaz, o primeiro preparador físico de sucesso, mais tarde conhecido como «Senhor Atletismo», o professor Moniz Pereira.

EQUIPA

José Pedroto, FC Porto (1980)

Já tinha havido um esboço pouco duradoiro em 1962 com os três Fernandos no Benfica (Riera, Cabrita, Caiado), mas a primeira autêntica equipa técnica foi a de Pedroto no final dos anos 70 no Porto, com o adjunto António Morais e os preparadores Hernâni Gonçalves e João Mota.

RECUPERADOR

Sven Eriksson, Benfica (1990)

Na segunda passagem pelo Benfica, o sueco introduziu uma novidade italiana, o técnico de recuperação física, Manuel Jorge, vital em calendários sobrecarregados. Curioso é que na mesma época, também o professor Neca utilizou um no Desportivo das Aves.

GUARDA-REDES

Carlos Queiroz, Sporting (1994)

O actual seleccionador inovou ao chamar Ferenc Meszaros para treinar os guardiões de Alvalade, meses depois de ter passado pelo Marítimo o então desconhecido Wendell Ramalho, hoje o responsável pela preparação dos guarda-redes da selecção do Brasil.

TREINADORES PARA LIGA 2010-11

QUADRO COMPLETO

A tabela ficou completa esta semana. Serão 75 os treinadores na 1.ª Liga, número igual ao de há dez anos, quando o campeonato tinha mais dois clubes. Os emblemas com maior orçamento já vão em meia dúzia de elementos na equipa técnica, mas a maioria consegue organizar-se no modelo de quatro técnicos – normalmente um adjunto para todo o serviço, um preparador/recuperador físico e um treinador de guarda-redes. Falta-lhes o departamento da observação e dos meios audio-visuais, mas quase todos se servem de apoios externos e pontuais, acabando por ser os próprios treinador principal e adjunto a preparar os materiais de análise para apresentar aos jogadores.

CARGOS TÉCNICOS

Preparador físico

Com formação académica e responsabilizável pelos índices, positivos ou negativos, de potência, velocidade e resistência.

Treinador adjunto

Normalmente um velho amigo, fiel, obediente, discreto e sem grande ambição pessoal, para papel de confidente e conselheiro.

Recuperador físico

Com a mesma formação e competência do preparador, mas focado na gestão das energias para os momentos críticos da época.

Treinador de guarda-redes

Precursor do aperfeiçoamento técnico, normalmente com base empírica e abertura para o experimentalismo no treino.

Observador

Mourinho e Villas-Boas são a imagem do «espião» moderno, que estuda e caracteriza adversários e eventuais reforços.

JUNTOS HÁ 14 ÉPOCAS

Carlos Brito, um avançado que chegou a actuar como defesa central, e Lúcio Pereira, um guarda-redes, jogaram juntos e prosseguiram carreira, primeiro como auxiliares de Henrique Calisto no Rio Ave e, desde Janeiro de 1997, como dupla técnica lançada pela salvação de uma equipa condenada ao fim da primeira volta. Somam 344 jogos, incluindo passagens por outros clubes (Amadora, Boavista, Nacional, Leixões), mas é em Vila do Conde que se sentem bem: estão para iniciar a 11.ª temporada, 3.ª da 3.ª série, com invulgar cumplicidade e entendimento.

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