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Correio da Manhã

Desporto

O FESTIVAL DA HIPOCRISIA

No topo das aberrações, o que a política e o futebol têm mais em comum é a sobrevalorização da hipocrisia
4 de Janeiro de 2004 às 00:00
O Boavista encerrou as comemorações do seu centenário e, em simultâneo, inaugurou a última fase das obras do 'Bessa XXI'. A festa levou ao estádio cerca de 20 000 adeptos e, entre outros, alguns convidados relevantes: Manuela Ferreira Leite, em representação do primeiro-ministro; Hermínio Loureiro, secretário de Estado do Desporto; Rui Rio, presidente da Câmara do Porto; Valentim Loureiro, presidente da Liga e ex-presidente do Boavista e Pinto da Costa, presidente do FC Porto. E estavam lá ainda os presidentes da Arbitragem (Federação e Liga).
Como se verifica, João Loureiro conseguiu este espantoso milagre de reunir na sua 'nova casa' (tirando Hermínio Loureiro, que vai a todas) algumas personalidades verdadeiramente difíceis de 'conquistar':
– Pinto da Costa, que representa o caso mais extraordinário de aproximação inter-clubes, depois de uma guerra do tipo 'Irão-Iraque', uma das mais 'sanguinárias' que o futebol conheceu nos últimos tempos cá no burgo;
– Manuela Ferreira Leite, que para além de acertar nos 'palpites da bola' é conhecida pela 'ministra da contenção' e por um aperto de cinto que já levou o estômago às goelas de muitos portugueses; todavia, em comparação, não muito segura relativamente ao caminho a seguir no que concerne aos (contribuintes) 'devedores do futebol'.
João Loureiro conseguiu, de resto, colocar Pinto da Costa e Rui Rio à distância de cinco cadeiras, nada mau – mesmo considerando as inevitabilidades protocolares e institucionais – para quem fica mal disposto só de ouvir um jornalista questionar a presença do presidente da câmara no recinto dos axadrezados. Isto já para não falar do puxa-empurra entre Valentim Loureiro e Pinto da Costa, os dois patriarcas da bola indígena, que estão condenados a (des)entenderem-se até ao final, como dizer?, dos seus mandatos.
João Loureiro está a afirmar, a pouco e pouco, um lado político – e, também aí, parece sair ao pai.
Aliás, João Loureiro já anunciou duas coisas importantes: primeiro, que vai recandidatar-se à presidência do Boavista; segundo, que pretende afastar-se a pouco e pouco, em razão do chamamento da política. Tudo certo, portanto.
João Loureiro sabe, no contexto da minha posição de observador das coisas do futebol, que sempre valorizei o papel do Boavista no âmbito da 'desmacrocefalização', perdoe-se-me o termo, do futebol em Portugal. O princípio da alternância nas Ligas nacionais é um sinal de competitividade e a aproximação do clube do Bessa ao topo da tabela classificativa só não resultou melhor porque outros clubes, com iguais ou melhores condições, como os do Minho, por exemplo, não cumpriram o mesmo trajecto na vertente desportiva. Mesmo no tempo de Valentim Loureiro 'incitei' o Boavista à assunção da sua 'majoridade'. Sabe João Loureiro, bem melhor do que eu, que essa assunção foi bonita mas incomensuravelmente sofrida. O Boavista foi campeão nacional, andou pela Europa, deu corpo a infra-estruturas que são, nesta área, a sustentabilidade de qualquer projecto ambicioso, mas não deixa de ser o segundo clube do Porto, que vive na sombra do crescimento avassalador do vizinho das Antas, com uma pequena base associativa, não obstante os esforços realizados, ultimamente, nesta matéria. Apesar das correcções orçamentais e da gestão de rigor, João Loureiro sabe que não é fácil – será quase um milagre – manter o Boavista no topo. O dinheiro não abunda nos cofres dos clubes e o Boavista não é excepção. Simples: uma agremiação aparentemente grande como a do Bessa necessita de apoios. E, neste aspecto, a família Loureiro tem sido uma verdadeira 'família política'.
Sei que João Loureiro não me levará a mal se lhe disser que, em razão das suas queixas (publicadas) relativamente a Pinto da Costa, a sua pensada e rápida aproximação ao presidente do FC Porto resultou, aos olhos da opinião pública, como um choque. Como algo que não é natural. E, neste sentido, deixe-me dizer-lhe, também, que a inauguração do 'Bessa XXI' foi um festival de hipocrisia. Aliás, no topo das aberrações, o que a política e o futebol têm mais em comum é a sobrevalorização da hipocrisia. É assim que a vida faz sentido?
No meio disto tudo, o pífio papel dos Governos. A renúncia do Estado perante a força e a ameaça do Ministério do Futebol.
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