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Correio da Manhã

Desporto
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O FUTEBOL É MUNDO PODRE E HIPÓCRITA

Aos 29 anos, o internacional português emigrou para a Bélgica, rumo ao Standard Liége, à procura de ser feliz. Mas, ao CM, quebrou o prolongado silêncio para apontar o dedo a alguns responsáveis do futebol português. Da selecção nacional, ao FC Porto, passando por José Mourinho e até pelo Sporting, ninguém sai incólume. Frontal, Sérgio Conceição passa ao ataque.
4 de Setembro de 2004 às 00:00
Correio da Manhã - Não tem sido feliz nos últimos tempos. Saiu do FC Porto e perdeu o Europeu. E agora?
Sérgio Conceição - Espero uma boa época no Standard Liége. Depois logo se verá. Espero também encontrar pessoas humanamente superiores e, já agora, que respeitem um pouco mais alguns jogadores. É que, neste futebol, talvez existam jogadores mais protegidos que outros e isso é mau. Que fique claro, contudo, que a culpa não é desses atletas.
Então de quem é?
É das pessoas que estão à frente do futebol que, como todos sabem, é um mundo podre, um mundo hipócrita.
E como é que um jogador com a sua experiência assiste a esses esquemas?
De uma maneira muito má. Para mim o futebol é paixão, sinceridade, honestidade, é o amor que se tem à camisola que se está a usar...
No seu caso, principalmente à camisola do FC Porto...
Nunca neguei o que sinto pelo FC Porto e esse é um dos motivos por que me sinto magoado. Nos meses que lá passei, cerca de um mês e tal joguei a 50% das minhas capacidades porque a equipa precisava de mim, apesar do meu joelho não estar bem. É um clube que sempre me tratou da melhor maneira e por quem tenho o maior respeito, agora isso não me impede de dizer que desta vez o FC Porto foi infeliz e incorrecto comigo.
Esperava mais nesse regresso ao seu clube do coração, mas as coisas não correram bem.
Esperava mais de mim, sem dúvida, esperava também ter um pouco mais de sorte e não ter lesões, mas o Sérgio Conceição toda a gente conhece. Não era nesses cinco meses que deixaria de ser jogador de futebol ou que passaria a ser um melhor jogador. Alguma coisa não estava bem, e as pessoas sabiam o que era. A verdade é que passados dois jogos de chegar ao FC Porto tive uma lesão com alguma gravidade no joelho e quando comecei a ficar bem o treinador meteu-me no banco dois ou três jogos sem eu saber porquê . Ou seja, quando os outros jogadores recuperaram, lá fui eu para o banco. Depois, voltou a meter-me nas últimas jornadas, quando já tínhamos ganho o campeonato e voltei a lesionar-me.
Sentiu que tinha chegado ao fim a aventura?
Não, e a prova disso é que fui para férias com um fisioterapeuta – Eduardo Braga – e fizemos a recuperação total, sempre pensando eu que ficava no FC Porto.
Então, quando é que informaram que não contavam consigo?
Faltavam poucos dias para o início da época e, ainda por cima, não soube pelas pessoas do FCPorto mas sim pelo meu empresário, o que é mais grave e inesperado.
Julga-se merecedor de outro comportamento?
Acho que as pessoas não podem, nem devem, ser tratadas como mercadoria. Sei bem o que é o futebol de alto nível, mas a mim não me conhecem há dois dias. As pessoas do FC Porto deviam-me ter chamado. E que fique claro que não foi uma questão de dinheiro. Ainda antes da época acabar, eu disse que assinava um contrato em branco. O problema não era o dinheiro, apenas a vontade das pessoas para que eu ficasse no clube. Só isso.
Hoje a mágoa é evidente...
... (pausa) foram meses negativos que eu vivi. No final havia duas questões a ponderar: as pessoas sabiam que precisava de realizar uma boa pré-época para fazer uma grande temporada e, ou decidiam apostar em mim ou abdicavam, e foi isso que fizeram. Mas o futebol é isto. Se calhar, às vezes convém fazer outro tipo de aquisições de alguns jogadores, através de determinadas pessoas...
Mais uma farpa?
Não. Talvez convenha fazer algumas transferências...
Quando chegou ao FC Porto disse que o objectivo era jogar para voltar à Selecção. Mais uma meta por cumprir...
Sim. E em 17 jogos de FC Porto, alinhei 11 ou 12. Mas a história do Europeu é outra...
Qual?
Já quando vim para o FC Porto não estava a ser convocado. Estive nas primeiras nove convocatórias mas depois deixei de ser chamado, após o jogo contra a Espanha, e sem nunca saber porquê.
Falou-se de problemas disciplinares...
Sim, falou-se, mas eu nunca abordei este tema, nem mesmo durante o Euro, pelo respeito que os meus companheiros me merecem. Agora, neste momento, depois de 14 anos nas Selecções – desde os meus 15 anos de idade, como o Figo, o Rui ou o Fernando Couto – digo que não foi a maneira mais bonita de retirar um jogador. Mas não sou caso único, infelizmente.
Desconhece então porque falhou o Euro?
... (pausa) muita gente não compreende o que se passou, e eu também não. E nem sequer se pode alegar que eu estava fora de forma. Na Lázio eu estava bem e deixei de ser convocado. Gostaria que me explicassem porquê.
Nega a existência de problemas disciplinares?
Nego, e convido as pessoas que estão à frente da Selecção a dizerem o contrário. Estou disposto a falar, olhos no olhos, a contar tudo o que sei sobre a Selecção, porque estou cheio disto, estou cheio desta hipocrisia e podridão que há no futebol. Este futebol é horrível.
Nunca nenhum responsável falou consigo?
Não. E a grande prova que não houve indisciplina é que o Maniche e o Fernando Meira voltaram a ser convocados e eu não. Há coisas difíceis de perceber...
Que tipo de coisas?
Muita coisa... Um dia, se calhar, vou contar algumas coisas que se passam. Quando falam de disciplina... disciplina, se calhar tem de ser disciplina no rigor que se tem dentro de um grupo e isso passa por toda a gente comer às mesmas horas, toda a gente remar para o mesmo lado, é falar com toda a gente e não apenas com um ou dois jogadores. O que não é, certamente, é o grupo estar à mesa, a comer, e estarem amigos que não pertencem à Selecção sentados ao pé de nós a comerem. Tenho muitos anos de Selecção e não fui habituado assim. Sei que tenho o meu feitio e, até pela confiança com as pessoas, era capaz de, como se diz na gíria, mandar uma ‘boca’ e isso, se calhar, era um incómodo para as pessoas que estão na Selecção. Mas fico triste porque me sinto com capacidades para representar Portugal.
Não procurou falar com os responsáveis, com Scolari ou Madaíl?
Uma vez, com o presidente, mas nada resultou. Não lhe exigi nada.
Ainda pensa voltar?
Não faço ideia. Esta entrevista pode prejudicar-me mas não posso deixar de dizer aquilo que sinto.
Chegou a falar-se novamente no interesse do Sporting. Não se arrepende de não ter assinado?
Respeito muito as pessoas do Sporting pelo comportamento que tiveram comigo, há dois anos e agora, mas no final também fiquei um bocado desiludido. No Sporting, vêm jogadores recomendados por alguns treinadores amigos das pessoas do Sporting e eu não me meto nisso. Deveria ter assinado durante uma determinada semana e não o fiz porque tinha outros convites do Marselha e do Hamburgo, com propostas mais altas. Depois soube que se desinteressaram, o que estranhei. Depois vi que chegaram ao clube filhos, entre aspas, de alguns treinadores. Mas não me arrependo de nada. A minha vida é esta. Venho de uma família humilde, que trabalha dia a dia para comer à noite. Tudo o que consegui foi à minha custa, sem o proteccionismo de ninguém.
"MOURINHO DESILUDIU-ME"
Trabalhou no FC Porto com o treinador do momento. Com que ideia ficou de José Mourinho?
Surpreendeu-me pela positiva como treinador, tinha métodos de trabalho inovadores e verdadeiramente fantásticos, mas como homem deixou-me algo a desejar, desiludiu-me. Mas não quero falar sobre isso neste momento. Quando o encontrar, talvez lhe diga na cara o que tenho para lhe dizer.
E Pinto da Costa?
É o melhor presidente.
Vítor Baía?
Amigo e o melhor guarda-redes.
E Scolari?
Esse, não comento.
Figo?
É o melhor jogador.
"HOUVE COISAS ANORMAIS
Quando é que soube que não iria marcar presença entre os convocados para o Euro’2004?
Olhe, a oito meses do Europeu eu já sabia que não iria ser convocado e isto não é normal. Soube na altura que, da Selecção, ou o treinador da Selecção, disseram a um jornalista que acompanha os trabalhos que eu não ia ao Europeu. Falei com esse jornalista que, depois de contactar o seleccionador, me confirmou que eu estava de fora. Não posso entender estas coisas e se não falei antes foi para não desestabilizar o grupo de trabalho. Mas não se compreende, nem esta nem outras coisas, da Selecção que me deixaram muito triste e desapontado. Se calhar, aproveitaram uma época menos boa da minha parte para me deixarem fora do barco... eu recuso-me a aceitar este tipo de comportamentos por parte dos responsáveis pela Selecção.
"SONHO COM UMA FILHA
Sérgio Conceição não esquece a importância da família na sua vida e, apesar de ter já quatro filhos, não enjeita a possibilidade de aumentar o agregado familiar. “A família tem grande importância na minha vida. Perdi os meus pais cedo, aos 16 o meu pai, aos 18 a minha mãe, e nessa altura já namorava a minha mulher. Estamos juntos há muitos anos, construímos uma família bonita, com quatro filhos – o Sérgio, o Rodrigo, o Moisés e o Francisco –, e é verdade que são eles quem me transmite a estabilidade que um jogador necessita para ter sucesso”, reconhece.
E Sérgio Conceição já está com planos para o futuro: “em termos familiares tenho um sonho ainda por realizar que é, um dia, ter uma filha. Até agora tenho quatro rapazes e gostaria de ter uma menina”, disse. E um sonho realizado? “O de chegar a internacional ‘A’, sonho esse que me acompanhou desde pequeno”, recordou o extremo português, apostado agora em relançar a carreira na Bélgica. “A prova que o campeonato belga não é inferior ao nosso é que o Anderlecht venceu o Benfica por 3-0”, explicou, lembrando que “a paixão e as emoções que desperta é o melhor do futebol”.
PERFIL
NOME: Sérgio Paulo Marceneiro Conceição
IDADE: 29 anos (15-11-74)
NACIONALIDADE: Portuguesa
ALTURA: 1,77 m
PESO: 78 Kg
POSIÇÃO: Extremo-direito
CLUBE ACTUAL: Standard Liège
CLUBES ANTERIORES: Penafiel (1993); Leça (1994); Felgueiras (1995); FC Porto (96/97); Lázio (98/99); Parma (2000); Inter Milão (2001); Lázio (2002); FC Porto (2003).
TÍTULOS: Campeão Europeu (2004); Taça das Taças (1999); Campeonato Nacional (1997,1998 e 2003); Taça de Portugal (1998); Campeonato italiano (2000); Taça de Itália (2000)
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