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Correio da Manhã

Desporto
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“O futebol já deixou de ser um desporto”

Moniz Pereira esteve dois dias internado num hospital devido a “falta de ferro”. O sócio n.º 2 e vice-presidente do Sporting recebeu o ‘Correio Sport’ em sua casa e, entre várias confidências, sentado junto ao piano, lamentou que os ‘leões’ tenham edificado um estádio sem pista de atletismo
23 de Outubro de 2010 às 00:00
Moniz Pereira deixou de ser treinador de atletismo do Sporting há 15 dias
Moniz Pereira deixou de ser treinador de atletismo do Sporting há 15 dias FOTO: Vítor Mota

Correio Sport – Como se sente?

Mário Moniz Pereira – Optimamente. Nunca me senti mal sem ser no passado domingo. Estava na missa e desmaiei. Chamaram o INEM, mas eu não queria ir para o hospital. A minha mulher convenceu-me e lá fui. Fiz vários exames.

– Nos dois dias que esteve internado, esteve sempre bem-disposto...

– Sim. A primeira vez que isto me tinha acontecido foi há 50 anos, em Moçambique, na inauguração do Estádio Salazar. A pista ainda estava solta e eu andei a guiar um cilindro para ficar mais compacta. À tarde, estava com Salazar Carreira no hotel e, de repente, desmaiei durante um minuto e meio. Como ele era médico, fez-me algumas análises. Revelaram que eu tinha um abaixamento de açúcar após as refeições... Sou guloso, foi o melhor remédio da minha vida.

– Agora foi diferente...

– Dizem que foi falta de ferro. Estou a fazer dieta. Como sou um brincalhão, disse logo: ponham-me um ferro de engomar em cima da mesa que eu vou-me a ele.

– Recebeu muito apoio?

– O telefone não pára de tocar.

– Teve a sensação de que o País sentiu a sua doença?

– Gosto muito de ter nascido. Gosto de viver, e tenho tido a sorte de ter saúde.

– O desporto ajudou?

– Quando terminei o curso de Educação Física, já representava o Sporting no atletismo, voleibol, ténis de mesa e ginástica. Comecei a treinar no Sporting em 1945. Toda a vida fiz aquilo de que gosto. Ia para o trabalho radiante, e ainda por cima me pagavam. Às vezes, dizia: "Não digam a ninguém, senão deixam de me pagar."

– A sua mulher, Maria Carlota, tem sido grande apoio...

– Claro. É do mesmo curso que eu, do Instituto Superior de Educação Física, e há 15 dias fizemos 64 anos de casados. Se ela não fosse da minha profissão talvez não compreendesse as minhas viagens. Fui a doze Jogos Olímpicos, como treinador, jornalista e convidado.

– Apesar dos 89 anos, demonstra grande vitalidade...

– Continuo a inventar coisas. Estou a tentar que haja um encontro entre o Sporting e o Praia de Castillón em atletismo.

– Continua a ir a Alvalade?

– Quase todos os dias. Pedi a reforma, porque sinto que já não posso ter a vida que tinha. Já não posso ir para Monsanto ou à Costa de Caparica à chuva. Não estou com potência física para continuar com essa vida.

– As medalhas de Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos (prata em Montreal’76 e ouro em Los Angeles’84) acabaram com o sentimento de inferioridade dos portugueses...

– Ainda hoje dizem que um treinador estrangeiro é que é bom. Os portugueses são tão bons ou maus como os outros. Mas para os estrangeiros arranja-se sempre tudo. Para os nossos, não.

– Qual a sua maior desilusão?

– Fizeram seis estádios novos para o Euro’2004 e nenhum deles tem pista. A primeira machadada na minha vida foi o Sporting fazer um estádio sem pista. O atletismo é a única modalidade que deu medalhas de ouro olímpicas ao país.

– É o sócio número 2 do Sporting e vice-presidente. Como vê a actual situação do clube?

– Sou o número 2 e o meu irmão é o 4. Eu sou sócio do Sporting Clube de Portugal e não do Sporting Futebol Clube. O meu Sporting é ecléctico.

– Como analisa as agressões na última assembleia geral?

– Há muita gente sócia do Sporting que não devia ser. Falta coragem para punir os infractores.

– Como vê a crise financeira do Sporting?

– É igual à dos outros clubes. Os jogadores dos principais clubes portugueses não podem ganhar o mesmo do que os ingleses, franceses ou espanhóis. O futebol já não é um desporto. É uma indústria, por vezes muito mal industrializada.

– José Bettencourt pode tirar o clube da crise?

– Sim. É um presidente que não é só do Sporting Futebol Clube. Já o vi no andebol, no futsal, na natação, e até no ténis de mesa. Mas o futebol é o principal, senão tínhamos muito poucos sócios.

– Continua a ir ao futebol?

– Em 1995, Santana Lopes pediu-me que fosse vice-presidente para as ‘modalidades’. Desde essa data, já assisti a 474 provas de atletismo; a 200 jogos de andebol, 127 de futebol; 101 torneios de ténis de mesa; 52 de natação; 28 de bilhar; 22 de ginástica; dois de tiro; e outros dois de filatelia. Ao futebol vão todos...

– Paulo Sérgio é o treinador indicado para o Sporting?

– Não estou suficientemente apto para falar de Paulo Sérgio, mas está a fazer bom trabalho. Mas sobre Paulo Bento posso dizer que é muito bom.

– Gostou de ver Paulo Bento na Selecção?

– Gostei muito, e telefonei-lhe a felicitá-lo quando foi escolhido. No entanto, achei inacreditável a campanha que fizeram contra Carlos Queiroz.

PERFIL

Mário Alberto Freire Moniz Pereira nasceu em Lisboa a 11 de Fevereiro de 1921 (89 anos). Foi praticante de andebol, basquetebol, futebol, hóquei em patins, ténis de mesa, voleibol, natação e atletismo. Tornou-se treinador de atletismo do Sporting em 1945, conquistando 30 Campeonatos Nacionais de Pista Masculinos (entre 1946 e 1988), 24 Campeonatos Nacionais de Pista Femininos (entre 1946 e 1987), 33 Campeonatos Nacionais de Corta-Mato Masculinos (entre 1948 e 1991) e 12 Taças dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato (entre 1977 e 1992). Actualmente, é vice-presidente do Conselho Directivo do Sporting.

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