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Correio da Manhã

Desporto
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O LÍDER DA OPOSIÇÃO

Durão Barroso já percebeu que o líder da oposição ao seu Governo não é Ferro Rodrigues mas Pinto da Costa
11 de Maio de 2003 às 00:47
O futebol, na medida do jogo, dos cem por cinquenta, digamos assim, mais próximo ou da indústria ou da agricultura, é, em todo o caso, uma actividade apaixonante, que poderia ser bastante melhor no Nepal e em Portugal, não apenas por rimar mas por ser verdade. Quando, cá no burgo, teimosamente, por parecer bem e dar jeito, alguns publicitários a configuram como indústria, na presunção de que o futebol português cumpre todos os requisitos para ser a tal 'indústria de sucesso', quando na verdade ainda está mais perto da alface e do rabanete, não consigo afastar-me do pensamento de Napoleão Bonaparte segundo o qual "as verdadeiras conquistas, as únicas de que nunca nos arrependemos, são aquelas que fazemos contra a ignorância".
Não é preciso ser contra o Benfica e muito menos do Benfica para perceber que se fossem os encarnados e não os portistas a estar na final da Taça UEFA e classificados de antemão para entrar, directamente, na Liga dos Campeões, o País já tinha entrado em transe ou numa espécie de histeria colectiva, a partir da qual quem ousasse puxar qualquer assunto que tivesse a ver com corrupção, droga no pontapé na bola, insegurança nos estádios, dívidas ao Fisco, fracas assistências, jogo de qualidade duvidosa, falências técnicas, discursos demagógicos, derrapagens e tutti quanti de um arsenal de situações mal resolvidas na bola indígena, já tinha sido sumariamente abatido.
Estivesse o Benfica no lugar do FC Porto e a conveniente máquina de marketing já tinha colocado em edital, ou mais prosaicamente em qualquer bocado de betão, a lista negra daqueles que gostariam de ver um futebol melhor em Portugal, cuidando de assegurar, porém, a saturação de todos os voos para o Rio de Janeiro. É que, nessas circunstâncias, com o Benfica na posição do FC Porto, isto é, campeoníssimo, o futebol português seria o melhor do Mundo, não daqui a três anos, mas agorinha mesmo.
Quem mandou fazer a lápide marmórea de Pinto da Costa, confiando em sinais de decrepitude que eram, afinal, um problema básico de organização e poder, imposta pela lógica das SAD, menos atreitas a imposições presidencialistas, conotadas com os tempos da 'outra senhora', não teve de fazer como a D. Fátima, que se pirou, mas viu-se obrigado a fazer marcha-atrás, porque o homem, quando está a ganhar, leva tudo à frente. Podem vir a GNR, os Bombeiros, as Forças Armadas, ou mesmo o Governo que não há nada a fazer. Pinto da Costa não é um poder; é o poder. Pelo menos o único poder que se sente, que se vê e tem forma.
Em 21 anos de presidência, durante os quais soube erigir o monumento de contestação à hegemonia dos clubes da capital, observados lá de cima como burgueses do Terreiro do Paço, usurpadores de sangue azul (e branco), Pinto da Costa nunca se deixou comandar e, mais que isso, à medida que foi transferindo o centro das decisões para o Porto, deixando a burguesia da Segunda Circular a contar botões dourados, inventou a melhor forma de fazer política sem ser (formalmente) político. De que maneira? Ano após ano, esvaziando a autonomia do poder político, a nível local e, também, a nível nacional, com a sua capacidade de atracção mortífera.
Rui Rio achou, quando o Boavista (aliado do Benfica) e o Sporting pareciam ter quebrado os rins à supremacia do FC Porto, que estava na hora de dar um bom exemplo de autonomia política. Em tese, estava certo, todavia sem nunca lhe passar pela cabeça que, revitalizado pela força das vitórias, Pinto da Costa seria capaz de 'substituir' não apenas o Governo (passe o exagero) mas assumir-se como o verdadeiro líder da Oposição. De resto, o próprio primeiro-ministro, Durão Barroso, já percebeu que o líder de oposição ao seu Governo não é Ferro Rodrigues mas Pinto da Costa. O presidente do FC Porto acabou de anunciar: "na próxima semana estarei na Trofa e depois em Moimenta da Beira". Quando se fala de promiscuidade do futebol para a política e vice-versa, o assunto acaba por constituir-se numa pescadinha de rabo na boca porque os dirigentes fazem o papel dos políticos, não só porque estes consentem mas também porque não sabem cumprir o papel daqueles.
De vez em quando aparecem para aí uns dirigentes cujo sonho é serem como Pinto da Costa. Também se misturam com o povo. Nas cidades, nas aldeias, nos núcleos, enfatizando o discurso. Os dirigentes dos clubes estão sempre em tempo de eleições. Os políticos, ao invés, têm um calendário e por isso não apenas são previsíveis como já se sabe o que vão dizer.
É por isso que Pinto da Costa afirma não querer saber daquilo que a Liga diz e ufana-se da presença de Jorge Sampaio em Sevilha.
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