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Correio da Manhã

Desporto
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O meu filho é um herói

Na pacata vila de Coruche mora o mais fervoroso apoiante de José Peseiro. Um adepto que não espera pelos resultados no final dos jogos para tributar aplausos ao “melhor treinador do mundo”, como faz questão de lhe dizer pessoalmente, sempre que pode.
19 de Março de 2005 às 00:00
Chama-se João Peseiro Júnior, mas o pai... é ele. Um pai orgulhoso, que sente feridas a abrir na própria carne quando ouve dizer mal do José Vítor, o segundo de cinco filhos que fazem a sua alegria, aos 70 anos.
João Peseiro subiu a pulso na vida. Construiu um pequenino império da restauração a partir do nada. Há mais de trinta anos abandonou a pequena mercearia, o sustento da família, para transformar uma velha adega num restaurante típico, hoje uma referência gastronómica de Coruche. Há poucos anos, já com dois dos filhos a partilhar a gestão do negócio, soube ler os sinais dos tempos e abriu mais dois restaurantes onde as pessoas hoje mais os procuram: em centros comerciais. ‘O Farnel’ deixou de ser apenas o restaurante junto ao rio, na lezíria ribatejana, e passou a ser um nome conhecido no ‘Freeport’ de Alcochete e no Fórum Montijo.
Em miúdo, José Peseiro dava uma ajuda no negócio, sempre que podia. “Ele nunca se negou ao trabalho. Esteve sempre disponível para ajudar os pais”, recorda o progenitor. Mas já nessa altura o apelo do futebol se fazia sentir. Peseiro (o filho) começou a jogar nos escalões jovens do Coruchense. Em terra de toiros, a febre da festa brava não o contagiou por aí além. “Ele até gostava de ir para o matadouro”, relembra João Peseiro, “mas só pegava carneiros”, diz com um pequeno sorriso. José era ponta-de-lança’ e o pai não lhe colocou entraves. “Dei--lhe apoio, claro. Até porque já nesses tempos ouvíamos falar da droga e senti que ele devia estar ocupado com o que mais gostava de fazer”. José Vítor sagrou-se campeão regional pelos juniores do Coruchense e foi promovido à equipa sénior, onde também conquistou o título. “Mas nunca abandonou os estudos. Preferiu continuar a estudar, até se licenciar em educação física, a ser profissional a tempo inteiro. Ele queria tirar um curso. E tirou”, diz João Peseiro, evocando a propósito a persistência do filho: “É um obstinado. Quando luta por alguma coisa, vai até ao fim”.
Mesmo após ganhar ‘asas’ e sair de Coruche, para se instalar em Santarém – para onde se mudou quando para ali foi leccionar –, José Peseiro regressa a ‘casa’ sempre que pode. O pai costuma ver com regularidade os jogos do Sporting. “Mas dói-me muito ver e ouvir certas coisas, como ainda recentemente aconteceu no jogo com o Penafiel. Para muita gente, quando o Sporting ganha é a equipa que é boa, quando perde é o treinador que não presta. Mas ele tem resistido a tudo. É um lutador, que subiu na vida com o seu próprio suor. O meu filho é um herói”, afirma convictamente. E ao falar de orgulho, não renega o quinhão do José Vítor, mas apressa-se a dizer: “Tenho orgulho nos meus cinco filhos, três rapazes e duas raparigas”.
Numa profissão de oito e oitenta, José Peseiro sabe onde pode ouvir as palavras certas, em momentos menos bons. “Quando as coisas não correm bem digo-lhe ‘filho, não desanimes. Até ao lavar dos cestos é a vindima”. E a vindima prossegue com mais um jogo de risco, frente ao FC Porto. João Peseiro lá estará, nas bancadas a apoiar o técnico nascido em sua casa. “Estou esperançado numa vitória. Tal como faço muitas vezes, vou telefonar-lhe a desejar-lhe muita sorte. Ele merece”.
UMA PRENDA ESPECIAL
João Peseiro guarda entre os seus tesouros uma prenda muito especial dada pelo filho José Vítor, no ano passado. “Eu costumo dizer-lhe sempre que ele é o melhor treinador do mundo. A ele e a toda a gente. No último Natal deu-me de prenda uma camisola do Sporting que vou guardar religiosamente até ao fim da minha vida, pela mensagem que contém. Na camisola escreveu uma dedicatória, onde se pode ler: “se eu sou o melhor treinador do mundo é porque tenho o melhor pai do mundo”. Nunca vou esquecer esse gesto”, revela emocionado.
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