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Correio da Manhã

Desporto
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O meu reino por uma final

Ainda não foi este ano que se quebrou o jejum ‘caseiro’ em Wimbledon: Andy Murray prometia ser o primeiro britânico a atingir a final do mais famoso evento tenístico do mundo desde Bunny Austin em 1938 e até mesmo tornar-se no primeiro súbdito de Sua Majestade a ganhar o título desde Fred Perry em 1936. Mas, apesar de utilizar equipamentos Fred Perry e de partir favorito para o seu compromisso com o homónimo americano Andy Roddick, acabou por baquear nas meias-finais – tal como Tim Henman (1998, 1999, 2001, 2002) e Roger Taylor (1970, 1973) antes dele. E ficou esconjurada a tal final de sonho diante de Roger Federer que toda a Grã-Bretanha vaticinava fervorosamente e que já fazia circular ingressos a 10 mil euros no mercado paralelo…

4 de Julho de 2009 às 00:30
Nas semifinais, Roger Federer bateu o alemão Tommy Haas
Nas semifinais, Roger Federer bateu o alemão Tommy Haas FOTO: Reuters

Algumas fontes não oficiais indicavam mesmo como muito plausível a presença da rainha no dia do encontro decisivo, algo que não sucede no All England Club desde 1977. Essa possibilidade ficou colocada de parte com a derrota do jovem escocês, mas poderá haver a visita de outro tipo de realeza: o norte-americano Pete Sampras, soberano do Centre Court em sete ocasiões, afirmou que poderia fazer a deslocação a Wimbledon pela primeira vez desde a sua última participação (2002) para ver Roger Federer bater o recorde de títulos do Grand Slam que ambos partilham neste momento (14). Mas será que o irá fazer, tendo em conta que o seu amigo suíço mede forças com um seu compatriota?

PASSIVIDADE E VALENTIA

Murray partia com o ascendente do seu lado para o confronto com Roddick – não só é um jogador dotado de uma técnica mais completa que lhe proporciona diferentes soluções tácticas como também o havia derrotado por seis vezes em oito ocasiões, incluindo a vez anterior em que se defrontaram em Wimbledon: nesse final de Junho de 2006, a vitória de Murray até serviu para adoçar o espírito dos britânicos num dia em que a Inglaterra perdeu com Portugal no Mundial de futebol de 2006.

Três anos volvidos, o estatuto do talentoso Murray cresceu exponencialmente e, com apenas 22 anos e no terceiro posto do ranking mundial, era legítimo vê-lo pelo menos aceder à final. Mas a decepção foi grande e desta vez não foi por culpa do pénalti de Cristiano Ronaldo. Talvez o jovem escocês tenha acusado o enorme peso das expectativas; jogou algo preso e a cometer erros inabituais, revelou-se ocasionalmente frágil no segundo serviço, teve pouco êxito nos passing-shots de esquerda e a sua direita funcionou melhor nos passing-shots do que nas trocas de bola no fundo do court, para além de raramente ter ido à rede aplicar o seu excelente vólei. Foi demasiado passivo.

Mas, com todos os holofotes colocados em Murray, não se pode esquecer que Andy Roddick já ganhou um título do Grand Slam (US Open, em 2003), foi número um mundial, jogou duas finais em Wimbledon (2004, 2005) e é um jogador de elite que sabe o que faz. Rejuvenescido pela sua associação ao competente técnico Larry Stefanki, menos pesado sete quilos do que no ano passado e mais calmo após o casamento com a manequim Brooklyn Decker, fez jus à fama de grande servidor e aplicou o seu plano com valentia – indo para a rede sempre que possível e merecendo a vitória por 6-4, 4-6, 7-6 (9/7) e 7-6 (7/5), em 3h07m de jogo.

«Tive de jogar o meu melhor ténis hoje», sublinhou Roddick. «Não havia muita gente a dar-me favoritismo, mas eu sabia que se mantivesse o meu rumo teria hipóteses de ganhar». O americano disparou o seu famoso serviço-canhão muitas vezes acima dos 210 km/h, com uma velocidade de ponta a 230 km/h e uma colocação de 75 por cento de primeiros serviços; fez 21 ases e cometeu uma única dupla-falta – ao passo que Murray até fez mais ases (25), mas alinhou cinco duplas-faltas e só meteu 52 por cento de primeiras bolas.

As estatísticas confirmam o enorme equilíbrio – 143 pontos no total para o americano, 141 para o escocês – e até indicam que Murray conseguiu mais pontos ganhantes e fez menos erros não forçados. Mas não conseguiu impor-se nos pontos cruciais, como o set-point de que dispôs no tie-break do terceiro set.

FEDERER INCONTORNÁVEL

No primeiro embate do dia, Roger Federer jogava diante de Tommy Haas a sua 21ª semifinal consecutiva de um torneio do Grand Slam (um sensacional recorde que é mais do dobro da anterior marca: as 10 de Ivan Lendl) e, graças a um triunfo por 7-6 (7/3), 7-5 e 6-3 em 2h03m de jogo, qualificou-se para a sua sétima final consecutiva em Wimbledon e a sua 20ª final de um torneio do Grand Slam (ultrapassando a marca de 19 que partilhava com Ivan Lendl; Pete Sampras jogou 18). Mas, mais incrivelmente ainda, o suíço qualificou-se para a sua 16ª final nos últimos 17 torneios do Grand Slam que jogou, com a estratosférica série a ser travada apenas por Novak Djokovic nas meias-finais do Open da Austrália de 2008 (quando o helvético padecia de mononucleose).

«Tenho muito orgulho nos recordes que tenho conseguido porque quando era miúdo nunca imaginei que teria tanto sucesso; basicamente sonhava em ganhar alguns torneios e que um deles fosse Wimbledon», comentou Federer. «As pessoas sabem quem ganhou Wimbledon várias vezes, quem foi número um durante mais tempo, quem ganhou mais títulos. Mas depois há esses outros recordes, como o número de meias-finais consecutivas e o número de finais, que não se conhecem até que alguém consiga lá chegar e eles sejam badalados. É bom que se fale deles, porque dão-me mais motivação para continuar».

O duelo entre Federer e Haas foi de excelente qualidade e espectacularidade atacante, mas rapidamente se tornou numa exibição artística a partir do momento em que o campeoníssimo chegou à vantagem de dois sets a zero. Acabou por ser um triunfo bem mais fácil do que o dos oitavos-de-final de Roland Garros, quando o germânico, de regresso ao seu melhor ténis aos 31 anos de idade, esteve a liderar por dois sets a zero e teve um ponto de break no terceiro set que o colocaria a servir para o fecho do encontro. Nessa altura, Federer serviu muito bem e seguidamente colocou uma direita descruzada na linha – um ponto que ficou para a história… porque depois fez-se mesmo história, com o triunfo do suíço no único torneio do Grand Slam que não havia conquistado e o igualar do recorde de 14 títulos do Grand Slam de Pete Sampras.

Um mês depois, em Wimbledon e diante de um adversário de quem habitualmente faz ‘gato-sapato’ (ganhou 18 de 20 encontros com Roddick, incluindo as mencionadas finais de 2004 e 2005 no Centre Court e a final do US Open em 2007), é francamente favorito para chegar aos 15 títulos do Grand Slam. Para além disso, e independentemente do desfecho de domingo, já tem uma certeza: irá recuperar a liderança do ranking ao longo das próximas semanas (mais cedo ou mais tarde) devido à ausência do lesionado Rafael Nadal…

FINAL EM FAMÍLIA

Na vertente feminina, Williams ao quadrado: a continuação do domínio de Venus e Serena na Catedral do Ténis ao longo da presente década ficou antecipadamente garantido após as duas irmãs se terem qualificado individualmente para mais uma final individual entre si neste sábado às 14 horas… voltando em conjunto ao fim da tarde para mais uma final de pares!

Nos singulares, desde 2000 que em apenas duas ocasiões o troféu não ficou em família – em 2004 (Serena perdeu com Maria Sharapova) e 2006 (Amélie Mauresmo bateu Justine Hénin). Será a quarta final cem por cento Williams em Wimbledon (e oitava no cômputo geral dos torneios do Grand Slam), depois de Serena ter ganho em 2002 e 2003 e de Venus ter vencido em 2008. No cômputo global, os 20 encontros entre ambas no circuito profissional foram equitativamente distribuídos: 10 vitória para cada lado!

Nas meias-finais de quinta-feira, e diante de duas adversárias moscovitas, Venus atropelou literalmente a número um mundial Dinara Safina num sucinto embate de 51 minutos (6-1 e 6-0!) e Serena necessitou de salvar um match-point diante da campeã olímpica Elena Dementieva para acabar por vencer um épico duelo que teve a duração de 2h49m (6-7, 7-5, 10-8, a mais longa semifinal feminina na história do torneio). 

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