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Correio da Manhã

Desporto
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O triunfo do bom malandro

Rolando mudou a imagem dos jogadores intratáveis do passado, sem perder a eficácia desportiva: não chega a cometer uma falta por jogo e por isso nunca foi suspenso

19 de Março de 2011 às 00:00
rolando, fc porto, defesa
rolando, fc porto, defesa FOTO: José Moreira

O atarantado Cosme Machado viu Rolando cometer uma falta sobre o leiriense Fabrício, mas depois de sacar do cartão amarelo mostrou-o ao atónito e, naquele momento inocente, Fucile. Com esse erro o árbitro de Braga ajudou a manter a média extraordinária do defesa central caboverdiano naturalizado português, que cortou radicalmente com o tradicional perfil de atletas intratáveis e, por vezes, brutais que comandaram a defensiva do FC Porto nos últimos 25 anos.

Como se demonstra no gráfico à direita, Rolando só vê um cartão amarelo de 17 em 17 jogos e em sete anos na 1.ª Liga nunca atingiu o limite punível com suspensão automática, o que é inédito. Aliás, em três épocas no clube totaliza apenas 4 cartões amarelos, para 68 partidas da Liga. Com idêntico número de jogos na mesma posição, os seus antecessores viram quatro ou cinco vezes mais cartões.

Foram estudados os sete principais antecessores portugueses de Rolando na posição, desde Fernando Couto (um amarelo a cada 4 jogos) e Jorge Costa (um amarelo jogo sim, jogo não), até Bruno Alves (um cartão a cada 5 jogos), passando por Pepe e Pedro Emanuel (3 jogos) e Ricardo Costa e Ricardo Carvalho (4 jogos). O perfil disciplinar destes jogadores, que totalizaram dez expulsões entre todos, reflectiu sempre uma enorme agressividade e tornava impensável a substituição por um jogador com ‘low profile’, capaz de ter a mesma segurança defensiva com métodos mais discretos e suaves.

Líder de uma defesa que sofreu apenas sete golos em 23 partidas, Rolando figura na galeria dos durões das Antas como um "bom malandro", tranquilo e cirúrgico, sem ponta de exuberância nem os assomos de fogosidade, muitas vezes a roçar a violência, que caracterizavam os seus antecessores.

Tendo falhado apenas uma partida (Guimarães) e jogado os 90 minutos de todas as outras, o defesa contratado ao Belenenses em 2008 é dos menos faltosos da equipa de Villas-Boas e aparece somente em 102.º lugar no ranking das faltas cometidas, de toda a Liga. A sua média de intervenções faltosas é inferior a uma por jogo, com cerca de 30% das jornadas sem cometer qualquer infracção técnica, o que sublinha a diferença de estilo em relação aos históricos que passaram pela posição nas últimas décadas.

Com 13 golos em sete anos na 1.ª Liga, num total de 175 jogos, Rolando corporiza estatísticas invulgares para um defesa central: não haverá muitos com praticamente tantos golos marcados como cartões amarelos vistos.

Por ser um jogador discreto em campo e fora dele, Rolando nunca foi considerado como primeira opção da selecção nacional, mas tem apenas 25 anos, está numa fase evolutiva, com a tranquilidade de não ser uma referência do mercado internacional, o que lhe vai aumentar a influência interna nos próximos tempos no FC Porto. Mais antigos que ele no Dragão só Helton, Fucile e Mariano Gonzalez – nenhum português, portanto.

SETE ANOS SEM CASTIGOS

Rolando estreou-se na 1.ª Liga pela mão de Carlos Carvalhal em 2004-05 ao serviço do Belenenses, com 19 anos, oriundo de Cabo Verde, e rapidamente ganhou estatuto de primeira classe, em particular nos dois anos sob comando de Jorge Jesus. Daí ao FC Porto e à selecção foi um passo sem alaridos, mas seguro. Após sete anos de azul vestido entra agora na fase culminante da carreira, faltando-lhe apenas uma maior afirmação pessoal, uma notoriedade condigna com o trabalho executado. A tendência para ver poucos cartões amarelos já vem do Restelo, como se pode conferir no gráfico ao lado, mas é no Porto que se sente a diferença: 4 cartões em 3 anos.

MÉDIOS ASSUMEM OS CUSTOS

Na estratégia defensiva do Porto os centrocampistas assumem o ónus do jogo duro e são os mais penalizados disciplinarmente. Na tabela dos portistas mais faltosos, destaca-se João Moutinho, com mais do dobro das faltas cometidos do que Rolando, seguido de Belluschi e de Hulk. Juntos, os três somam 30% dos cartões amarelos da equipa.

CONTRASTE ENORME COM CONCORRÊNCIA

Em 102.º lugar no ranking das faltas cometidas, Rolando cometeu até agora menos infracções do que os principais defesas centrais da Liga, com a excepção de Daniel Carriço. E é o menos penalizado com cartões amarelos, em contraste com os dois centrais do Marítimo, alvos de critérios disciplinares mais severos, tal como se queixa Luisão.

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