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Correio da Manhã

Desporto
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Óscar e os baixinhos

O pormenor da estatura de dois dos três jogadores do ataque do Benfica para a nova época tende a ser desvalorizado, em favor da reconhecida capacidade técnica e talento do argentino Javier Saviola, que vem reencontrar-se com o amigo Pablo Aimar numa dupla de acólitos baixinhos, rápidos e imprevisíveis do gigante Óscar Cardozo. A teoria faz algum sentido: mobilidade, imprevisibilidade, talento e, nas sobras, o poder físico do varão paraguaio a tirar partido. Nos melhores sonhos, Saviola e Cardozo poderiam chegar perto dos 30 golos.
4 de Julho de 2009 às 00:00
Cardozo mede 1,92 metros
Cardozo mede 1,92 metros FOTO: João Miguel Rodrigues

Jesus privilegia um jogo ofensivo móvel e desequilibrador, com pouco espaço para os avançados estáticos, mas não tem margem de manobra depois da magnífica ponta final de temporada que Cardozo realizou. Neste caso, no início da caminhada tem de ser Óscar e mais dez, deixando pouca abertura a Nuno Gomes e a qualquer outro avançado que ainda possa ser contratado.

Não havendo lugar ao desperdício de uma aposta como a de Saviola, à semelhança do que aconteceu no ano passado com Aimar, o treinador volta a ficar refém das figuras, sem a certeza de que esta associação triangular de um gigante com dois baixinhos no eixo ofensivo seja a mais adequada para um campeonato como o português. Nos jogos em casa, particularmente, onde o Benfica ficou seis vezes em branco na última época, tudo aponta para a repetição de jornadas de angústia perante a impotência em chegar ao golo, devido à falta de poder físico do seu tridente. Muita posse de bola e pouca eficácia!

Nas seis últimas temporadas, o Benfica conseguiu aumentar paulatinamente o número de golos obtidos de cabeça para o dobro em seis campeonatos (de 8 para 16), e é curioso verificar que, numa escala menor, as equipas de Jorge Jesus também têm acompanhado esse desenvolvimento (de 8 para 11). Num balanço aos dez últimos campeonatos, verifica-se que 30% dos golos do Benfica são marcados de cabeça, bem acima dos 23% registados pelas sucessivas equipas de Jesus no mesmo período. Com o novo figurino, é plausível que a percentagem do clube baixe para os números do treinador – uma aposta com custos elevados na classificação final.

ATAQUE PERDE 14 CM

A inevitável comparação sugere que os homens não sejam medidos aos palmos, de outra forma o Benfica ficaria a perder bastante – em rigor, 14 centímetros – na troca de Suazo por Saviola. O rendimento do hondurenho prometeu mas foi pobre, apesar do empenho do treinador Quique Flores, pelo que este cotejo não coloca pressão sobre o pequeno argentino: seria difícil fazer menos. Suazo apontou apenas cinco golos, dois deles de cabeça, ambos em pontapés de canto, um na Liga (Funchal) e outro na Taça UEFA (Nápoles). O potencial estava lá mas foi muito mal explorado. Com Saviola, a concretização das bolas paradas obrigará a outros esquemas tácticos, mas no Benfica a participação dos defesas e médios (Luisão, Sidnei, David Luiz, Yebda) é mais decisiva que a dos avançados.

QUANTO MAIS ALTO A PERCENTAGEM

NUNO GOMES (26%)

Não sendo um cabeceador emérito, o capitão encarnado Nuno Gomes contribui com regularidade para o bolo global com um bom par de golos. Nas cinco últimas épocas, o goleador português do Benfica apontou 11 golos de cabeça, de um total de 42 (26 por cento).

MICCOLI (0%)

O último baixinho do Benfica, bastante apreciado pelos adeptos, foi o italiano Fabrizio Miccoli: em dois campeonatos marcou 14 golos, todos de pé direito. Chamavam-lhe ‘bombardeiro’, pela generosidade e potência do remate, mas a gama de recursos era muito limitada.

CARDOZO (37%)

Alguns consideram o avançado paraguaio Óscar Cardozo fraco no jogo aéreo mas foi ele quem elevou a média do Benfica na época passada, ao marcar seis golos de cabeça, de um total de 16 (37%), compensando desta forma o menor acerto na marcação de livres directos.

WELDON COMO JIMMY

A ideia de contratar o brasileiro Weldon sugeriu a dimensão menor do mundo de Jorge Jesus comparativamente ao perfil luxuoso de Saviola. Na época no Belenenses (2007-08), Weldon foi o melhor finalizador na carreira recente do técnico, com cinco golos de cabeça, de um total de 13. Atlético (1,83m), longilíneo, rápido, combativo e definidor, um dos melhores marcadores do Brasileirão seria uma boa escolha. Mas o Benfica precisa de notoriedade e movimentações financeiras, ainda pela razão de que há 15 anos perdeu Jimmy Hasselbaink para o Boavista.

ALTOS E MORENOS

Em contraste com o mito dos futebolistas nórdicos, altos e louros, que cresceu nos anos 80, foi morena e com toque bem latino a última grande dupla de grande área. O português João Tomás, longe de ser um dos predestinados da sua geração, com o holandês crioulo Pierre Van Hooijdonk, perfil de vedeta incompreendida mas capaz de oferecer um rendimento muito elevado para os padrões nacionais, com uma técnica excelente nas bolas paradas. Era uma dupla de avançados altos, toscos q.b. e morenos que fez 36 golos, 13 dos quais de cabeça (João sete e Pierre seis). Já passaram oito anos e o Benfica nunca mais teve nada semelhante.

O PAJEM DE JARDEL

Nos anos de Jardel, um outro avançado brasileiro dominou o espaço aéreo junto das balizas em Portugal, cruzando-se com Jorge Jesus no Estrela da Amadora na temporada de 1999/2000. Gaúcho cometeu o feito raro para um estrangeiro de ultrapassar a barreira dos 100 golos na Liga portuguesa mas nunca chegou a inspirar os clubes grandes, nem sequer os ‘europeus’. Naquela época com Jesus, chegou aos 21, oito dos quais de cabeça, e foi o protagonista de um dos maiores triunfos do treinador ao marcar dois golos na vitória de 3-0 do Estrela sobre o Benfica.

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