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Correio da Manhã

Desporto
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“Para onde estão a olhar?”

Serena Williams atrevida após bater a irmã Venus em Wimbledon. Na final masculina, Roger Federer tenta o seu 15ª título do Grand Slam diante de Andy Roddick.
4 de Julho de 2009 às 20:25
Serena Williams
Serena Williams FOTO: Carl de Sousa/Epa

Sempre atrevida, Serena Williams surgiu na conferência de imprensa após o seu triunfo em Wimbledon com uma sugestiva t-shirt sobre as suas generosas curvas: “Are you looking at my titles?”. A expressão ‘títulos’, em inglês, presta-se a trocadilhos marotos com uma(s) certa(s) parte(s) da anatomia feminina, mas a dúbia mensagem acabou por se tornar clara: o seu 11º título do Grand Slam só vem cimentar ainda mais o seu estatuto entre as melhores jogadoras de todos os tempos.

No 4 de Julho, dia nacional dos Estados Unidos que marca a independência relativamente à Grã-Bretanha, duas irmãs americanas protagonizaram a sua quarta final em solo britânico. Não foi o melhor duelo fratricida no historial da família Williams, mas foi jogado em potência vertiginosa e Serena foi melhor do que Venus, especialmente no tie-break que decidiu o primeiro set e lhe deu definitivamente o ascendente.

«Ela hoje tinha resposta para tudo e jogou melhor», disse a felina Venus, eclipsada pela maior intensidade exibicional da brutal Serena. A irmã mais jovem comentou: «Não foi fácil, ela é uma grande jogadora, especialmente em relva e especialmente no Centre Court. E também é minha irmã, alguém que eu quero sempre que ganhe e que tenha sucesso. Devo dizer que esta foi uma das raras ocasiões em que eu não esperava ganhar e senti que não tinha nada a perder. Depois de ganhar o primeiro set, joguei o segundo de maneira mais relaxada».

Relativamente ao facto de ganhar torneios do Grand Slam e não surgir actualmente como número um mundial, Serena reagiu de maneira crítica relativamente ao sistema de ranking computorizado do WTA Tour e sobretudo com muita ironia relativamente à actual líder da classificação, Dinara Safina, que ainda não ganhou qualquer título do Grand Slam e foi esmagada por Venus nas meias-finais: «Quem ganha três títulos do Grand Slam no espaço de um ano talvez devesse ser número um, mas pelos vistos isso não acontece no WTA Tour. Talvez a minha motivação seja ganhar outro título do Grand Slam e continuar a número dois (risos). É chocante, mas prefiro definitivamente ser número dois e ganhar três títulos do Grand Slam no espaço de um ano do que ser número um e nunca ter ganho nenhum; acho que a Dinara Safina tem feito um bom trabalho para se tornar número um porque ela ganhou… Roma e Madrid (gargalhada geral)», brincou Serena, que nas 52 semanas de funcionamento do ranking venceu o US Open, o Open da Austrália e atingiu os quartos-de-final de Roland Garros, substituindo os pontos de finalista do ano passado em Wimbledon pelos pontos de vencedora deste ano. Não bastaram para a catapultar de regresso ao topo da hierarquia…

UM CONTO DE FADAS

A história de sucesso da escuderia Williams é um autêntico conto de fadas. Há cerca de 30 anos, um homem chamado Richard Williams viu pela televisão a tenista romena Virgínia Ruzici receber um cheque e decidiu: “Os meus próximos filhos serão campeões de ténis”. Nasceram Venus e Serena, treinaram no ghetto de Compton protegidas por gangs com metralhadoras e não só corresponderam aos sonhos do progenitor como ultrapassaram todas as expectativas – o último capítulo da saga foi mais uma final de um torneio do Grand Slam jogada em família (a oitava) e desta vez foi Serena quem saiu vencedora, derrotando Venus por 7-6 e 6-2 em 1h30 e embolsando um cheque de cerca de 1,1 milhão de euros.

O pormenor financeiro há muito que se tornou secundário face aos cerca de 57 milhões em prémios oficiais e muitos mais em patrocínios já angariados em conjunto pelas irmãs. O mais importante é o aspecto curricular – e Serena, como orgulhosamente fez constar na sua t-shirt, conseguiu o seu 11º título do Grand Slam (o terceiro em Wimbledon, após já ter batido a irmã em 2002 e 2003), enquanto Venus se manteve nos sete (dois no US Open e cinco em Wimbledon, o último dos quais o ano passado perante a irmã).

Serena, que na primeira ronda derrotou a portuguesa Neuza Silva por 6-1 e 7-5, serviu muito bem e mostrou-se mais completa – especialmente no tie-break que decidiu o primeiro set, concluído com um excelente balão em topspin que contrariou mais uma subida à rede da irmã; na segunda partida, aproveitou o ascendente face a uma quebra de produção de Venus no serviço e no golpe de direita. Curiosamente, no cômputo global, os 20 encontros entre ambas no circuito profissional antes da final estavam equitativamente distribuídos: 10 vitórias para cada lado! Serena desfez – por enquanto – a igualdade…

FINAL EM FAMÍLIA

Quando as filhas se defrontam, Richard Williams nunca assiste. Mais precisamente, enquanto Venus e Serena se digladiavam no esplendor da relva do Centre Court, o pai (que regressou aos EUA) aparava a relva do jardim de sua casa na Florida – que é o que acontece sempre que há um duelo fratricida entre Williams. Deve ter a relva melhor aparada do mundo…

O domínio da família Williams na Catedral do Ténis é impressionante: nos singulares, desde 2000 que em apenas duas ocasiões o troféu não ficou em família – em 2004 (Serena perdeu com Maria Sharapova) e 2006 (Amélie Mauresmo bateu Justine Hénin). Foi a quarta final cem por cento Williams em Wimbledon (e oitava no cômputo geral dos torneios do Grand Slam), com Serena a ganhar em 2002, 2003 e 2009 e Venus a impor-se em 2008.

E, tal como sucedeu após a final de singulares em 2008, as irmãs regressaram ao Centre Court ao fim da tarde actuar em conjunto e ganhar mais um título de pares!

FEDERER FAVORITO PARA FINAL MASCULINA

Neste domingo, Roger Federer joga diante de Andy Roddick a sua sétima final consecutiva de singulares em Wimbledon (um recorde) e a sua 20ª final de um torneio do Grand Slam (ultrapassando a marca de 19 que partilhava com Ivan Lendl; Pete Sampras jogou 18). Mas, mais incrivelmente ainda, o suíço qualificou-se para a sua 16ª final nos últimos 17 torneios do Grand Slam que jogou, com a estratosférica série a ser travada apenas por Novak Djokovic nas meias-finais do Open da Austrália de 2008 (quando o helvético padecia de mononucleose).

Um mês depois de ter igualado os 14 títulos do Grand Slam de Pete Sampras (que poderá estar presente neste domingo em Wimbledon) em Roland Garros, quebrando a malapata no único evento do Grand Slam que lhe vinha escapando, o campeoníssimo suíço tentará o 15º no seu court preferido e diante de um adversário de quem habitualmente faz ‘gato-sapato’ (ganhou 18 de 20 encontros com Roddick, incluindo as finais de 2004 e 2005 em Wimbledon e a final do US Open em 2006). Para além disso, e independentemente do desfecho de domingo, já tem uma certeza: irá recuperar a liderança do ranking ao longo das próximas semanas (mais cedo ou mais tarde) devido à ausência do lesionado Rafael Nadal…

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