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Correio da Manhã

Desporto

"Pinto da Costa já fez pior do que o apagão"

Ex-responsável pelo futebol do Benfica, Gaspar Ramos critica quem apagou a iluminação do Estádio da Luz no clássico que deu o título aos dragões, mas defende que o presidente do FC Porto não tem moral para falar mal dos outros. Dirigente em 1987/88, quando o PSV Eindhoven ‘tirou’ o título de campeão europeu às águias, acredita que a Liga Europa não vai fugir.
9 de Abril de 2011 às 00:00
Gaspar Ramos
Gaspar Ramos FOTO: Record

Correio Sport - Acredita que, depois de golear o PSV Eindhoven, o Benfica vai à final da Liga Europa?

Gaspar Ramos - Sempre achei que o Benfica tinha todas as condições para eliminar o PSV Eindhoven, e agora, depois desta vitória por 4-1, ainda tenho mais motivos para acreditar que o Benfica pode ganhar esta competição.

- No domingo passado, o cenário foi bem diferente. Que achou do ‘apagão'?

- Não gostei do que se passou, mas também não gostei da forma como Pinto da Costa se manifestou. Não tem moral para dizer o que disse. Eu próprio fui testemunha de coisas muito baixas que se passaram nas Antas, mas se me perguntarem se estou de acordo com o facto de terem apagado as luzes respondo que não. Não é uma atitude compatível com a grandeza do clube.

- Diz que já houve coisas muito piores da parte do FC Porto?

- Muito piores, desde agressões a dirigentes até ao episódio mais conhecido, do cheiro a bagaço no balneário, que nos obrigou a equipar no corredor. Portanto, coisas de uma baixeza indescritível. Pinto da Costa não tem moral para falar.

- Ficaram famosas as suas guerras verbais com o presidente do FC Porto. Era um ‘duelo' difícil?

- Pinto da Costa tem uma forma de ser que ainda hoje se manifesta da mesma maneira. Importante era estar atento às circunstâncias, saber o que se ia passando e denunciar essas situações. Fui falando com os responsáveis na altura, e de algum modo isso ajudou a que não fôssemos tão prejudicados em determinada fase. Ele tinha o controlo de todas as instâncias do futebol, desde a justiça à arbitragem.

- Para muitos, o clima de guerra entre Benfica e FC Porto só prejudica o futebol português. Que pode o Benfica fazer para corrigir esta situação?

- Tem de manter uma linha de conduta de grande elevação. Pela sua grandeza, não pode cometer actos iguais aos de Pinto da Costa. Isso, só por si, dará algum equilíbrio a essa relação. Não haverá mais controlo por parte do FC Porto como houve no passado.

- A paz entre os dois clubes é ou não possível?

- Acho apenas que há possibilidades de o Benfica assumir atitudes dignas. Enquanto Pinto da Costa for presidente do FC Porto, as suas atitudes vão ser iguais. É incrível que, passados 20 anos e várias gerações, uma pessoa não consiga transformar a forma de ser e o carácter. O clube merece-me muito respeito, mas Pinto da Costa tem mostrado pouca dignidade no relacionamento com os outros.

- Reconhece que o FC Porto foi um justo campeão?

- O FC Porto acaba por ser um justo campeão, pela sua regularidade. O Benfica jogou bem melhor a determinada altura da época mas o FC Porto foi sempre ganhando, mesmo na fase em que actuou sem Falcão e Álvaro Pereira.

- Os dirigentes do Benfica queixam-se de a equipa ter sido muito prejudicada nos primeiros jogos...

- Têm alguma razão, pois o Benfica foi claramente prejudicado nos primeiros jogos. O FC Porto teve alguma ajuda na fase menos boa, mas tenho as minhas dúvidas de que tenha sido premeditado.

- Em relação à equipa, o que é que falhou?

- Falhou o início da época. A partir de determinada altura, o Benfica foi a melhor equipa do campeonato, mas o FC Porto conseguiu resistir à sua fase mais difícil e não deu hipóteses de aproximação ao rival.

- O jogo com o PSV Eindhoven trouxe-lhe recordações do passado europeu do Benfica?

- Trouxe recordações porque, depois da excelente campanha que fizemos em 1987/88, perdemos a final da Taça dos Campeões frente ao PSV Eindhoven, em Estugarda. São coisas que acontecem.

- Lembra-se do ambiente no final do jogo?

- Não houve dramas, porque tínhamos consciência de que o PSV tinha uma equipa superior à nossa. Era uma formação recheada de internacionais holandeses e belgas. Ainda por cima, jogámos sem o Rui Águas, que estava lesionado, e o Diamantino fez uma ruptura de ligamentos cruzados em Guimarães e também desfalcou a nossa equipa. Com eles, talvez a história da final fosse diferente.

- Sabia que, desde essa altura, o Benfica nunca mais conquistou dois títulos consecutivos?

- De há uns anos a esta parte, alterou-se a forma de gerir o futebol do clube. O Benfica tinha uma orientação clara, e um dos pilares dessa política era vender apenas um jogador todos os anos. Assim mantinha-se o equilíbrio. Dois anos depois da final de Estugarda, voltámos a outra final, em Viena, com o Milan. Perdemos novamente, por 1-0, mas o Milan tinha Van Basten, Gullit, Rijkaard, era uma super--equipa. Foram anos bons.

- Mas reconhece que o clube dá mostras de querer voltar a esses tempos?

- Pelo menos, esta direcção tem tido a preocupação de contratar jogadores de qualidade. Até aqui contratava-se jogadores de valor duvidoso, muitos eram depois emprestados, mas tinha de ser o clube a suportar os ordenados porque os clubes que os recebiam não tinham capacidade financeira para lhes pagar. Isso criou instabilidade e aumentou o passivo do clube. Agora contrata grandes jogadores, mas está tão dependente de empresários que é obrigado a vender três ou quatro no final de cada época.

- Há hoje algum jogador do actual plantel que lhe encha as medidas?

- O Benfica tem no seu plantel alguns jogadores com qualidade acima da média. Não gosto de particularizar, mas fiquei admirado com Aimar. Pensei que estava acabado mas é um grande jogador. Há o Saviola, mesmo o Cardozo, que às vezes é contestado, e, sobretudo, Fábio Coentrão, acima de todos. É o expoente máximo da equipa.

- Como vê a sua mais do que provável saída no fim da época?

- Como sócio, gostaria que o Fábio Coentrão ficasse, mas sei que o clube precisa de dinheiro dada a situação do passivo. O Benfica só pode vender quem tem procura, e se há um jogador nessa situação chama-se Coentrão, por isso aceito a decisão. Aimar e Saviola não são tão apetecíveis para o mercado porque já têm idade avançada. Mas o olhar de quem segue a vida do clube por fora nunca é igual ao dos dirigentes que vivem o dia--a-dia.

PERFIL

José Gaspar Ramos nasceu em Arganil, no dia 18 de Outubro de 1940 (70 anos) e praticou râguebi no Benfica durante 14 anos, antes de iniciar a carreira de dirigente desportivo, o que aconteceu em 1975, na área das modalidades amadoras. Chefiou o departamento de futebol do clube da Luz de 1978 a 1981 e novamente de 1987 a 1992. Desempenhou ainda o cargo de vice-presidente para o futebol entre 1994 e 1997. Com ele no comando administrativo do futebol, o Benfica conquistou cinco títulos de campeão nacional, quatro Taças de Portugal, duas Supertaças e esteve em duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus.

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