Há um ano atrás, todos os domingos os habitantes do Bairro Padre Cruz, em Carnide, deslocavam-se ao campo dos ‘Os Unidos’, que militam nos distritais de Lisboa, para passarem a tarde a ver um jogo de futebol. Contudo, hoje em dia já não é assim. Tudo porque em vez do piso sintético prometido pela Câmara de Lisboa, os atletas treinam agora no... alcatrão e têm de jogar sempre em campo emprestado.
“Decidimos substituir o campo pelado por um piso sintético, tudo porque a Câmara ficou de nos ajudar. O orçamento era de 300 mil euros, eles adiantaram-nos metade e começámos as obras. Contudo, quando chegou a altura de colocar o piso sintético a Câmara disse que não poderia dar, de imediato, o restante dinheiro”, contou ao CM Carlos Pedro, presidente de ‘Os Unidos’.
A reprovação do orçamento da Câmara de Lisboa e a mudança de presidente são algumas das razões apontadas para a demora da entrega dos restantes 150 mil euros. No entanto, os dirigentes de ‘Os Unidos’ estão confiantes numa rápida resolução deste problema. “O presidente da Junta de Carnide disse-nos que o nosso problema será apresentado em sessão de Câmara já na próxima semana. Se Deus quiser já ficará tudo resolvido”, afirmou Carlos Pedro, referindo depois que os prejuízos já são avultados.
“No início das obras começámos a treinar e a jogar em campos emprestados e por cada um tínhamos de pagar 80 euros. Mas como temos quatro escalões (Iniciados, Juvenis, Juniores e Seniores) tornou-se incomportável”, salientou.
Apesar das ajudas da Junta, algumas obras têm evoluído devido ao contributo pessoal de dirigentes e a alguns patrocínios. Mas nem sempre os mesmos podem auxiliar. “Prejudicamos muitas vezes as nossas vidas pessoais por causa do clube. E fazemos isso porque vemos o esforço dos nossos atletas. Mas a cada dia que passa torna-se mais complicado.”
O CLUBE E O BAIRRO PROBLEMÁTICO
O bairro Padre Cruz sempre foi conotado como sendo bastante problemático e ‘Os Unidos’ tem um papel muito importante na formação dos jovens daquele bairro. O clube consegue afastá-los das coisas menos boas da vida – como a droga –, mas os seus dirigentes receiam que o trabalho feito até agora venha por água abaixo.
“Se isto continuar assim é evidente que tanto os pais dos jovens como eles próprios deixem de manifestar vontade de representar ‘Os Unidos’. Tanto a Câmara de Lisboa como a Junta de Carnide sempre nos elogiaram pelo papel que temos na vida destes jogadores, evitando que eles sigam por outros caminhos. No entanto, com as condições actuais, não podemos fazer muito mais”, salientou o vice-presidente Paulo Fonseca.
DESMOTIVAÇÃO E LESÕES DOS ATLETAS
São cerca de uma centena de atletas do ‘Os Unidos’ que treinam regularmente no piso de alcatrão no Bairro Padre Cruz. E há cerca de quatro meses que é assim. Contudo, felizmente, ainda não se registaram lesões graves.
“Graças a Deus. Os jogadores, por vezes, queixam-se de dores nos pés, mas além disso não se registaram problemas de maior”, começou por dizer Fernando Rosa, secretário-geral daquele clube, revelando depois que a desmotivação por parte dos atletas começa a evidenciar-se.
“Por vezes os mais novos nem aparecem nos treinos. Por exemplo, os juniores, teoricamente a nossa melhor equipa, têm apresentado resultados muito fracos e estão quase a descer de divisão. Passam a semana a treinar no alcatrão e depois no fim-de-semana têm de correr na relva ou em pelados.”
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