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Correio da Manhã

Desporto
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Portugal desligou a meio

Tinham razão os que diziam que fazer dois jogos particulares numa altura destas era um capricho dificilmente justificável por Luiz Felipe Scolari.
16 de Novembro de 2005 às 00:00
Se frente à Croácia, em Coimbra, no sábado, Portugal ainda mostrou uma face agradável, ontem, perante uma Irlanda do Norte de II Divisão, não foi além de um paupérrimo empate (1-1), explicável apenas pela forma displicente – mais a pensar nos jogos do fim-de-semana, com os clubes, do que no desafio que estavam a disputar – com que os nossos internacionais disputaram a segunda parte.
Até ao intervalo, Portugal não tinha jogado bem, mas os jogadores estavam pelo menos concentrados e ainda iam iludindo a entrega irlandesa com uma circulação de bola que deixava à vista uma clara superioridade técnica e táctica sobre uma equipa que valia apenas pela competitividade: era canela até ao pescoço, a ponto de o árbitro (britânico) ter sido obrigado a puxar várias vezes pelo cartão amarelo num jogo amigável. A superioridade portuguesa era de tal forma marcante que aos donos da casa pouco mais restava do que aplaudir lançamentos laterais e pontapés de canto: o primeiro remate, fizeram-no aos 34’, quando Portugal já tinha visado as redes de Taylor por nove vezes. E lá se ia o teste ao guarda-redes Paulo Santos, único estreante da noite.
Mesmo assim, para Portugal marcar, foi necessário um autogolo de Craigan, num livre estudado e posto em prática por Petit e Cristiano Ronaldo: cruzamento deste, tentativa de corte desastrada do central irlandês e 0-1 no marcador. Faltavam quatro minutos para o intervalo, antes do qual a equipa portuguesa ainda devia ter chegado ao 2-0, não tivesse o árbitro anulado (mal) um golo a Pauleta. Tudo parecia fácil. Tão fácil que é provável que os jogadores tenham aproveitado o intervalo para desligar o interruptor e começar logo a pensar no fim-de-semana.
Sucede que os irlandeses continuaram com o mesmo entusiasmo do início e, mesmo sem jogar bem, impediram Portugal de ligar o seu jogo durante os 45 minutos finais. Chegaram mesmo ao festejado empate: num livre lateral de Gillespie, Feeney antecipou-se a Paulo Ferreira e, de costas para a baliza, desviou a bola para as redes. Faltava mais de meia hora para o fim do jogo, mas Portugal já não estava no relvado de Windson Park. E Scolari até ajudou à festa, retirando os flanqueadores e colocando em campo homens com menos ritmo, mais a mais num sistema híbrido entre o 4x3x3, o 4x4x2 e o 3x5x2, contribuindo para que a equipa se arrastasse até final.
SCOLARI: ELES TIVERAM A INTENÇÃO DE MAGOAR
Luiz Felipe Scolari não ficou nada agradado com o teste de ontem, em Belfast, não tanto pela exibição dos jogadores portugueses, mas mais pela atitude em campo da formação contrária. “Este foi um jogo muito difícil, frente a um adversário complicado que faz muitas faltas”, disse o seleccionador nacional, que foi bem mais longe nas acusações ao conjunto da Irlanda do Norte. “Eles são falsos, fortes e tiveram a intenção de magoar os nossos jogadores. Se este era um encontro amigável, eles só tinham de respeitar o adversário”.
Scolari, que antes deste embate havia alertado os jogadores lusos para a necessidade de não se lesionarem, acabou por ver esse objectivo cumprido. “No final conseguimos o que era melhor para nós, que era devolver os jogadores aos clubes sem quaisquer problemas, aprender com equipas que joguem desta maneira, com muitas bolas aéreas. E no Mundial é possível que apanhemos uma ou outra selecção assim”, disse o seleccionador.
Quanto à quebra de rendimento na etapa complementar, Scolari classificou-a de “normal”. “Fizemos substituições e é natural que um ou outro jogador não apresentasse o seu total rendimento. Mas o que precisávamos de observar quanto aos jogadores conseguimos”.
MOMENTOS DO JOGO
MINUTO 45: Pauleta recebe uma bola de Ronaldo após uma falha da defesa irlandesa e remata para golo. O árbitro comete um erro clamoroso ao anular o tento por fora-de-jogo.
MINUTO 53: Gillespie marca um livre sobre a esquerda. Feeney antecipa-se a Paulo Ferreira e com um desvio ligeiro surpreende o guarda-redes Paulo Santos para fazer o 1-1.
MAIS
TIAGO, UM 10 ALTERNATIVO
É Tiago o português que melhor pode alinhar na vaga de Deco. De uma forma diferente, é certo: menos transporte de bola, menos drible, mas mais passes à distância e as mesmas assistências. Pertenceu ao médio do Lyon o único lampejo de classe da segunda parte portuguesa, quando, aos 56’, isolou Nuno Gomes, apenas para este (tocado por um defesa) chutar contra o guarda-redes.
MENOS
INVENÇÕES DE SCOLARI
É certo que os particulares servem para isto mesmo: para testar. Mas era preciso testar para perceber que, ainda por cima com a falta de dinâmica com que os jogadores estavam, não resulta acumular jogadores centrais, como Nuno Gomes, Postiga, Alves, Frechaut e Costinha e entregar os flancos apenas aos laterais? Ou que serve de pouco mandar a equipa atacar e fazer substituições defensivas?
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