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Correio da Manhã

Desporto
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Presidente da U. Leiria pediu Sérgio Lacroix

Sérgio Lacroix, o árbitro assistente que esteve na expulsão de Quaresma no jogo realizado na sexta-feira, em que a União de Leiria venceu (1-0) o FC Porto, chegou a ser suspeito do crime de corrupção desportiva passiva no âmbito do processo ‘Apito Dourado’, numa certidão arquivada pelo Tribunal de Gondomar.
28 de Janeiro de 2007 às 00:00
Em causa, segundo o procurador Carlos Teixeira, esteve uma escuta telefónica em que o presidente dos leirienses, João Bartolomeu, foi apanhado a pedir a Júlio Mouco, vogal da Comissão de Arbitragem (CA) da Liga, que nomeasse Sérgio Lacroix e Venâncio Tomé como árbitros assistentes para o jogo entre a U. Leiria e o Benfica, realizado no dia 11 de Janeiro de 2004, que foi dirigido por António Costa e terminou empatado (3-3).
Perante o pedido de Bartolomeu, o magistrado entendeu que havia indícios suficientes para acusar o dirigente do crime de corrupção desportiva activa e os fiscais de linha do crime de corrupção desportiva passiva, pelo que ordenou que fossem feitas mais investigações.
Os arguidos João Bartolomeu e Júlio Mouco recusaram prestar declarações. Segundo Carlos Teixeira, o árbitro António Costa disse que se lembrava do jogo, frisando que logo nos primeiros minutos “teve um lance de difícil julgamento, que poderia ter originado uma grande penalidade a favor do Benfica, a qual não assinalou por entender que não se verificou.” O observador do jogo, no entanto, escreveu no relatório que o árbitro errou ao não ter marcado um penálti contra o Leiria no minuto quatro. António Costa assegurou, todavia, não ter sido contactado “por quem quer que fosse” no sentido de falsear a “verdade desportiva do encontro”.
Quando Sérgio Lacroix foi inquirido disse que conhecia Júlio Mouco e João Bartolomeu há quatro anos, mas garantiu que, antes da partida, nenhum deles lhe pediu que ajudasse o Leiria a ganhar ao Benfica. Sublinhou mesmo não saber que interesse teriam ambos em que fosse nomeado para o jogo.
Depois de ter sido ouvido pela PJ. Lacroix, a chorar, afirmou estar muito triste e que, “se falasse, iria dizer muita coisa”, que não especificou.
Venâncio Tomé também disse à PJ que, antes do encontro, ninguém lhe pediu para beneficiar ou prejudicar qualquer uma das equipas.
Perante as declarações que os suspeitos e arguidos fizeram à Judiciária, Carlos Teixeira concluiu que não havia indícios suficientes para avançar com o processo e arquivou-o: “Da análise da prova recolhida, e não obstante a conversa mantida entre os arguidos João Bartolomeu e Júlio Mouco fazer suspeitar de que haveria a intenção de beneficiar o Leiria, através da actuação dos árbitros assistentes contrários às leis do jogo, o certo é que não há nos autos qualquer elemento objectivo que traduza uma concreta solicitação por parte do arguido João Bartolomeu, ou aceitação por parte dos suspeitos Sérgio Lacroix e Venâncio Tome, nesse sentido.”
O CM tentou contactar João Bartolomeu, mas o presidente da União de Leiria não atendeu o seu habitual telemóvel.
Fonte da Comissão Disciplinar da Liga disse ao CM que, até ontem, ainda não foi a “plenário” qualquer deliberação que tenha sido tomada em relação a casos arquivados do processo ‘Apito Dourado’: “Assim que todos os membros reunam para analisar processos que tenham sido arquivados, a Comissão Disciplinar da Liga tem de tomar uma de duas posições: ou avança para a instauração de inquéritos ou arquiva, tendo, neste último caso de fazer um despacho muito bem fundamentado.”
A mesma fonte adiantou, ainda, que o facto de a “justiça criminal” ter arquivados processos não quer dizer que o mesmo se passe em relação à justiça desportiva: “Pode haver ilícitos desportivos que tenham de ser punidos.”
"HÁ QUE TER BOM SENSO"
O ex-árbitro Jorge Coroado defende que Sérgio Lacroix não devia dirigir jogos em que participe a União de Leiria. “A Comissão de Arbitragem da Liga devia ter bom senso. No princípio da defesa da dignidade própria, todos os árbitros envolvidos no processo ‘Apito Dourado, na condição de arguidos, deviam de imediato pedir a suspensão dos cargos que ocupam, ou a suspensão dos mesmos.”
E acrescentou: “Se a Comissão de Arbitragem tivesse conhecimento da situação de Sérgio Lacroix em relação à União de Leiria, não é nada curial que tivesse nomeado um árbitro para jogos de um clube em que possa estar sob suspeita, apesar de a Justiça já ter determinado que não cometeu qualquer ilícito criminal, dado que o processo foi arquivado.”
O CM tentou contactar o presidente da Comissão de Arbitragem da Liga, mas Vítor Pereira não atendeu o seu telemóvel.
ELMANO OUVIDO NA PJ
O árbitro que dirigiu o U. Leiria-FC Porto, Elmano Santos, também esteve envolvido no processo ‘Apito Dourado’. Foi ouvido como testemunha. Em causa, o jogo Benfica-Boavista (2003/04), que os encarnados venceram por 3-2. Segundo o Ministério Público, Valentim Loureiro foi apanhado numa escuta a pedir a Júlio Mouco, vogal da Comissão de Arbitragem da Liga, que nomeasse Elmano Santos para o jogo.
Ouvido pela PJ, o árbitro confirmou que, na véspera da partida, recebeu um telefonema do Major, em que este o informou de que a Liga tinha arquivado um processo em que era visado. E que depois do encontro, Valentim voltou a ligar-lhe. Desta vez “irado”, ameaçando-o com novo processo disciplinar. Perante os telefonemas do Major, Elmano Santos concluiu que Valentim queria que ajudasse o Boavista a ganhar ao Benfica. O processo corre no Departamento de Investigação e Acção Penal do Porto.
NÚMEROS DO PROCESSO
201 - É o número de arguidos no processo ‘Apito Dourado’.
25 - No decorrer do processo foram efectuadas 25 detenções.
370 - São as testemunhas envolvidas neste processo.
10 - Inspectores a tempo inteiro que trabalharam no processo.
25 - Meses de investigação da Polícia Judiciária.
55 Volumes - É o tamanho da acusação neste processo.
60 Apensos - Dados de investigação anexados ao processo.
21 - Telemóveis escutados no decorrer da investigação.
14947 - Telefonemas gravados e transcritos.
17916 - É o número de folhas que compõem o processo.
DEBATE INSTRUTÓRIO À PORTA FECHADA DEVIDO A PEDIDO DE VALENTIM LOUREIRO
AUDIÊNCIAS COMEÇAM NA TERÇA-FEIRA NO TRIBUNAL DE GONDOMAR
O debate instrutório do processo ‘Apito Dourado’ começa na terça-feira no Tribunal de Gondomar, a fim de o juiz de instrução criminal, Pedro Miguel Vieira, decidir se leva a julgamento os 27 arguidos que foram acusados pelo procurador Carlos Teixeira, na maioria dos casos por crimes de corrupção.
Se o magistrado determinar que deve avançar para julgamento, os arguidos não podem avançar com recurso para o Tribunal da Relação do Porto. Em caso de não pronúncia, fonte judicial disse ao CM que a “lei permite que o Ministério Público recorra para um tribunal imediatamente superior, no caso, a Relação do Porto”.
Quanto a eventuais recursos sobre “nulidades processuais” do despacho de pronúncia ou casos em que venha a ser solicitada a intervenção do Tribunal Constitucional, a mesma fonte judicial assegurou que não podem servir de argumento para a suspensão do julgamento.
No processo ‘Apito Dourado’, Valentim Loureiro, Pinto de Sousa, Francisco Costa, José Luís Oliveira e 23 outros dirigentes e árbitros estão acusados de corrupção desportiva visando a subida do Gondomar Sport Clube à II Liga, o que ocorreu na época 2003/2004.
Em causa está a falsificação de resultados em 28 dos 36 jogos da época investigada, de acordo com o Ministério Público.
A nova fase processual, que vai decorrer à porta fechada na sala de audiências do Tribunal de Gondomar, contará com a presença de todos os arguidos e respectivos advogados, bem como do Ministério Público.
Também o clube Dragões Sandinenses, assistente no processo, vai marcar presença no debate instrutório. Os Dragões pediram uma indemnização de três milhões de euros por alegadamente terem sido impedidos pelo Gondomar Sport Clube de subir à II Liga na época de 2003/2004.
Valentim Loureiro, um dos principais arguidos, já decidiu que irá prestar declarações ao juiz, Pedro Miguel Vieira.
Segundo apurou o CM, o Major vai reiterar que ainda hoje não tem consciência de haver cometido qualquer tipo de crime, ao contrário do que suste-nta o procurador adjunto Carlos Teixeira, o magistrado do Ministério Público de Gondomar, que também participará em todo o debate instrutório.
Valentim Loureiro foi o único arguido que solicitou ao Tribunal que as audiências se realizassem à porta fechada. O CM sabe, no entanto, que outros arguidos também iriam avançar com idêntico pedido, caso o Major não tivesse tomado a iniciativa.
Após as declarações de Valentim Loureiro, os outros arguidos poderão aproveitar a oportunidade e finalmente darem a sua versão dos factos num momento decisivo, em que conhecem todos os pormenores da Acusação deduzida contra eles.
José Luís Oliveira, vice-presidente da Câmara Municipal de Gondomar, é acusado de, sempre com o apoio de Valentim Loureiro, ter ajudado a subida do Gondomar Sport Clube, pedindo favores a alguns árbitros.
CONFISSÕES DE JACINTO PAIXÃO
A reabertura do processo relativo ao jogo Estrela da Amadora-FC Porto, ordenada por Maria José Morgado, é mais uma peça no desenrolar do processo ‘Apito Dourado’.
No interrogatório a que foi submetido no Tribunal de Gondomar, aquando da sua detenção, o árbitro Jacinto Paixão confessou ter tido um encontro com uma prostituta no Hotel Meridien, no Porto, após o jogo.
Um encontro que, segundo fez saber em sede de interrogatório, foi intermediado pelo empresário António Araújo.
O mesmo árbitro, contudo, negou ter recebido dinheiro de Araújo ou de alguém ligado ao FC Porto. Mais, explicou que nem sequer conhece pessoalmente Pinto da Costa.
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