Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
5

Psicologia barata

O treinador nunca foi tão desconsiderado, apesar de Portugal ter uma das melhores escolas europeias da actualidade.
24 de Outubro de 2009 às 00:00
Augusto Inácio
Augusto Inácio FOTO: D.R.

Em apenas sete jornadas, sete clubes mudaram de treinadores, um dos quais duas vezes, exacerbando uma tendência difícil de entender e de explicar. Os mesmos treinadores, escolhidos a dedo e apresentados como grandes experts, são descartados ao fim de poucas semanas de trabalho e logo recuperados pelos emblemas adversários, num rodízio especulativo em que as competências são mal avaliadas e acabam por contar menos do que o marketing pessoal de cada um. Os dirigentes tendem a considerar que são todos igualmente competentes e procuram os que têm mais sorte.

As chamadas ‘chicotadas psicológicas’ existem desde sempre mas nos últimos anos começaram a surgir cada vez mais cedo, a abrir a época, menosprezando a importância da pré--temporada. A paciência dos dirigentes, que antes podia durar até ao Natal, esgota-se agora ao fim de dois ou três resultados negativos, tirando partido de um mercado de trabalho completamente desregulado, com imensa oferta para os escassos lugares disponíveis. Os treinadores aceitam as regras do jogo, aproveitando toda e qualquer semana de trabalho efectivo, sob a capa de ‘projecto aliciante’, e pegam e largam em jogadores diversos, minimizando as características e a   identidade das equipas. O trabalho do treinador nunca foi tão desconsiderado como actualmente, apesar de Portugal ter, reconhecidamente, uma das melhores escolas europeias.

Neste ano, com o dobro das trocas de treinador verificadas na época anterior, considerando apenas as primeiras sete jornadas, o problema revela uma nova faceta, em parte sugerida pelo agravamento do crédito de salários e prémios vencidos, com a cumplicidade da Liga de Clubes. Os treinadores mais cotados deixaram de ficar à mercê dos despedimentos e tornaram-se eles próprios activos em busca de melhores posições, seguindo a hierarquia histórica dos emblemas. Paulo Sérgio muda do 10º para o 13º, Manuel Fernandes do 9º para o 15º, ambos sobrevalorizando o passado e o prestígio dos Vitórias de Guimarães e de Setúbal e ignorando a instabilidade dos clubes.

Quando mudam de emblema, os treinadores do circuito nacional raramente conseguem fazer valer direitos. A maioria nem sequer negoceia tais parâmetros, por já saberem que na hora da verdade isso conta menos do que a vontade dos adeptos e a vontade dos dirigentes. Aliás, os que não colocam ‘problemas’ e salvaguardam as relações com a ‘nomenklatura’ são os que ficam mais perto de voltar a ter emprego logo a seguir e poderão aspirar a manter-se seis ou sete anos na 1ª Liga independentemente de conseguirem bons resultados. Ulisses Morais vai para o quarto clube em seis temporadas, sem nunca ter estado perto dos lugares europeus. Rogério Gonçalves já esteve quatro vezes na 1ª Liga mas sem conseguir resistir sequer 20 jogos seguidos.

MUDANÇA EM OUTONO

Augusto Inácio foi o protagonista da mudança de treinador mais eficaz de um campeonato quando substituiu o italiano Giuseppe Materazzi, ao fim de cinco jornadas, para conduzir o Sporting a um título que não ganhava há 18 anos. Foi na época de 1999/2000.

Tal mudança ocorreu no começo do Outono, após longa sequência de trocas emotivas que caracterizavam a história leonina recente, reflectindo a instabilidade directiva, e pode ser apontada como um marco ao avalizar a antecipação das ‘chicotadas psicológicas’ para muito antes do Natal.

Mais tarde, a substituição de Adriaanse por Jesualdo Ferreira, num FC Porto campeão, na semana que antecedeu a jornada inaugural, ainda retirou mais importância ao papel do treinador na fase de preparação da época.

SALVAR A FACE A DIRIGENTES

A mudança mais canalha da história do futebol português terá sido a de Fernando Santos por Camacho, no Benfica, após a primeira jornada. Não haverá melhor imagem de quão descartável se tornou o papel dos treinadores no futebol moderno, extremamente mediatizado e mais dependente dos resultados, não deixará de considerar este caso, por não haver qualquer razão substantiva, à excepção de uma relação esfriada entre o técnico e uma parte dos adeptos, servindo de pretexto para os dirigentes salvarem a face. Neste caso, instalado no topo da carreira, o treinador não ligou aos sinais e optou por não facilitar com uma demissão, acabando por consentir que lhe conspurcassem prestígio e currículo com um despedimento fora de tempo e sem lógica.

SÍNDROME DA ÉPOCA SEGUINTE

A semana foi sacudida pela inesperada saída de Manuel Fernandes de Leiria, poucos meses depois de ter liderado uma sensacional recuperação que levou a União de volta à 1.ª Liga, contra todos os prognósticos. A pressão do ano seguinte tem marcado a carreira do antigo capitão do Sporting em praticamente todos os clubes que liderou, particularmente os que conseguiu promover à 1.ª Liga, como o Campomaiorense, o Santa Clara, o Penafiel e, agora, o Leiria. Só nos Açores conseguiu completar a época seguinte à subida e resistir à síndrome da segunda época, embora com o ónus do regresso à divisão secundária. Fernandes tem uma carreira errática que não traduz o potencial: experiência, prestígio e sagacidade que justificariam maior estabilidade e resultados ao mais alto nível.

JESUS FUROU O BLOQUEIO DOS GRANDES

Jorge Jesus, apesar das quatro subidas de divisão, parecia condenado a uma carreira mediana, rodando pelos clubes do meio da tabela. Duas qualificações europeias, uma final de Taça, uma campanha europeia – um enorme salto qualitativo, a justificar o furar do bloqueio que os clubes grandes mantêm à maioria dos treinadores portugueses. Quando escolheu Quique Flores, o Benfica nem reconhecia a existência de Jesus; um ano mais tarde, foi preciso pagar indemnizações para contratar o que no momento oportuno tinha custo zero.

PASSO EM FALSO DE NELO VINGADA

O falhanço de Nelo Vingada em Guimarães é uma enorme surpresa e uma mancha num currículo quase imaculado, depois de ter estabelecido um recorde de longevidade no Marítimo (144 jogos consecutivos em cinco campeonatos) e de duas épocas seguidas (53 jogos) na Académica.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)