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Correio da Manhã

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‘QUANDO AQUI CHEGUEI PARECIAM KAMIKAZES’

Guus Hiddink. O técnico holandês é o homem do momento na Coreia do Sul. É mesmo considerado um herói por ter conseguido a primeira vitória num Mundial. O antigo treinador do Real Madrid está encantado com a disponibilidade dos jogadores que tem à sua disposição e chega ao ponto de referir que nunca orientou um grupo de futebolistas que soubesse sofrer tanto no relvado. “Até à morte”, assegura com ar duro.
12 de Junho de 2002 às 21:10
O técnico holandês é o homem do momento na Coreia
O técnico holandês é o homem do momento na Coreia
- De despedido no Bétis a herói nacional na Coreia do Sul. Como é que deu essa volta?


- Vejo isso com um sorriso distante. Quando comecei a trabalhar na selecção da Coreia do Sul quis impor uma preparação difícil e muita gente da imprensa tentou mandar-me de volta a Espanha. Mas os resutados dos últimos meses acabaram por provocar essa reacção.


- Que tipo de preparação?


- Antes, para preparar os campeonatos do Mundo, os coreanos optavam por defrontar a Malásia ou equipas de segunda ou terceira categorias. Ganhavam sempre por goleada. Mas depois... bum! descobriam a realidade. Nunca venceram um jogo no Mundial. Além disso, davam uma má impressão. Eram tímidos. Quando falaram comigo, disse-lhes que aceitava o repto, desde que tivesse os jogadores à minha disposição cinco meses antes do início do Mundial. Também lhes disse que iríamos dar uma volta ao Mundo e defrontar adversários fortes. Tivemos derrotas, empates e mais derrotas... Algo normal, quando se está a preparar uma equipa. Mas a opinião pública não aceitou o que se estava a passar. Em Março, já com os jogadores que actuam fora do país [Japão, Itália, Bélgica e Alemanha], concentrámo-nos em La Manga [Murcia)]. E desde aí tivemos três sessões diárias de treino e conversas sobre táctica com vídeos e programas em 'power point'.


- Qual é a idiossincracia de um jogador da selecção coreana?


- Ao princípio, não se atreviam a olhar-me nos olhos. Na Coreia, o respeito é exagerado. A influência cultural e a ordem social contam muito. A hierarquia é muito mais pesada. Existem senhorios. Quando um jogador cumpre 30 anos fica dono dos que têm 28 e os que cumprem 28 dos que têm 26... literalmente. Às refeições, havia uma mesa para os jogadores com idade à volta dos 30 anos, outra para os de 25 e ainda outra para os de 20. E os primeiros a servirem-se eram os mais velhos. Rigorosamente.


- Como acabou com essa tradição.


- Não pretendo mudar a cultura, mas devo impor certos princípios, para fazer uma equipa competitiva. O objectivo ainda não está atingido, porque falta experiência. No entanto, já há mais coragem, mais de tudo. E menos timidez.


- De que forma acabou com as relações hierárquicas?


- Depois de os observar durante rês refeições comecei a misturá-los. Disse-lhes que era necessário, porque, no campo, tinham de estar todos juntos. Não podia ter jogadores que, nos jogos, não se atrevessem a falar ou a gritar com outro companheiro por causa de um respeito falso e não adequado às exigências do futebol moderno. Reagiram muito bem. Agora já se comportam como uma equipa europeia.


- Nos treinos também estimulou a comunicação?


- Provoquei situações de forma a que os mais jovens dessem ordens aos veteranos. Inventei exercícios em que os jovens têm de fazer de treinador. É que os centrocampistas são mais jovens do que os avançados, que superam os 30 anos. Ao princípio, baixavam a cabeça e tremiam. Mas compreenderam. Aos mais novos disse-lhes que tinha a obrigação de dar ordens, porque eram eles que, no meio campo, analisavam melhor a situação. Aos veteranos fiz-lhes ver que não deviam sentir-se atacados pelos jovens e que o respeito - que não deve ser artificial, mas natural - cresce se houver uma relação directa.


- A que jogador jovem concedeu essa responsabilidade?


- Ao centrocampista Lee e ao extremo direito Park, que marcou um golo a Inglaterra e outro à França. Um tem 24 anos e o outro 21. Park não é muito habilidoso, mas já manda um pouco. O avançado Hwang tem 35 anos e aceita as ordens. E até diz à imprensa que, mesmo que percam, devem continuar este estilo para desenvolver o futebol sul-coreano. Superaram o choque cultural.


- Não é um prazer poder contar com futebolistas tão respeituosos?


- Isso é verdade. Aqui respondem e isso dá-me poder. Porque cada vez que peço algo - ataca por aqui ou marca este jogador - fazem-no sem hesitar. Nas jogadas ensaiadas, aliás, obedecem com perfeição. Por exemplo: quero todos os passes desde as laterais e os cantos à segunda linha. Contra a Polónia marcámos dois golos na segunda linha. Tentam cumprir sempre e treinam até que lhes saia bem. Estão abertos às ordens. Neste sentido são diferentes de alguns jogadores europeus que têm a mania de que sabem de futebol mais do que toda a gente.


- A Coreia do Sul destaca-se pela boa preparação física.


- Os jogadores sabem sofrer. E com a ajuda do computador elaborámos uma plano para estarmos agora em plena forma. Comparei os dados com o trabalho efectuado com a Holanda no Mundial de França, em 1998, e estamos melhor.


- Os jogadores sul-coreanos estão dispostos sacrificar-se mais do que os europeus?


- Isso encanta-me. Há uma entrega total. Nas primeiras semanas trabalhei com trinta jogadores. Faziam entradas terríveis, na horizontal, com os 'pitons' à altura dos joelhos. Pareciam Kamikazes.


- Como seleccionou futebolistas que não conhecia?


- No início, os meus ajudantes convocaram 30. Desses, fiquei apenas com 12. Passei então a ver jogos das ligas profissionais e universitárias. Nestas, encontrei alguns. Necessitava homens leves e rápidos. Antes, estavam acostumados a eleger tipos fortes e pesados, ex-praticants de judo e Yujitsu.


- Num folheto da organização do Mundial está escrito que na Coreia do Sul as pessoas praticam futebol ao amanhecer, nos domingos.


- Quando tenho um dia livre, jogo golfe a partir das cinco da manhã que é quando começa a haver claridade. Os jovens jogam futebol antes do pequeno-almoço, vão à escola e voltam a treinar entre as três e as quatro a tarde. Depois estudam e a partir das 18 horas voltam a pegar na bola. É um luxo, mas têm de contar com bons treinadores.


- Que possibilidades tem um jogador sul-coreano de triunfar na Liga espanhola?


- Como não têm experiência, seria bom que lhes fizessem uma prova. Além disso, eles e os seus representantes têm de ser inteligentes para encontrarem um bom clube. É que alguns estão na Europa, mas não jogam. Ahn foi para o Perugia e, como não jogou muito, foi-se abaixo. Antes de ter ido para Itália era um herói. Aparecia na televisão e fazia questão de pôr-se bonito. Como o jornalismo na Coreia do Sul é muito inocente, Ahn era aclamado por ser bonito e marcar, de vez em quando, um golo de livre directo. Enfim, não conhecia as exigências do futebol europeu. Mas já lhes disse que antes de dar o salto para Espanha, Alemanha, Itália ou Inglaterra devem actuar em países de segunda linha, como Holanda, Bélgica...


- E tecnicamente?


- Têm um perfil particular. Os seus modelos nada têm a ver com os das crianças europeias. Não sabem fazer um passe em profundidade. Jogam curto e têm uma habilidade muito grande para conduzir a bola em velocidade. São 'sprinters' e sabem fazer fintas. Os extremos proliferam. Isso ajuda a adaptarem-se ao modelo tradicional holandês. O sistema coreano é o 3x4x3, convertível em 3x3x1x2.


- Não lhe parece que os sul-coreanos ou os japoneses jogam sempre à mesma velocidade em todas as zonas do campo?


- Esse foi um dos meus grandes problemas nas primeiras semanas. Voavam da esquerda para a direita. Deixavam os seus lugares. Tive de dizer-


-lhes várias vezes para respeitarem as parcelas de terreno que cabiam uns aos outros. Respondiam-me que lhes tinha pedido para se entregarem. Mas tudo o que faziam era de boa vontade e não por egoísmo. Essa, no entanto, era a base de trabalho do futebol total da Holanda nos anos setenta.


- O budismo anula-lhes o ego?


- São orgulhosos. São de uma nação que sofreu muito no passado, sobretudo durante a ocupação do Japão. Com o Japão existe mais rivalidade do que a Alemanha com a Holanda. Aqui, há ódio.


- Porque motivo a Coreia do Sul não pode derrotar Portugal? Esteve quase a empatar com a França.


-Desailly e Henry disseram: 'caramba, o ano passado ganhámos (5-0), sem correr'. A Coreia era uma equipa tímida. Nesse particular pensavam que que iam fazer um treino. Eu disse aos meus jogadores para atacar e defender bem no meio campo. Para pressionar. Petit, Vieira e Zidane estavam zangados. Eu estou encantado e optimista.
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