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Correio da Manhã

Desporto
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Quebra de disciplina

Em metade da Liga, o número de expulsões iguala o pior ano do século, o único em que o Benfica foi campeão.
16 de Janeiro de 2010 às 00:00
O defesa do FC Porto, Bruno Alves
O defesa do FC Porto, Bruno Alves FOTO: d.r.

Nas semanas que se seguiram ao pontapé de Bruno Alves na cabeça de Sougou, as forças de comunicação do FC Porto esforçaram-se por direccionar denúncias de abusos do defesa benfiquista David Luiz, na esperança evidente de que ele pudesse ficar impedido de actuar no clássico de Dezembro. Passado esse episódio, vira-se agora a delação para Luisão, a réplica encarnada de uma determinada estirpe de defesa de vigor físico e capacidade de liderança, capaz de fazer a diferença em campo.

O azimute portista tem lógica e presta uma homenagem ao valor do adversário, ainda que correndo o risco de poder ser entendido como uma fraqueza. O FC Porto sabe, historicamente, que a tranquilidade disciplinar do plantel é essencial para a conquista de objectivos desportivos e que a desestabilização emocional pode fazer a diferença no momento oportuno. A última vez que perdeu o título para o Benfica (2004-05), também já contava quatro expulsões pelo Ano Novo.

Por isso, em reconhecimento do descontrolo que minou o balneário nas últimas semanas, com sinais evidentes de quebras de disciplina, procura-se nivelar mais abaixo, enquanto se acertam as contas aos prejuízos provocados pelas escaramuças do túnel da Luz. Bruno Alves e Luisão cometeram faltas semelhantes e beneficiaram de idêntica impunidade, mas o «capitão» do Benfica tem aparecido esta época mais contido e assertivo, o que se reflecte em metade das repreensões de anos anteriores e das já aplicadas ao capitão do FC Porto.

Numa Liga em que o número de castigos mostra uma preocupante tendência de subida com o máximo de cartões vermelhos dos últimos quatro anos, as suspensões podem fazer muita diferença em campo. O FC Porto sabe-o melhor que os adversários, pois os dois últimos títulos que perdeu coincidiram com anos de desnorte emocional, e não esconde a pressão para emendar o rumo dos acontecimentos. Desde que Bruno Alves foi expulso por agredir Nuno Gomes à cabeçada, em Outubro de 2005, que o FC Porto conseguia concluir sempre a primeira volta ainda virgem em matéria de cartões vermelhos, em consonância com um domínio desportivo relativamente fácil.

AVISO ENCARNADO

O número de jogadores do FC Porto expulsos e suspensos tem uma relação directa com o sucesso desportivo. Nos últimos nove anos, a equipa portista ganhou sempre o campeonato quando foi a candidata menos penalizada disciplinarmente e perdeu os títulos de 2002 e 2005, precisamente os anos em que teve mais jogadores expulsos. Em 2005, perdeu o título para o Benfica, que teve apenas quatro cartões vermelhos, contra nove dos nortenhos. Em 2002 (Sporting) e 2001 (Boavista), o FC Porto foi menos penalizado que os campeões, mas tal não foi suficiente. Esta relação directa entre o êxito e a disciplina é um dos dogmas dos treinadores, mas nem sempre a mensagem passa para o plantel.

ALERTAS DE JESUALDO NÃO ARREFECEM JESUALDO

Desde a primeira jornada e a expulsão em Paços de Ferreira que se pressentia que o comportamento de Hulk poderia trair as suas enormes potencialidades competitivas. Jesualdo Ferreira lançou um alerta de tsunami, temendo réplicas futuras, e tinha razão. Um jogador cujas disputas fazem tremer o chão à sua passagem, sem problemas para cometer todo o tipo de faltas pela recuperação da bola, precisa de um «cooler» que lhe faça baixar a adrenalina nas pausas do jogo.

ESTÁ MUITO ADIANTADO O RELÓGIO DE MEIRELES

Raul Meireles é um autêntico relógio suíço pela forma regular como joga e rende, com fichas absolutamente iguais de época para época: os mesmos jogos, os mesmos golos e também os mesmos cartões. Nos últimos quatro campeonatos, sempre 5 cartões amarelos em cada um – impressionante! Mas os ponteiros estão a avançar muito depressa na época em curso, ao chegar ao fim da 1.ª volta já com quatro cartões amarelos. É um exemplo claro de que algo mudou.

FERNANDO NÃO CONSEGUE SUSTENTAR A LEVEZA

Também o brasileiro Fernando, admirado pela leveza do seu jogo marca-passos, já viu tantos cartões amarelos como em toda a época anterior e ainda foi expulso duas vezes, na Liga e na Champions. A este nível, Fernando assemelha-se agora com o antecessor, Paulo Assunção, que recorria mais à falta (19 amarelos nos últimos dois anos no clube), mas perdendo eficácia e fluência. Não é apenas tecnicamente, no controlo do jogo, que ele está longe da época transacta.

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