Barra Cofina

Correio da Manhã

Desporto
6

Recurso ao mercado externo será excepção

Abrantes Mendes, candidato à presidência do Sporting, traça ao CM as linhas mestras de um projecto que acredita vai vencer as eleições dia 28. Sem papas na língua, defende ideias e convicções que quer promover no clube, sempre com Soares Franco debaixo de mira. E o juiz reitera a viabilidade da renegociação dos contratos com a Banca.
25 de Abril de 2006 às 00:00
Recurso ao mercado externo será excepção
Recurso ao mercado externo será excepção FOTO: Tiago Sousa Dias
Correio da Manhã – O que o levou a candidatar-se?
Abrantes Mendes – Acima de tudo o facto de ter consciência de que o Sporting está péssimo e necessita de alterar o seu rumo. Sou um sportinguista de grandes tradições e um anticonformista e não tenho qualquer dúvida de que este é um daqueles momentos em que é preciso agir.
– Quais as diferenças relativamente às outras candidaturas, particularmente à de Soares Franco?
– Divergimos em tudo. Ao contrário dele, eu entendo que o património do Sporting tem de ser preservado de modo a que possa rentabilizar-se no futuro. Também a questão da mística e da alma nos diferencia. O Sporting tem de ser devolvido aos sportinguistas. Já Soares Franco representa a tradição e a continuidade de uma determinada dinastia que ao longo de dez anos, como agora se comprova pelos acordos que estabeleceu, lançou o clube numa situação catastrófica.
– Soares Franco tem o apoio da Banca, ou de parte dela. Que apoios tem a este nível?
– ... Soares Franco não tem apoios nenhuns. O que acontece é que fez acordos com a Banca e agora quer vender património em função desses acordos aos quais está preso. Já a minha proposta é no sentido de renegociar com os parceiros do Sporting, mas sempre com o intuito de honrar os compromissos. Porque, e sejamos claros, a verdade é que o Sporting, hoje, não está em condições de cumprir o acordado com os seus credores. E não é a venda de património, que Soares Franco preconiza, a solução, uma vez que esta apenas serviria para abater no passivo 13,17%.
– E os seus apoios?
– O único apoio que importa revelar, e que está assegurado, são os 20 milhões de euros que vamos ter à disposição para assegurar a gestão corrente do clube. E aproveito para reiterar: estejam descansados porque esse dinheiro existe. O segredo do nosso programa está na renegociação do ‘project finance’, alargando o prazo de pagamento a 20 ou 30 anos. Tivemos a preocupação de expor ao BCP a nossa ideia em relação ao serviço da dívida, em termos de projecto, metodologias, onde apenas sob um ponto de vista concreto se falou no alargamento do prazo da dívida. E foi bem compreendido. É óbvio que não entrámos em detalhes que apenas serão discutidos após as eleições, em caso de vitória. Por outro lado, existem boas bases para rentabilizar devidamente os terrenos à volta de Alvalade. Tenho elementos por parte dos meus especialistas que me permitem iniciar mais tarde conversações com a MDC.
– E acredita que os bancos estão disponíveis para ceder?
– ... Ainda há pouco tempo Eduardo Catroga me disse que é indispensável o Sporting renegociar. E, já agora, convém lembrar que os bancos não têm interesse em ficar com estádios e relvados.
– Já falou com Dias da Cunha e Luís Duque, figuras importantes que ainda não apoiaram ninguém?
– Tive contactos com ambos. Com Dias da Cunha para ser esclarecido relativamente a uma questão e não enjeito ter novas conversas com ambos. Não enjeito apoios, mas as pessoas têm de aderir de livre vontade.
– Diz que conta com Paulo Bento. Tem alternativa se ele quiser sair?
– Não, e nem coloco a hipótese de ele querer sair. Conto com ele.
– Face à crise, como pensa investir na equipa de futebol?
– Investimentos é algo de que não se pode abdicar, mas, para já, o principal é reorganizar a SAD, torná-la operacional e organizada, com o núcleo central na formação e a inclusão da equipa B. O recurso ao mercado externo será excepção, uma vez que a regra será recorrer à cantera. Mas garanto que a equipa será muito competitiva.
– Admite, face à falta de liquidez, vender alguma jóia do plantel?
– Não, não e não. Só se for um negócio de números astronómicos.
– As críticas do Sporting à arbitragem voltaram à ordem do dia. Que análise faz à situação?
– É verdade que o Sporting vem sendo largamente prejudicado, mas isso apenas acontece porque não têm tido o cuidado de se fazer representar ao mais alto nível do futebol nacional. Não para ser favorecido, apenas para não ser prejudicado. E isso paga-se...
'QUERO 150 IML SÓCIOS NO SPORTING'
“Quero chegar aos 150 mil sócios e isso é possível. Basta aproximar o clube dos adeptos”, sustenta o candidato, preparado para colocar em prática várias ideias. “Vou implementar o voto por correspondência e quero recuperar os sócios antigos. Já tivemos acesso a estudos para angariar novos associados nos mais diversos segmentos. Admito também a criação de uma quota familiar no sentido de responder a necessidades do mercado. Mas há mais: é fundamental o envolvimento dos núcleos. Por isso pretendemos deslocar as amadoras a todo o País. É claro que isso implica gastos, mas também há retorno”, garante, com as ideias a fervilharem na cabeça: “Outra iniciativa a efectivar é levar de Alvalade à Academia autocarros com sócios para estes assistirem aos jogos da formação. Todos ganham com isso”, avança.
'OS COBRADORES CALUNIARAM ISABEL T. MIRA'
“Há um conjunto de pessoas que se passeiam pelos corredores do poder que, para além da falta educação cívica, são defensores dos sentimentos mais vis e torpes que podem existir no género humano. Normalmente escondem-se atrás do boato e nunca dão a cara porque são cobardes. Desafio-os a lançarem boatos sobre a minha pessoa e não atingirem alguém que tanto deu ao Sporting”. Abrantes Mendes assume assim a defesa de Isabel Trigo Mira, a sua ‘vice’ que, no Sporting-Naval, passou um mau bocado em Alvalade, chegando a chorar devido a calúnias colocadas a circular.
'MOSTREM-ME OS VENCIMENTOS'
“Há algum tempo que no futebol do Sporting surgem casos pouco claros. Sei de um jogador que custou 90 mil contos mas chegou por 900 mil. É também por isso que vou fazer uma auditoria”, explica o juiz, antes de explicar porque mudou de opinião relativamente a Soares Franco: “Apenas porque faltou à palavra de honra. Mas volto a insistir num desafio simples: que não tenha medo e venha aos debates”. Ao ataque, Mendes não poupa nas farpas. “Mostrem-me e aos sócios não só os recibos dos vencimentos de dirigentes como Rui Meireles mas também os recibos verdes e outras mordomias... os cartões de crédito”, diz, antes de reconhecer que “ a recuperação financeira passa pelo emagrecimento empresarial. Não faz sentido tão grande número de empresas. Só isso envolve redução de custos na ordem de meio milhão de euros”, atira o candidato.
PERFIL
Abrantes Mendes, juiz desembargador, é casado e pai de dois filhos - Marta, 27 anos, e Pedro, 23. É sócio do Sporting desde o berço: “Quando nasci o meu pai estava em Ourém a orientar a equipa de juniores do Sporting. E chegou a vender bens pessoais para suprir insuficiências de tesouraria no futebol juvenil”, diz com vaidade o juiz que ‘ama’ R & B, Stones e é fã de Woody Allen are Almodóvar.
Na literatura, elege Gabriel Garcia Marquez ou Munoz Molina, entre outros... Eça de Queiroz é outra paixão.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)