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Correio da Manhã

Desporto
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Rinaudo: Um rico vagabundo

Internacional argentino é sinónimo de agressividade e disciplina táctica
6 de Agosto de 2011 às 00:00
Rinaudo: Um rico vagabundo
Rinaudo: Um rico vagabundo FOTO: Pedro Simões/Record

No dia de apresentação aos jornalistas, Carlos Freitas disse uma frase que está para ficar: "Rinaudo vai cair no goto dos sportinguistas."

Não foi preciso muito tempo para o internacional argentino – que até já foi elogiado por Diego Maradona – confirmar as credenciais de trinco cheio de tenacidade e ímpeto nas disputas de bola. Mas Rinaudo tem sido bem mais do que isso. É uma espécie de vagabundo do meio campo, que percorre todas as áreas do terreno e que se constituiu como uma pedra preciosa no xadrez de Domingos. Um cadeado de alta segurança que dá contributo decisivo para equilibrar a equipa, libertando as unidades mais criativas. Com um pulmão inesgo-tável e enorme capacidade de ‘pressing’, é um jogador que representa o protótipo do médio de confiança de Domingos. Chega a ser asfixiante a forma como vai atrás dos adversários, recuperando muitas bolas com uma das suas especialidades, o ‘tackle’, ou ‘carrinho’.

Numa época em que o Sporting fez uma revolução no meio campo, dispensando os jogadores que supostamento teriam de travar as transições dos adversários (Zapater, Pedro Mendes e Maniche), Rinaudo parece fazer o trabalho de três, pela impetuosidade e alta voltagem.

A presença do argentino confunde-se com omnipresença (deixa a sensação de estar em todo o lado) e, pelos primeiros indícios, relegou André Santos para o banco de suplentes.

Da capacidade de resistência de Rinaudo a uma época desgastante (não teve férias, por ter estado envolvido na luta pela manutenção com o Gimnasia de la Plata, em que não foi bem sucedido) dependerá e muito o sucesso do Sporting, visto que no plantel há muitas unidades criativas e que gostam de ter bola, mas com pouca propensão para correrem atrás dela (Aguiar, Matías Fernández e Izmailov).

Fabian Rinaudo é um jogador que personifica a garra do leão, num ano em que há reduzida margem de tolerância ao erro, após duas temporadas de claro insucesso em Alvalade (o director desportivo Carlos Freitas disse que a época passada dos leões é "irrepetível"). Rinaudo é um jogador de rotações muito altas que arrisca muito nos roubos de bola mas que se arrisca ainda mais a ser ídolo em Alvalade. Para já, é comparado ao também argentino Duscher, campeão em 1999/2000.

PONTOS FORTES

IMPETUOSO– Disputa cada bola como se fosse a última da vida. Fá-lo nos limites mas com lealdade. É muito eficaz a roubar bolas.

SEGURANÇA– Entrega as bolas jogáveis, não complica e torna lineares as saídas para o ataque dos leões.

DISCIPLINA– Tacticamente, desdobra-se muito bem no apoio aos companheiros, compensando o balanceamento ofensivo dos colegas.

PONTOS FRACOS

FALTOSO – A agressividade leva-o a ultrapassar limites e tornar-se demasiado faltoso, o que lhe pode custar cartões.

ESTATURA – É um jogador baixo (1,75m) e não deve acrescentar muito à equipa no futebol aéreo, uma das lacunas dos leões na última época.

CONTENÇÃO – Definiu-se como um trinco clássico e a verdade é que aparece muito pouco em terrenos ofensivos e zonas de finalização.

EQUIPA

MUITAS SOLUÇÕES PARA DOIS SISTEMAS

 Domingos é apologista de um sistema com dois extremos bem abertos nos flancos e dois pontas-de-lança, o que vai obrigar os dois médios-centros a grande desgaste (Rinaudo e Schaars como primeiras opções e André Santos numa segunda linha).

O Sporting apostou em flanqueadores, com as aquisições de Carrillo, Capel e Jeffrén. Renomada escola de extremos, o Sporting não teve em casa produtos para preencher essa lacuna no plantel e não contratou um único jogador português. Izmailov, Bojinov e Yannick também jogam nas alas mas têm maior tendência para flectirem no meio, o que dá maior elasticidade táctica aos leões, para também poderem aproveitar um sistema com três médios e três avançados mas com apenas um homem de área.

Certo será o cuidado com a cobertura defensiva, que ficará a cargo de Rinaudo e Schaars. Será curioso ver como se adapta sobretudo Matías Fernández, jogador com pouca tendência para recuperar bolas e para ajudar em tarefas mais defensivas. Na defesa, houve o cuidado de dar centímetros com a aquisição de Onyewu, que, no entanto, acusa falta de ritmo competitivo: oito jogos em duas épocas.

TREINADOR

DOMINGOS PACIÊNCIA

O D. SEBASTIÃO DE ALVALADE

Domingos chegou a Alvalade rodeado de grandes expectativas mas tem sobre os ombros um fardo muito pesado: fazer esquecer a sócios e adeptos duas épocas frustrantes em Alvalade, sem qualquer conquista, apenas um quarto e um terceiro lugares na Liga.

De apelido Paciência, Domingos sabe que esse predicado não impera nos sportinguistas e tentou já refrear excessivos optimismos. Lembrou que tem jogadores mas que lhe falta uma equipa. Nomeadamente, problemas na defesa, como a derrota caseira com o Valência (0-3) comprovou.

Será isso, a ‘falta de equipa’, o principal ‘handicap’ relativamente aos rivais. O Sporting está a construir os alicerces; Benfica e FC Porto têm as estruturas mais consolidadas e núcleos-duros mais fortes do que os leões, que contrataram jogadores para quase todas as posições do terreno de jogo.

Disciplinador, Domingos faz da organização defensiva um dos grandes trunfos. Pouco propenso ao espectáculo, é um pragmático que preferirá sempre jogar mal e ganhar por 1-0 a fazer uma grande exibição e empatar. Lembre-se o que se passou na época passada pelo Sp. Braga no terreno do Nacional, quando a sua equipa dominou o jogo, esteve a ganhar por 1-0 até aos descontos e ‘deixou-se empatar’.

Mas Domingos chega a Alvalade com grande crédito, embora também ele tenha a sua prova de fogo. Está num clube obrigado a ganhar e teve à disposição praticamente todos os recursos por ele solicitados.

Esta espécie de ‘factura’ pode ter cobrança se a bola bater na barra e não entrar, mas Domingos é um treinador ávido de títulos e capaz de grande comunhão com os adeptos. Chegou a ser cobiçado pelo FC Porto após a saída de Villas-Boas mas manteve-se fiel ao Sporting, a quem tinha dado a palavra em Março.

OPINIÃO- Reeditar o passado

Luís Duque e Carlos Freitas são as molas impulsionadoras de um passado que se quer futuro em Alvalade. Em 1999/2000, a dupla de dirigentes contribuiu para que o Sporting interrompesse um jejum de 18 anos sem títulos. Agora, e sob a ‘bênção’ de Godinho Lopes, os dois dirigentes voltam a unir esforços para reconstruir um Sporting campeão. Os leões entram na nova época com um investimento nunca visto: Godinho Lopes prometeu 100 milhões de euros. Duque deu a vassourada no plantel: saíram 16 jogadores e Freitas arquitectou um plano assente em Domingos, com quem foi vice--campeão em 2009/10. Resta saber se podem ser felizes duas vezes.

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