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Correio da Manhã

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“Ronaldo é um atleta por excelência"

Recuperador de personalidades como o internacional português ou José Sócrates, o fisioterapeuta António Gaspar falou ao Correio Sport da relação firme que tem com a estrela do Real Madrid.
16 de Janeiro de 2010 às 00:00
António Gaspar
António Gaspar FOTO: João Cortesão

Correio Sport – Muitos jogadores_fazem_a_recuperação consigo, à revelia dos clubes. Como aborda esses casos?

 

António Gaspar - É evidente que, quando um atleta que é figura pública me procura no âmbito de certa confidencialidade e me pede uma opinião, eu respeito-o e tenho de atendê-lo. Quando a situação ultrapassa certos procedimentos e exige uma acção directa da minha parte, tento fazer com que esse tratamento seja feito a nível oficial, respeitando a ética. Nesses caos, faço tudo para que haja trabalho de equipa.

 

- Mexe consigo ter tantos nomes sonantes entre os seus clientes,_casos_de_Cristiano Ronaldo ou José Sócrates?

 

- É motivo de orgulho ver que quase todos os nossos atletas no estrangeiro têm procurado os nossos serviços. Ronaldo fez a recuperação connosco após a operação a que foi sujeito quando estava no Manchester United – e agora Pepe esteve aqui até regressar a Espanha.

 

- A presença de Pepe na Fisiogaspar é sinal de que está tudo bem entre si e o Real Madrid?

 

- Nunca tive problemas com o Real Madrid. Houve uma situação que às vezes acontece entre as grandes instituições, como são o Real Madrid e a FPF, mas houve muita especulação. Posso dizer-lhe, por exemplo, que os testes médicos de Cristiano Ronaldo foram feitos neste espaço quando ele ia assinar pelo Real.

 

- É o fisioterapeuta de confiança de Ronaldo?

 

- É difícil responder, mas é um facto que me escolheu a mim para fazer a recuperação quando foi operado. Contudo, no Real Madrid há grandes fisioterapeutas, que são da sua confiança.

 

- É verdade que o Real não quer que Ronaldo volte a recuperar de lesões em Portugal?...

 

- Quando um atleta pertence a determinado clube é difícil fazê-lo deslocar-se a outros locais. Os ‘grandes’ têm os seus próprios meios e, por norma, gostam que o atleta se trate no próprio clube. Mas, repito, fala-se demasiado. Às vezes, as pessoas falam de assuntos que desconhecem.

 

– Ronaldo é mesmo um super-atleta por excelência?

 

- Não é o único, mas pela sua qualidade futebolística é o super-atleta, por excelência, do momento. A grande mensagem que o Cristiano tem passado é que o seu talento só dá frutos porque trabalha muito. Se não fosse assim não seria o ‘nosso’ Cristiano Ronaldo. Ele é um exemplo a seguir como poucos. Quando se trabalha com ele há que saber travá-lo, senão não pára. Há que conhecê-lo bem e saber explicar-lhe isso, pois quer sempre mais e melhor.

 

- Como viveram a polémica à volta da lesão no tornozelo direito?

 

- Como profissional, tento que o atleta esteja bem. Não adianta tratá-lo se não estiver bem psicologicamente. Há que fazer tudo para que prevaleça o bom senso.

 

- Aconselhou-o a não ler as notícias dos jornais?

 

- Sim. Não é fácil, mas às vezes há que mentalizar o jogador, para não ligar a coisas que não têm a ver com ele directamente.

 

- Sentiu-se atingido quando questionaram a condição física de Ronaldo no jogo com a Hungria (3-0), em que saiu lesionado ainda na 1ª parte?

 

- Nesse processo, nada do que se disse aconteceu.

 

- Portugal está no Mundial – mas o grupo sofreu muito...

 

- Sim, mas quando se sofre e depois o objectivo é alcançado ganha-se outro tipo de energia. As coisas não foram  assim tão lineares mas assim tem outro sabor. O seleccionador [Carlos Queiroz] geriu muito bem a situação.

 

- Depois do jogo decisivo na Bósnia, deixaram entretanto os festejos no balneário a cargo dos jogadores?...

 

-  Todos fazemos parte do grupo. Todos festejámos esse sucesso.

 

- Perante um Mundial, há jogadores que manifestam receio de se lesionar e falhar _o evento?

 

- É evidente que estar num Mundial é uma oportunidade única. Há receios, embora também estejam conscientes de que esse risco existe.

 

- Mantorras está no CAN. Tendo sido o primeiro a tratá-lo, pensa que a sua recuperação podia ter corrido melhor?

 

- É difícil dizer. Há situações que evoluem para determinado tipo de complicações. Por princípio, não quero falar disso, mas penso que se podia ter feito melhor.

 

- Depois do Benfica, voltaria a trabalhar num clube?

 

- Já tive propostas, até do estrangeiro, mas não sinto saudades. _Tenho a Selecção, aquilo que qualquer profissional ambiciona. Trabalho com os melhores e, nos últimos dez anos, estive em Europeus e Mundiais, só me falta ganhar uma dessas competições.

 

- Leu o livro de Fernando Mendes sobre o doping no futebol?

- Pessoalmente, nunca vi nada de doping em 20 anos de alta competição. Mas houve avanço tecnológico, educação diferente, e penso haver hoje outro suporte.

- Há pouco mais de um ano, investiu num espaço de grande dimensão. Efectivamente, sente-se recompensado?

 

- Eu diria que o projecto ultrapassa o espaço. O primeiro ano foi de crescimento, de envolvência com o exterior, clubes, empresas e a sociedade em geral. Este projecto é um bebé que ainda não anda bem mas estamos a acertar o passo com algo que está a crescer. Esperamos fazer este acerto em 2010, para que o projecto seja cada vez mais estável.

 

- Este projecto foi apresentado como um conceito diferente do que existe no país. Porquê?

 

- É um espaço de lazer, saúde e bem-estar. Além da perspectiva clínica, tem algo mais, como o relaxamento no spa. O atleta pode descontrair-se sem uma terapia específica. Às vezes, basta um dia no spa, na companhia da mulher ou outro familiar. Isto sem deixar de ser tratado. Tanto para o atleta de alta competição como para o cidadão comum.

 

CR9 É O CLIENTE MAIS MEDIÁTICO

Cristiano Ronaldo é o cliente mais famoso de António Gaspar. A amizade entre os dois consolidou-se quando o fisioterapeuta recuperou a estrela do Real Madrid, _sujeito a operação ao tornozelo direito em Julho de 2008. 

PERFIL

 

António Gaspar nasceu a 4 de Janeiro de 1963 (47 anos), em Foz do Ribeiro (distrito de Coimbra), e concluiu a  licenciatura em Fisioterapia em 1985. Quatro anos mais tarde foi convidado a integrar a equipa médica do Benfica, onde se manteve até 2003. O ingresso na selecção nacional ocorreu em 2000, data a partir da qual passou a tratar lesões de estrelas como Luís Figo ou Cristiano Ronaldo. Também o primeiro-ministro José Sócrates está entre os clientes  mais mediáticos.

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