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Correio da Manhã

Desporto
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“Saída de Paulo Bento não resolve problemas”

Octávio Machado diz que a mudança de treinador poderá ser um grande erro do clube. E garante que, com as mesmas armas, ninguém conseguirá fazer melhor do que Paulo Bento.
7 de Novembro de 2009 às 00:00
Octávio Machado é contra a mudança de treinador no Sporting
Octávio Machado
Octávio Machado é contra a mudança de treinador no Sporting
Octávio Machado
Octávio Machado é contra a mudança de treinador no Sporting
Octávio Machado

Correio Sport – Como vê a saída de Paulo Bento do Sporting?

Octávio Machado – Há situações na vida que mexem com questões como a dignidade e que não deixam outra saída. O Paulo Bento acabou por fazer aquilo que alguns desejavam que acontecesse...

– ... quem?

–  Está bom de ver que seria muito inconveniente alguém  tomar a atitude de o mandar embora, depois de tudo o que ele fez no clube.

 

–  Era inevitável  esta situação?

 

– Paulo Bento saiu porque sentiu que já não estavam reunidas as condições mínimas para continuar. Isto só revela a sua grandeza. No futebol não se olha à competência, apenas aos resultados.

 

– É contra a mudança do actual treinador?

 

– Claro que sim. A saída do Paulo Bento poderá ser um grande erro. Com as mesmas armas que lhe deram, não vejo ninguém capaz de levar o Sporting seja lá aonde for. Experiências anteriores mostram que a mudança nada acrescenta de positivo.

 

– E agora, que Sporting sem Paulo Bento?

 

– Temos de esperar. Mas estou certo de que a saída de Paulo Bento  não resolve os problemas estruturais do Sporting.

– Como observa o momento de crise do Sporting?

– Com tristeza e apreensão. Primeiro, porque um Sporting forte faz falta ao futebol nacional. Depois, porque a falta de resultados mete em causa uma série de pessoas que primam pela honestidade, a competência e também o bom carácter.

 

– Está a falar de Paulo Bento?

 

– Do Paulo, do Pedro Barbosa, muita gente na direcção.

 

– Os maus resultados são aselhice ou falta de sorte?

 

– No futebol, por vezes trabalha-se mal e ganha-se. Aqui há trabalho árduo e muita motivação por parte do treinador, mas as coisas não correm como ele esperava. É verdade que, em termos exibicionais, o Sporting tem pecado. Em dois ou três jogos. Mas também foi prejudicado pelos árbitros.

 

– E isso justifica o sétimo lugar?

 

– É limitativo, eu sei. É evidente que é preciso acrescentar mais em termos de solidariedade da equipa. Os jogadores têm de ser mais corajosos, têm de arriscar mais. Alguns começam a esconder-se; nota-se pela maneira como tocam na bola. Andam a enrolar, a fugir às responsabilidades. É preciso perguntar no balneário quem quer estar no grupo a 100 por cento. Quem não quiser que saia em Janeiro.

 

– Como é que se passa uma mensagem dessas?

 

– Muitos jogadores não têm estrutura psicológica para suportar dificuldades e críticas. É preciso um grande safanão. O Sporting não é um clube de eventos sociais, como algumas pessoas tentam fazer crer. É um clube que contrata jogadores para darem rendimento a alto nível.

 

– Como assim?

 

– Os jogadores têm de viver a sua profissão e não outra. Têm de perceber que estão ali para jogar e dar rendimento, nada mais.

 

– É recado para algum jogador?

 

– Não. É para o grupo. Dentro do grupo é preciso dar um grito.

 

– O capitão [João Moutinho] pode dar esse grito?

 

– Não sei. Na minha altura havia grandes vozes de comando. O Marco Aurélio, o Oceano, o Pedro Barbosa, o Iordanov. Era gente com muita influência, símbolos de resistência e carregadores da mística leonina.

 

– Como é que se cala os adeptos quando pedem a cabeça do treinador?

 

– Os adeptos movem-se por simpatias e calam-se com bons resultados.  O problema do Paulo Bento foi ter a imagem completamente desgastada de tanto se colocar na linha da frente quando houve confusão. Sei bem o que isso é.

 

– Está a apontar o dedo à estrutura do Sporting?

 

– Não estou a apontar nada a ninguém. Estou a dizer que os adeptos se atiraram ao treinador porque só ele aparecia na praça pública _a fazer o trabalho que outros lá dentro poderiam fazer. Não é fácil treinar, representar o clube, resolver problemas disciplinares, dar a cara em tudo. 

 

– Devia  ter-se exposto  menos?

 

– Devia. O Paulo é sério e competente. Gosto particularmente dele por não ser dependente dos jogos dos empresários. Se fosse como outros treinadores, se calhar teria vida mais fácil.

 

– Por que motivo?

 

– Porque os empresários facilitam _a vida a quem faz ‘forcings’ para contratar jogadores. Quem se encontra fora dos grandes esquemas _é um alvo a abater.

 

– O Sporting vai ser capaz de se bater de igual para igual com Benfica  e FC Porto?

 

– Em relação ao título, penso mais em Benfica, FC Porto e Braga.

– O Braga surpreendeu-o?

 

– Tem um plantel homogéneo e seguem dois valores importantes: a solidariedade e a amizade. Depois, tem um treinador com uma escola extraordinária. O Domingos é criativo, imaginativo, frio. E passa isso aos jogadores. O Braga pode levar vantagem na luta pelo título, porque não tem o desgaste das competições europeias.

– Treinou o Domingos. Já se via que ia dar treinador?

 

– Conheci-o aos 18 anos. O FC Porto esteve para o mandar embora por ter convidado determinadas pessoas para a  inauguração de um café. Fui eu que impedi. Alegra-me saber que um dia vai treinar o FC Porto. Ele, cheio de valores, e não o outro que o Pinto da Costa queria. O que batia e dava pau na bola mas só tinha minhocas na cabeça.

– Fala de Jorge Costa?

 

– Sim.

 

– Que opinião tem sobre o FC Porto desta época?

 

– O Jesualdo tem a vantagem de trabalhar num clube com estabilidade. E as coisas vão andando. Se calhar com mais dificuldades que em anos anteriores, mas andam.

 

– E Jorge Jesus?

– Faz-me impressão a forma como o tentam morder. Até voltaram as estórias dos túneis. Metem-no debaixo dos holofotes, passou a ser alvo. O Jesus subiu a pulso para chegar aonde chegou e está a fazer um trabalho brilhante. Somos amigos, sempre lhe reconheci qualidades. Este Benfica é a cara dele.

 

SOBRE JORGE JESUS

 

“Faz-me impressão a forma como o tentam morder. Até voltaram as estórias dos túneis. É um alvo”

 

PERFIL

 

OCTÁVIO MACHADO nasceu em Setúbal, a 6 de Maio de 1949. Depois de muitos anos ligado ao futebol, como jogador e treinador, divide o tempo entre a agricultura e a política – falhou a reeleição para vereador da Câmara de Palmela, nas listas do PSD/PP. Foi adjunto no FC Porto de 1984 a 1993 e treinou o Sporting  de 1995 a 1997. Em 2001/02 regressou ao Dragão mas saiu _a meio por divergências com Pinto da Costa. Não voltou a treinar e escreveu um livro para denunciar o “sistema”.

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