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Correio da Manhã

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Sei que podia ter ganho no Benfica

O Sporting de Braga começou comedido nos objectivos, mas agora o técnico considera que ficar abaixo do quarto lugar seria uma decepção. Jesualdo Ferreira considera que a grande diferença deste campeonato em relação aos anteriores é a produção do FC Porto, que vive uma crise de identidade. O tempo passado na Luz também não foi esquecido
19 de Março de 2005 às 00:00
Correio da Manhã – O Sp. Braga já está a lutar pelo acesso à Liga dos Campeões?
Jesualdo Ferreira – O Sp. Braga partiu com o objectivo de garantir um lugar na Taça UEFA. Para atingir a Liga dos Campeões seria preciso ficar em terceiro lugar, e isso é difícil. Mas também considero que ficar abaixo do quarto lugar seria uma decepção. Temos no Sp. Braga uma política de ambição, que assumo com todo o risco pessoal que isso me traz.
– Reconhece que tem um calendário favorável?
– Teoricamente é possível que seja mais acessível. Mas só teoricamente, porque, nesta fase, não há jogos fáceis. Por outro lado, todas as equipas que têm estádios novos sentem mais dificuldades porque tiveram de se habituar a novos hábitos e rotinas. Por isso, o factor casa não está a ser determinante neste campeonato.
– Como define este campeonato?
– Fala-se muito de nivelamento por baixo, mas o ponto é outro. A grande diferença deste campeonato chama-se FC Porto. Na época passada, o Sp. Braga terminou a primeira volta com 33 pontos e o Benfica com 34, ocupando os 4.º e os 3.º lugares, respectivamente. A diferença é que o FC Porto levava já 12 ou 13 pontos de avanço sobre o Benfica e o Sporting. É verdade que as equipas médias estão mais próximas das grandes, por causa de uma melhoria na qualidade do trabalho e do mercado. Quando os grandes clubes perdem poder de compra, a qualidade dos seus jogadores baixa. E isso hoje é notório.
– No FC Porto?
– O FC Porto vive uma crise de identidade. Encerrou um ciclo de vitórias e de líderes. E, com todo o respeito, continua à procura de um modelo.
– Couceiro fez bem ao aceitar o convite nestas circunstâncias?
– Foi um convite irrecusável. Qualquer treinador o teria aceite.
– O que se passa com o Sporting?
– Tem excelentes jogadores e boa organização, mas não conseguiu estabilizar a equipa. Ou o consegue rapidamente ou o Benfica pode ganhar o título.
– E o Benfica merece?
– O Benfica foi capaz de manter alguns jogadores mais tempo do que era normal. Não tem uma equipa de encher o olho mas tem uma estrutura mais sólida. E vai à frente, com tudo o que isso significa. Até o País é diferente quando o Benfica vai na frente. É uma realidade.
– A começar por Braga...
– Sim, aqui quase toda a gente é do Benfica. Nós conseguimos inverter a situação e no Sp. Braga-Benfica o estádio estava dividido a meio. Foi uma proeza.
– Podia ter feito mais no Benfica?
– Com tempo e confiança, podia ter ganho no Benfica. Em segundo lugar, ficava seguramente. Mas não senti essa confiança, fundamental para chegar ao sucesso. Por isso, fiz o que pude.
– Gostava de regressar um dia?
– Já estive quatro vezes no Benfica, já cumpri lá dentro todos os papéis e ajudei, com Toni, a ganhar títulos. Não me parece que possa lá fazer mais alguma coisa.
– Trapattoni pode marcar o Benfica?
– O que se passa com Trapattoni mete-me alguma aflição. Em Portugal costuma ser hábito considerar que só é bom o que vem de fora. E com ele, e apesar do enorme currículo, não tem sido assim. É estranho.
– Porquê?
– Mourinho, Carlos Queiroz, Toni e eu, em França, sentimos a Imprensa negativa pelo facto de sermos estrangeiros. Em Portugal é o contrário. Com provas ou sem provas dadas, é estrangeiro, é bom. Só conheço um treinador que chegou a Portugal sem grande currículo e deixou uma grande obra – foi Eriksson. Esse é o critério pelo qual se devem julgar os treinadores. Mas em como em Portugal não é assim, estranho o que se diz de Trapattoni.
– Está a dizer que Camacho teve boa Imprensa e Trapattoni tem má Imprensa.
– Não quero pessoalizar.
– Ter trabalhado muito tempo no Benfica prejudicou-o?
– É possível. Hoje, o treinador é para treinar e depois existem estruturas de enquadramento. Mas nem sempre foi assim, e épocas houve em que o treinador tinha de assumir posturas que o desgastavam e fechavam portas. Não gosto de conflitos mas também não tenho medo deles, porque tenho convicções.
NUNCA PUDE ESCOLHER
Jesualdo Ferreira, sobre a sua carreira: “Olhando para trás sei que não cheguei, minimamente, até onde poderia chegar. Porque os tempos eram outros e porque não tive a argúcia para conseguir um estatuto melhor. Nunca tive hipóteses de escolher e vivi um tempo muito complicado”. E mais: “Vivi sob o estigma de nunca ter jogado futebol, de ser professor de Educação Física, numa altura em que o treino científico era mal aceite. A Imprensa não me ajudou, talvez porque não tenha ajudado a Imprensa. Não sou uma pessoa de grandes discursos nem conflitos. talvez por isso não tenha chegado mais longe."
'POSSO FAZER MAIS'
– E depois do Braga?
– Não sei. Eu gosto, acima de tudo, do treino, mas neste momento sinto-me com capacidade para fazer muito mais. Mais cedo ou mais tarde vou reconverter a minha carreira Já fui professor universitário, já trabalhei em organismos do Estado, já fiz abordagens de que gostei muito à rádio e à televisão. O treino é o meu sangue, a minha vida, mas aquilo que está por detrás de tudo isto já me cansa. Já não tenho paciência.
– Escrever livros?
– Vou fazê-lo. Sobretudo vai ser um livro sobre treino e preparação de equipa. Com uma ou outra história pelo meio.
PERFIL
Jesualdo Ferreira tem 58 anos, três filhos e já é avô. Licenciado em Educação Física, começou a carreira de treinador em 1984, nas selecções nacionais de juvenis e júniores, onde ficou até 1980. Seguem-se dois anos no futebol juvenil do Benfica, entrando, depois no futebol profissional. Esteve dez anos no clube da Luz. Como adjunto de Toni, Jesualdo Ferreirar conquistou dois títulos de campeão nacional, uma Taça de Portugal e foi vice-campeão da Europa, em 1988. Em 2002, assume o cargo de treinador principal da equipa, a meio da época. Sai do clube na época seguinte, estava Manuel Vilarinho na presidência do Benfica. Foi substituido por Camacho.
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