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Correio da Manhã

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Serena chega ao número da sorte

A norte-americana Serena Williams fez jus ao estatuto de número um mundial e confirmou todo o seu favoritismo ao somar um quarto troféu em Wimbledon – o seu 13º título do Grand Slam. Mas não quis falar da árbitra portuguesa Mariana Alves, com quem protagonizou há seis anos um incidente que esteve na origem da adopção do sistema electrónico de arbitragem. Nadal e Berdych discutem o título masculino.
3 de Julho de 2010 às 20:29
Serena não escondeu a alegria ao somar o quatro troféu em Wimbledon
Serena não escondeu a alegria ao somar o quatro troféu em Wimbledon FOTO: EPA/Dave Thomson

O 13 é o número da sorte de Serena Williams – e, apropriadamente, o quarto troféu da norte-americana em Wimbledon constituiu o seu 13º título do Grand Slam, permitindo-lhe desempatar com a lendária Billie-Jean King e saltar para sexto lugar na lista das maiores campeãs da história da modalidade.

Também apropriadamente, Billie-Jean King estava presente para assistir ao fácil triunfo da sua compatriota sobre a russa Vera Zvonareva por 6-3 e 6-2. E foram para ela as primeiras palavras da vencedora: "Billie, ultrapassei-te!". Tratou-se de um momento simbólico, já que Billie-Jean King foi a mãe do profissionalismo do ténis feminino e uma eterna defensora das minorias – e as irmãs Williams contribuíram para que o sucesso dos afro-americanos no ténis deixasse de ser algo de exótico, tendo arrecadado nove títulos individuais nas últimas 11 edições de Wimbledon (incluindo quatro finais entre ambas e exceptuando os títulos de pares em conjunto).

"Depois de a Venus ter sido eliminada, quis fazer tudo para ganhar", salientou a número um mundial após uma vitória que se adivinhava e que se tornou numa mera formalidade a partir do momento em que, a liderar por 4-3 na primeira partida, conseguiu quebrar o serviço à adversária pela primeira vez. A partir daí, assistiu-se a uma autêntica cavalgada a solo até à celebração da vitória e a diferença de potência entre ambas chegou a ser absurda.

MELHOR SERVIDORA

Vera Zvonareva, famosa por alguns memoráveis colapsos psicológicos, surgiu compenetrada e equilibrou a contenda até meio do primeiro set. Mas, no final, os números não mentem: não conseguiu nenhum break-point para quebrar o saque à adversária – e Serena Williams nem serviu tão bem como nas rondas anteriores, mas elevando o seu total no torneio para uns impressionantes 89 ases. E nem teve possibilidades para executar muitos mais, já que em nenhuma ocasião foi forçada a jogar um terceiro set ao longo da quinzena (é o quarto título do Grand Slam nessas circunstâncias dominadoras).

A antiga campeã Martina Navratilova fez mesmo questão de afirmar que "Serena é a melhor servidora feminina de sempre". É confirmou ser uma das maiores campeões de sempre: aos 28 anos, faltam-lhe ‘apenas’ cinco títulos para igualar Martina Navratilova e Chris Evert na lista das melhores de todos os tempos – não será fácil, mas ainda poderá alcançar esse desiderato; no entanto, os 19 de Helen-Wills Moody, os 22 de Steffi Graf e os 24 de Margaret Court parecem estar demasiado distantes. Serena é uma das mais extraordinárias competidoras da história do desporto e estabeleceu novos índices de potência no circuito feminino, mas atleticamente está um pouco abaixo da sua irmã Venus e tem padecido de lesões regulares que a têm impedido de forjar um palmarés (37 títulos de singulares) e uma conta bancária (o cheque de 1,2 milhões de euros correspondente ao título eleva para cerca de 27 milhões de euros o prize-money auferido, a juntar a cachets de presença e patrocínios).

MARIANA NÃO FALOU

Depois de Jorge Dias (2001) e Carlos Ramos (2007) terem dirigido finais masculinas, Mariana Alves tornou-se no terceiro árbitro português presente numa final de singulares em Wimbledon – que foi também a primeira final de um torneio do Grand Slam por si dirigida – e recebeu um troféu do Duque de Kent, mas depois escusou-se a falar para a imprensa nacional. Talvez devido a resquícios de um episódio menos agradável na carreira da juiz-de-cadeira lisboeta de 37 anos, protagonizado juntamente com Serena Williams num encontro dos quartos-de-final do US Open de 2004 que despoletou a adopção do sistema electrónico de arbitragem nos mais importantes duelos do planeta.

Mariana Alves cometeu então vários erros de decisão que prejudicaram Serena em momentos cruciais e que facilitaram a vitória de Jennifer Capriati – tendo esses erros e a reacção virulenta de Serena sido tão escalpelizados pela televisão e pela imprensa que acabaram por acelerar o processo de implementação do Hawk-Eye (que na altura até ficou conhecido no meio por ‘Portuguese-Eye’). O tema voltou a estar em voga durante Wimbledon devido ao polémico golo anulado à Inglaterra no Mundial de Futebol, mas a mais nova das Williams não quis recordar esse velho episódio de há seis anos quando, na conferência de imprensa, um repórter americano tentou trazer a velha ‘rivalidade’ com Mariana Alves (durante algum tempo não quis ser arbitrada pela portuguesa) à baila: «Nem me falem nisso!».

ZVONAREVA AFINAL CHOROU!

Longe do protagonismo de algumas das suas compatriotas, especialmente Maria Sharapova, Vera Zvonareva é uma das mais discretas russas do circuito – mas dotada de uma excelente competência técnica e com um notável trajecto curricular que merecia reconhecimento para além da sua fama de jogadora chorona e mentalmente fraca. Foi a terceira russa a jogar a final de Wimbledon (sempre face a adversárias americanas!) e conheceu o mesmo destino da soviética Olga Morozova em 1974 diante de Chris Evert, enquanto que Maria Sharapova, em 2004, se impôs a… Serena Williams.

A carreira de altos e baixos de Vera Zvonareva é caracterizada por lesões constantes e uma fragilidade psicológica que já provocou algumas das mais embaraçosas cenas jamais vistas em competição, mas não têm impedido incursões suas pelo top 10. Chegou a Wimbledon como 21ª classificada, vai reintegrar a elite na nona posição – mas, se não verteu lágrimas na final de singulares, chorou depois durante a final de pares… que perdeu, ao lado da sua compatriota Elena Vesnina, diante da americana Vania King e da cazaque Yaroslava Shvedova!

UM CONTO DE FADAS

Mas os pares são filhos de um Deus menor. Os singulares é que centram as atenções – e mais um autoritário triunfo de um elemento da família Williams volta a realçar o autêntico conto de fadas que tem sido o trajecto desportivo das irmãs. Há cerca de 30 anos, um homem chamado Richard Williams viu pela televisão a tenista romena Virgínia Ruzici receber um cheque e decidiu: “Os meus próximos filhos serão campeões de ténis”. Nasceram Venus e Serena, treinaram no ghetto de Compton protegidas por gangs com metralhadoras e não só corresponderam aos sonhos do progenitor como ultrapassaram todas as expectativas!

O domínio das manas Williams na Catedral do Ténis é impressionante: nos singulares, desde 2000 que só uma final não contou com uma das irmãs e em apenas duas ocasiões o troféu não ficou em família – em 2004 (Serena perdeu com Maria Sharapova) e 2006 (Amélie Mauresmo bateu Justine Hénin). A edição do ano passado marcou mesmo uma quarta final cem por cento Williams em Wimbledon (e oitava no cômputo geral dos torneios do Grand Slam), com Serena a ganhar em 2002, 2003 e 2009 e Venus a impor-se em 2008.

FINAL MASCULINA

Na final masculina de domingo, também Rafael Nadal assume favoritismo diante de um estreante em derradeiros encontros de eventos do Grand Slam: Tomas Berdych, o checo a quem no passado, no torneio de Madrid de 2006, chegou a dizer: "Tu és má pessoa", apelidando-o depois de "estúpido" na conferência de imprensa.

Nessa ocasião, Berdych exasperou com nacionalismo exacerbado no apoio a Rafa e teve alguns gestos deselegantes após bater o espanhol graças ao seu ténis poderoso e profundo Desde então, espicaçado, Nadal nunca mais o deixou ganhar e inverteu uma desvantagem de 1-3 para liderar actualmente no mano-a-mano por 7-3 – ao mesmo tempo que as relações entre ambos ficavam mais cordiais…

MEIAS-FINAIS FEMININAS

· Serena Williams (EUA, cs1)-Petra Kvitova (Che), 7-6, 6-2

· Vera Zvonareva (Rus, cs21)-Tsvetana Pironkova (Bul), 3-6, 6-3, 6-2

MEIAS-FINAIS MASCULINAS

· Tomas Berdych (Che,cs12)-Novak Djokovic (Ser,cs3); 6-3, 7-6, 6-3

· Rafael Nadal (Esp,cs2)-Andy Murray (Esc,cs4); 6-4, 7-6, 6-4

FINAL FEMININA

· Serena Williams (EUA,cs1)-Vera Zvonareva (Rus,cs21), 6-3, 6-2

DOMINGO: FINAL MASCULINA

· Rafael Nadal (Esp, cs2)-Tomas Berdych (Che, cs12) MANO-A-MANO: 7-3

Enviado-especial do 'Correio da Manhã' no Twitter:
http://twitter.com/MiguelSeabra

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