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Correio da Manhã

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"Sporting é dos sócios e não é da banca"

Tomás Aires, ex-vice-presidente dos leões, diz que os responsáveis pelo actual estado do clube deviam pedir desculpa e afastar-se de Alvalade
19 de Março de 2011 às 00:00
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sporting, entrevista, tomás aires FOTO: Pedro Ferreira

Correio Sport – O que levou à situação actual do Sporting?

Tomás Aires - Em 1996, dei uma entrevista em que afirmei: "Não acredito no projecto do dr. Roquette". Que fique bem claro que nada de pessoal tenho contra José Roquette, ao contrário de muitos que o apoiaram para comerem uns croquetes. Depois da sua saída, criticaram-no e atrelaram-se ao próximo presidente, com medo de que lhes faltassem os croquetes. Alguns estão em listas dos candidatos para o Conselho Leonino.

- Mas foi criticado por não acreditar em José Roquette...

- Hoje pedem-me desculpa e dão--me razão. Os últimos anos têm sido muito maus para o Sporting mas muito bons para os fornecedores de croquetes. Entre 89 e 95, tive a honra de ter sido vice-presidente do Sporting, e até hoje não percebi porque é que sendo o Sporting, nessa altura, o clube mais poderoso, patrimonial e financeiramente, se resolveu entregar a sua gestão a José Roquette e a Pedro Santana Lopes.

- Tem falado com os candidatos à presidência do Sporting?

- Nunca recusei o diálogo com nenhum sportinguista e, por vezes, até tomei a iniciativa, para esclarecer assuntos que considero de importância relevante para o clube. Foi o que aconteceu com Godinho Lopes, a quem dei a minha opinião acerca do erro irreparável da construção do estádio naquele local. Foi o início da derrapagem financeira, que, com os erros cometidos no futebol, conduziu a um crescimento do passivo que nos tem afastado em termos desportivos dos nossos principais rivais.

- Foi Godinho Lopes que escolheu o local do novo estádio...

- Ele disse-me que não. Frisou que apenas lhe pediram para ser o responsável pela construção. No entanto, foi com satisfação que o ouvi confirmar o que eu sempre disse: foi um erro a Direcção da altura não ter seguido o projecto de ampliação, remodelação e cobertura que o Sporting tinha em curso e que poderia ter sido feito com capitais próprios.

- Patrocinou o jantar entre Dias Ferreira e Bruno de

Carvalho?

- Quem escreveu essa palavra, ‘patrocínio’, ou não sabe o significado ou quis dar-me uma importância e um estatuto que eu não tenho. Esse jantar, sem agenda pré-definida, teve apenas o objectivo de proporcionar a dois candidatos que querem o melhor para o Sporting, num ambiente mais descontraído e informal, a possibilidade de trocarem impressões e ficarem a conhecer-se melhor.

- O que lhes disse?

- Falei da minha visão sobre os graves erros de gestão cometidos na área patrimonial e fiz um alerta para que situações semelhantes de delapidação do clube não continuem a acontecer.

- Concorda com a construção de um novo pavilhão?

- Sim, desde que seja muito bem explicado aos sócios o modelo de financiamento e que não signifique qualquer agravamento do passivo. Para ganharem votos, todos os candidatos dizem que querem o pavilhão, mas nenhum deles ainda apresentou as contas. Sabe-se que a autorização para a sua construção custou 5 milhões de euros e que a obra se estima ter um custo de 12 milhões. Não cometam um erro, embora de menores dimensões, como cometeram com o estádio, de que hoje praticamente todos se arrependem.

- No jantar com Dias Ferreira e Bruno de Carvalho, falaram da hipótese de união de listas?

- A essa pergunta só os dois candidatos podem responder.

- E sobre Paulo Futre, trunfo de Dias Ferreira?

- Bruno de Carvalho já esclareceu publicamente esse assunto, ao dizer que o desentendimento entre ele e Dias Ferreira foi por causa de Paulo Futre.

- Foi desafiado a integrar alguma lista?

- Todos os candidatos com quem troquei impressões sabem que não me move, por agora, a intenção de pertencer a nenhum cargo nos órgãos sociais. Nem executivo, nem representativo. Eu até nem gosto de croquetes. Sempre que me pediram, e os actuais dirigentes sabem disso, dei o meu contributo ao Sporting, e é isso que continuarei a fazer seja quem for o presidente que os sportinguistas escolham.

- Já decidiu em que candidato vai votar?

- Já sei que não vou dar os meus 13 votos a quem tiver como destacados apoiantes, sem se demarcar desse apoio, pessoas que tenham pactuado ou tenham sido responsáveis pela situação do Sporting.

- Zeferino Boal, num debate televisivo, mostrou um gráfico com a evolução do passivo, que está perto dos 300 milhões...

- É indispensável uma auditoria de gestão no Sporting, para identificar os responsáveis e não para fazer a chamada "caça às bruxas". Esses responsáveis deviam admitir os erros, pedir desculpa e deixar o clube em paz.

- Quem são?

- Tudo começou com o denominado "projecto Roquette" – e fico-me por aqui.

- Que opinião tem de Godinho Lopes?

– É um empresário dinâmico, competente e organizado.

–Dias Ferreira...

- Sempre o conheci assim: dedicação total ao Sporting.

- Sérgio Abrantes Mendes...

- É um sportinguista dos quatro costados e meu amigo de infância.

- Bruno de Carvalho...

– Uma lufada de ar fresco. Corajoso, raciocínio claro, conhece o clube.

- Pedro Baltazar...

- É o único que não conheço pessoalmente. Para ter investido tanto dinheiro [12 milhões] na SAD, é, com certeza, um grande sportinguista. Por solicitação de um amigo, tive uma longa conversa com dois importantes elementos da lista de Pedro Baltazar em que dei a conhecer a minha visão do que foi e do que poderia ter sido a rendibilização do património do Sporting.

- Os candidatos têm apresentado alguns trunfos. Que opinião tem de Augusto Inácio?

- Foi um grande jogador. Foi e é um grande treinador. Se for eleito, espero que seja um grande dirigente.

- Paulo Futre...

- Quando pertenci à Direcção, esteve para assinar pelo Sporting e assinou pelo Benfica. Pergunto: se o Cristiano Ronaldo, como futebolista, regressar um dia a Portugal e decidir ir para o Benfica em vez do Sporting, os sócios continuarão a ver nele um símbolo do Sporting?

- Luís Duque e Carlos Freitas...

- Se Godinho Lopes for eleito, espero que tenha possibilidade de lhes proporcionar condições para que possam voltar a dar as alegrias que os sócios merecem.

- Que análise faz à campanha dos candidatos?

- Estou muito desiludido com as intervenções públicas de alguns até agora. Parece que estão mais interessados em apresentar trunfos eleitorais do que soluções para o clube. Quando debateram na SIC Notícias demonstraram um nível à Sporting que agora, infelizmente, alguns têm vindo a perder. Em suma, digam aos sócios o que é que podem fazer pelo Sporting e não o que o Sporting pode fazer por eles. E não podem esquecer que o Sporting é dos sócios e não dos bancos.

- Alguns candidatos já falaram que o Sporting gastou muito dinheiro no futebol, sem grande retorno...

- Tomei conhecimento num programa televisivo, através de Paulo Andrade, que o Sporting gastou 225 milhões de euros em jogadores e teve de retorno 50 milhões, desde 1997. Alguém desmente isto? Só em 2000/01, gastou 35 milhões e o retorno foi de 5 milhões. Em 09/10, gastaram 31 milhões e o retorno foi de 2 milhões. Os erros nesta área, somados à delapidação do património, levaram o Sporting à situação actual. O que me tem preocupado nesta fase é a maioria dos candidatos se preocuparem apenas em apresentar trunfos eleitorais, jogadores e treinadores, e não soluções credíveis que tranquilizem os sócios.

 

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PERFIL

Tomás Alberto Cardozo Aires é engenheiro civil, especializado em urbanismo. Nasceu em Lisboa no dia 31 de Julho de 1947 (63 anos). Sócio do Sporting desde 1966 (n.º 3121). Entrou para os corpos sociais dos leões em 1989, como vice-presidente com o pelouro do Património. Saiu em 1995, quando José Roquette chegou ao poder em Alvalade. Quando deixou o clube, o património do Sporting valia cerca de 16 milhões de contos (80 milhões de euros). Crítico do projecto Roquette, foi dos poucos notáveis que se atreveram a prever o descalabro financeiro, patrimonial e desportivo da instituição fundada pelo visconde de Alvalade em 1906. Desde 1996 que tem vindo a chamar a atenção da necessidade de o Sporting alterar os métodos de gestão e apostar forte na equipa de futebol.

 

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