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Correio da Manhã

Desporto

“Sporting é patinho feio dos grandes”

Antigo vice-presidente do Sporting, foi sem surpresa que Tomás Aires ouviu o prejuízo de mais de 13 milhões de euros que os leões apresentaram no exercício de 2009. Culpa a gestão de José Roquette por esse facto e também não iliba Dias da Cunha. Segundo ele, foi Filipe Soares Franco a estancar a gestão despesista dos seus antecessores
19 de Setembro de 2009 às 00:30
Tomás Aire, antigo vice-presidente do Sporting
Tomás Aire, antigo vice-presidente do Sporting FOTO: Pedro Ferreira/ Record

Correio Sport – Preocupa-o ver o Sporting com um prejuízo superior a 13 milhões de euros nas contas relativas a 2009?

Tomás Aires – Não conheço em pormenor as razões desse prejuízo, pois estou fora do Sporting; a única coisa que posso dizer, em termos genéricos, é que a situação actual resulta de um problema que não foi criado actualmente e sim de desequilíbrios resultantes de mandatos anteriores. Não é normal que o Sporting tenha sido considerado, em determinado período, como um clube com situação financeira e patrimonial equilibrada e agora seja o patinho feio dos três grandes.

– José Eduardo Bettencourt herdou uma situação difícil da anterior Direcção?

– Já tive a oportunidade de dizer, na devida altura, que a Direcção presidida por Filipe Soares Franco tentou inverter a situação de crise financeira, que chegou a pôr em causa a própria existência do clube. O ex-presidente tinha a situação controlada, na medida do possível, e só ele saberá explicar as razões por que saiu.

– Elogia a gestão de Filipe Soares Franco. Está a falar do seu antecessor, Dias da Cunha...

– Não gosto de personalizar, provavelmente Dias da Cunha fez o que entendeu ser melhor para o clube, mas quando José Roquette assumiu a presidência o Sporting tinha um passivo de 6 milhões de contos (30 milhões de euros) e quando saiu esse passivo estava perto dos 300 milhões euros. Esta forma de gastar foi, efectivamente, responsável pelos prejuízos que se seguiram. São factos auditados. Como observador, custa-me ver o Sporting ser o patinho feio dos grandes. Só Filipe Soares Franco tentou estancar este tipo de gestão. Antes, houve pessoas que andaram a promover um tipo de gestão , enquanto destruíam o clube. Ou eram burros ou directamente interessados. Como não acredito que fossem burros...

– Bettencourt afirmou que lamenta não ter arranjado jogadores e dinheiro para o clube, elogiando as contratações feitas pelo Benfica. Como interpretou essas declarações?

– Interpretei-as como declarações de alguém que tinha tomado posse há pouco tempo e não teve tempo para tomar contacto com a realidade do clube. Embora tenha sido vice-presidente no último mandato, ele estava ligado ao futebol, que é quem pede dinheiro ao clube. Como presidente, ele tem de preocupar-se com as receitas e despesas, permanentemente. É diferente.

– Admite que ele possa ter encontrado um cenário pior do que estaria à espera?

– Não acredito que alguém que fez parte do Conselho Directivo tenha sido apanhado de surpresa só porque passou de vice a presidente. Conheço Bettencourt e sei que é uma pessoa responsável e nunca se candidataria sem conhecer bem a situação. Teve uma atitude corajosa, isso sim.

– Com ele na liderança, o Sporting reforçou-se pouco, com Angulo, Matías Fernándes e Caicedo. Concorda com esta política?

– É a política possível face às circunstâncias actuais. Seria bom ter uma equipa de muitos milhões mas os sócios têm de saber que a realidade é outra. A nova Direcção reforçou a equipa dentro dos possíveis, e parece-me bem. Não se pode reforçar mais, e a equipa até reagiu bem no confronto com os italianos. Na Liga Europa também transmitiu bons sinais. A época ainda está no início.

– Paulo Bento é o treinador ideal para o Sporting?

– Paulo Bento tem sido fantástico nos últimos anos, com os recursos que tinha. Lançou muitos jovens que hoje são activos importantes do clube. Dizer se é o técnico ideal ou não é difícil, pois por vezes os clubes precisam de modificar, para dar maior vivacidade à sua equipa de futebol. Mas o erro, a existir, não é do treinador e sim da tal gestão despesista que se seguiu antes de Filipe Soares Franco chegar à presidência. Sobretudo porque foi prometida uma gestão inovadora, em que o clube não dependeria de bolas na trave e, afinal, o passivo passou de seis para 60 milhões de euros.

– A presença na Liga dos Campeões vai continuar a ser a bóia de salvação?

– É uma prova essencial. É bom os sócios perceberem que o clube está bem entregue, mas o ideal é que a presença na Champions não seja tão determinante no futuro. Mas só o doutor Bettencourt poderá responder a essa pergunta, pois sabe melhor do que ninguém a situação real do clube. Pessoalmente, acho importante o Sporting lutar por investimentos de outro nível. Na situação actual, se o Sporting não se qualificar para a próxima edição da Liga dos Campeões a situação será ainda pior. Mas, normalmente, quando alguém se candidata a determinado cargo deve ter um plano A e outro, o B.

– A formação é a imagem de marca do Sporting. Houve alguma inflexão nesse sentido?

– A aposta na formação não é recente, o Sporting tem pessoas muito competentes nessa área, como o Aurélio Pereira. A prospecção tem feito muito pelo clube e não há em Portugal, ou mesmo na Europa, nenhum clube que se assemelhe ao Sporting nessa matéria. Infelizmente, nem sempre tem vendido bem – e lembro-me do Simão, que foi vendido por 2,8 milhões de euros ao Barcelona mas depois gastou-se quantia idêntica para contratar Gimenez e Kmet, que saíram a custo zero. Não é muito agradável, isso é deitar dinheiro fora. Só com Soares Franco é que essa gestão foi invertida, e espero que seja continuada.

– Há quem afirme que bastava vender Moutinho ou Miguel Veloso para colmatar o prejuízo anunciado. Seria um bom acto de gestão?

– Com dinheiro não há milagres. Se as contas do Sporting indicassem que para não apresentar qualquer tipo de prejuízo teria que vender, fosse património imobiliário ou activo desportivo, a solução seria vender. Mas não me compete dizer se era o Miguel Veloso, João Moutinho ou outro jogador do plantel. Se não tivesse mais nada que vender, seria essa a solução.

– Muita gente crê que a gestão de conflitos no plantel, como aconteceu com o ‘caso Vukcevic’, poderá ter prejudicado o Sporting na época passada. Acredita nisso?

– Desconheço os pormenores que conduziram a essa situação de pré-ruptura e por isso não posso pronunciar-me. Paulo Bento que diga o que se passou. Mas não compreendo, por exemplo, a situação de Stojkovic. Se um jogador não faz parte dos planos do treinador, porquê mantê-lo no plantel? Acredito que não consigam vendê-lo, mas porque não o emprestam? A sua permanência representa um custo substancial. Quando não se quer um jogador, a solução é a anulação de despesas com esse atleta.

– Paulo Bento teve uma coexistência difícil com a arbitragem. Considera que o clube foi muito prejudicado?

– Teve razão em muitas circunstâncias. Foi ‘sancionado’ pela Comunicação Social. Já perdemos um título pela arbitragem – mas não se pode estar sempre a falar dos árbitros.

PERFIL

Engenheiro civil de formação, 60 anos, Tomás Aires tornou-se conhecido dos sportinguistas quando integrou a direcção leonina, entre 1989 e 1995, sendo o vice-presidente para a área do Património.

Apesar de já não fazer parte dos órgãos sociais do clube, é uma das vozes mais respeitadas. Nas últimas eleições, foi um dos notáveis que tentaram convencer Filipe Soares Franco a continuar na liderança do Sporting.

'SOARES FRANCO CONVENCEU-ME'

'Eu não era apoiante da última Direcção mas Filipe Soares Franco convenceu-me da bondade dos seus critérios. Evitou que o Sporting acabasse'.

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