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Correio da Manhã

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SPORTING NÃO ESTÁ EM CRISE FINANCEIRA

No rescaldo da demissão de José Eduardo Bettencourt da SAD leonina, o vice-presidente do Sporting faz no CM a leitura deste momento de mudança em Alvalade. Revela que não foi totalmente apanhado de surpresa pela demissão, desmente que o clube esteja a viver uma crise directiva ou financeira e assegura que o sucessor de Betten-court será escolhido por ele próprio e Dias da Cunha “em consenso”
15 de Maio de 2004 às 00:00
Correio da Manhã – Foi apanhado de surpresa pela demissão de José Bettencourt e consequente crise?
Filipe Soares Franco – Antes de mais, não há crise nenhuma. Quanto ao resto, de certa maneira, fui surpreendido. Mas compreendo. Eu também tenho família e teria feito exactamente o mesmo, depois de sofrer a pressão familiar até à exaustão. José Bettencourt transmitiu a decisão com verdade, transparência e lealdade. E há coisas que não se discutem. Tenho muita pena de o ter perdido, mas sei que a decisão é irreversível.
– A pressão familiar não deve ter começado só agora. Porque razão houve tanta surpresa?
– No meu caso não foi uma surpresa completa. Mas não sabia exactamente a altura em que ele tomaria a decisão.
– A altura não terá sido definida pelas dificuldades financeiras do Sporting e pelo facto de Bettencourt ter ficado isolado internamente quando defendeu a continuação de Fernando Santos como treinador?
– Isso é completamente falso. Primeiro, em causa não está o apoio ou a falta de apoio ao treinador. Segundo, dificuldades temos todos, mas o Sporting não está em crise financeira. Há cerca de dois anos, encetámos uma reestruturação financeira, exemplar em Portugal. Tão exemplar que conseguimos, pela primeira vez, resultados líquidos positivos no primeiro semestre deste ano. O Sporting encontrou o caminho certo em conjunto com os seus parceiros financeiros. Portanto, as questões financeiras não são problema, ao contrário do que se diz e escreve.
– O afastamento da Liga dos Campeões não comprometeu essa tal estabilidade financeira?
– Nem pensar. O plano de reestruturação interna que o Sporting está a cumprir e vai continuar a cumprir assenta no equilíbrio entre as receitas e as despesas. O Sporting conseguiu inverter o problema. Não conheço nenhuma empresa – em Portugal, na Europa ou no Mundo – que consiga a façanha de perder dinheiro todos os anos. E o futebol é uma actividade como outra qualquer.
– O afastamento da Liga dos Campeões comprometeu ou não a estabilidade financeira?
– A probabilidade de uma equipa portuguesa chegar à final dessa liga – e não me fale no FC Porto – é de 10 por cento em cinco anos. Se fizer uma carreira razoável na prova poderá ter uma receita máxima de 10 milhões de euros. Ora, o Sporting poupa internamente mais do que esse valor todas as épocas. De resto, a reestruturação do Sporting não foi feita na equação Liga dos Campeões.
– Mas admite que sem esse dinheiro é mais difícil renovar, com qualidade, o plantel…
– O plantel será renovado como deve ser, ou seja, sem sairmos da estratégia e dos parâmetros que devemos cumprir.
– E de forma que possibilite a conquista do título?
– Obviamente. E muito mais agora. Perante a actual realidade, o Sporting é aquele que tem maiores possibilidades de conquistar o título. A confirmarem-se as saídas de Mourinho, do FC Porto, e de Camacho, do Benfica, estes dois clubes vão passar por uma revolução. O Sporting já passou por isso e tem uma equipa estável.
– Com ou sem Fernando Santos?
– Com Fernando Santos, Joaquim Santos ou Manuel Santos.
– Fernando Santos vai ou não sair?
– Tudo aquilo que for decidido será comunicado a seu tempo. Até agora tudo o que se escreveu sobre a continuação do treinador ou a sua saída é absolutamente falso. Convido todas as pessoas que escrevem sobre o assunto a confirmarem essas informações com os responsáveis do Sporting. Já ouviram algum dirigente dizer que Fernando Santos vai sair?
– Mas concorda com aqueles que dizem que esta época “é para esquecer”?
– No futebol estas coisas acontecem. Seja por razões internas, seja por razões externas, estas coisas acontecem. Alex Ferguson esteve oito anos no Manchester United sem ganhar.
– O facto de a SAD ter colocado reticências no processo de renovação de contratos de alguns jogadores influentes ajudou a desestabilizar a equipa?
– Não há razão para se pensar assim. João Pinto e Pedro Barbosa são profissionais e agem enquanto tal. Temos que reconhecer que o Ricardo fez uma época menos boa, as evidências estão aí. Mas o futebol é assim.
– O futebol nem sempre é assim… também depende da qualidade das equipas.
– Neste momento não vou falar de renovações. A seu tempo serão conhecidas.
– Há quem encontre na saída de Bettencourt divergências com Dias da Cunha. É verdade que várias declarações públicas do presidente eram contra a estratégia traçada pela SAD?
– É mentira. Não é verdade em relação a José Bettencourt. E ainda que este divergisse num ou noutro ponto de Dias da Cunha, os consensos, no Sporting, são sempre possíveis. Quanto a mim, desde já aviso que não conseguirão criar-me problemas com Dias da Cunha. Tenho as minhas opiniões, o presidente do Sporting tem as dele mas tudo aquilo que os dois decidirmos – nomeadamente a substituição de José Bettencourt – será em total consenso. Não nos conseguirão dividir.
– Concordou sempre com o ‘timming’ e teor das intervenções públicas de Dias da Cunha?
– Se não concordasse não continuava no Sporting. Aos 51 anos não faço nada por obrigação.
– Não tem divergências com Dias da Cunha?
– Posso ter. Não sou filho dele nem ele é meu pai mas somos uma equipa coesa e o resultado é sempre consensual.
– Ribeiro Telles é um bom nome para substituir José Bettencourt?
– Ninguém deve voltar ao lugar que já ocupou.
– Admite ocupar o lugar?
– Não. Não tenho disponibilidade, ambição ou prazer que me levem a isso. Ajudo em tudo o que puder mas não ocuparei esse lugar.
– Já pensou num nome? Virá de fora do Sporting?
– A seu tempo se dirá.
– Será um profissional em full-time?
– O assunto está ainda muito fresco e estamos ainda a estudar as melhores soluções que, reafirmo, serão consensuais.
– Defende o regresso ao poder bicéfalo: um presidente para o clube e um presidente para a SAD?
– Não respondo a isso.
'OPERAÇÃO APITO DOURADO PODE VIR INVESTIGAR-NOS
– A arbitragem é um tema caro a Dias da Cunha. Acha que o Sporting pagou essa factura?
– O Sporting estará sempre disponível para travar a luta pela dignificação do futebol, custe o que custar. Para que o futebol seja apelativo e atractivo, sem suspeição ou violência. O Sporting foi o primeiro clube a estabelecer um protocolo com as claques. E a nova lei veio, agora, dar-nos razão.
– Consequências da operação ‘Apito Dourado’?
– Espero que se esclareça a verdade, deste e de todos os apitos dourados. O Sporting está de consciência tranquila, limpa. Podem vir investigar-nos.
PERFIL
Filipe Soares Franco, actual vice-presidente do Sporting Clube de Portugal e administrador da Sporting, SAD, tem 51 anos, é casado e pai de quatro filhos. Além da ligação ao Sporting, Soares Franco também foi presidente do Estoril-Praia, agora promovido à SuperLiga.
Profissionalmente, Soares Franco está ligado à área da construção, sendo presidente da OPCA, uma das maiores empresas nacionais deste sector. A principal associação do sector, a ANEOP, também é liderada por Filipe Soares Franco.
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