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"Talvez faça um livro sobre a Selecção"

Agostinho Oliveira, ex-adjunto de Carlos Queiroz na Selecção Nacional, está magoado com a Federação Portuguesa de Futebol, onde trabalhou quase duas décadas. Pegou nesse saber feito de experiência, levou-o para Braga e quer criar uma academia que aproxime os minhotos ainda mais dos ‘grandes’
26 de Fevereiro de 2011 às 00:00
'Talvez faça um livro sobre a Selecção'
'Talvez faça um livro sobre a Selecção' FOTO: Simão Filho

Correio Sport - O que o trouxe ao Sp. Braga depois de tantos anos ligado às selecções?

Agostinho Oliveira - Foi a argúcia do presidente do Sp. Braga. Percebeu que a minha relação com a Federação Portuguesa de Futebol estava no ocaso e apresentou-me um projecto à minha medida.

- Estava ansioso por mudar de ares?

- Fiquei satisfeito com o desafio do Sp. Braga. Joguei 15 anos no Sp. Braga, tornei--me treinador em Braga. Não vou falar da Selecção. Talvez um dia escreva um livro sobre as minhas aventuras nas selecções.

- A porta da FPF fechou-se para si ou pode abrir-se de novo?

- Estou dedicado ao projecto que me confiaram. Por mim, o dia teria 48 horas para fazer tudo o que tenho em mente. São 90 pessoas a trabalhar na formação do Sp. Braga e acima de 400 jogadores. Muitas vezes, estou no meu gabinete, no Estádio 1º de Maio, das 8h00 às 20h00.

- O que lhe pediram para fazer?

- Coordenar e revitalizar toda a formação. O Sp. Braga já tem presença regular nas competições europeias, agora há que apostar na base e nas infra-estruturas. É o caminho lógico para um clube que quer afirmar--se ainda mais entre os grandes.

- O que mais o entusiasma nesse projecto de revitalização?

- A criação de uma academia, que estará pronta dentro de dois anos, e a reactivação da equipa B. Para o Sp. Braga crescer, precisa de equilíbrio e isso vai além dos resultados. É preciso melhor prospecção, ligação maior entre as equipas técnicas da formação e do futebol profissional, a produção de atletas para posterior venda. Se não vender, o clube não cresce. Podemos ir buscar três ou quatro estrangeiros, sem exageros.

- Como vai ser a academia?

- Feita com o nosso cunho e tendo como base fundamental a simplicidade e a funcionalidade. Vamos fazer um protocolo com a universidade. Os jogadores poderão conciliar o futebol com cursos superiores.

- Qual o interesse em ressuscitar a equipa B?

- Estive na génese das equipas B. Em Espanha, o investimento forte nas equipas B dá retorno. Coloca-se o "produto" mais rápido na contra-receita. À excepção do Marítimo, as equipas B desapareceram em Portugal devido à parca realidade competitiva que as cingia ao terceiro escalão, sem possibilidade de subida às ligas profissionais. Eram, também, destino de excedentários e atletas em situação anómala.

- Agora será diferente?

- O projecto que a Liga de Clubes tem em estudo é para regulamentar e enquadrar financeiramente as equipas B, partindo do ponto prévio de que poderão ter acesso à Honra.

- A formação é mesmo paixão ou capricho do destino?

- Licenciei-me em Filosofia, na Faculdade de Letras do Porto, no ramo psicopedagógico. Essa bagagem ajudou-me a vingar na formação. Estou familiarizado com as exigências comportamentais dos jovens e a sua evolução mental, tenho ferramentas para passar-lhes a mensagem e hierarquizar lideranças. Vale para todos os escalões, pois um grupo nunca é homogéneo em termos de idades. Para mim, quem não passa pela formação não pode ser bom treinador.

- Quais as suas medalhas e os piores momentos na carreira?

- Medalhas foram subir a pulso e ter chegado ao topo à custa do trabalho. Fiz de tudo nas selecções, fui campeão europeu como técnico principal: bicampeão da Europa de sub-18 e bicampeão da Europa de sub-16. Como adjunto ganhei o Mundial de sub-20 (1991) e o 4º lugar nos Jogos Olímpicos. Momentos maus, não penso.

- Os últimos tempos com Carlos Queiroz ou o Europeu de sub-21 de 2006, perdido na primeira fase...

- Entre selecções jovens e Selecção Nacional, tive um currículo positivo e passei por situações que me deram substância para abraçar qualquer desafio. E com êxito.

- Proporcionou a estreia na Selecção A a 13 jogadores, entre os quais Paulo Ferreira, Tiago, Nuno Valente e Pedro Mendes.

- Nunca os contei (risos).

- Como é que viu a renúncia de Tiago e Paulo Ferreira e o ressurgimento de Pedro Mendes?

- Falo apenas no abstracto. São fases na carreira de jogadores com percurso sólido.

- Que relação tem com Cristiano Ronaldo?

- Estou focado no Sp. Braga, não vou falar dos jogadores da Selecção.

- Qual o jogador com mais talento que encontrou?

- O talento não existe ‘per se', tem de assentar numa personalidade forte, numa estrutura mental consistente. Dentro dessa combinação, o Figo destacou-se e ainda revelou enorme capacidade de liderança.

- Porquê?

- Há vários tipos de liderança: líder porque futebolisticamente se é o melhor; líder por dominar melhor o balneário; líder por gerir melhor determinadas situações do colectivo. Na liderança firmada com base no talento e na personalidade, os exemplos são muito raros nas selecções. O Luís Figo é um deles.

PERFIL

Agostinho Oliveira jogou e iniciou-se como técnico no Sp. Braga. A chegada à Selecção foi em 1989/90. Jogador e estudante, licenciou-se em Filosofia e participou nas lutas estudantis antes e no pós-25 de Abril, devido à sua "visão humanista", disse ao ‘Correio Sport'. Foi presidente do Sindicato de Jogadores, trabalhou na Direcção-Geral dos Desportos, deu aulas. O pódio nas selecções veio mais tarde. Venceu como seleccionador principal em vários escalões. Também ganhou como adjunto de Carlos Queiroz e Nelo Vingada. Rompeu a ligação à FPF após a chegada de Paulo Bento. Aos 64 anos, voltou ao Minho para criar uma academia de talentos. Tem um filho a jogar nas distritais e com mestrado em Engenharia Biomédica.

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