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Correio da Manhã

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Trauma e redenção

Na ressaca de mais uma eliminação através dos penáltis no futebol, a Inglaterra vira-se para duas semanas de esplendor noutros relvados – a relva dos courts de Wimbledon, onde nesta segunda-feira arrancou a 126ª edição do mais famoso torneio de ténis do Mundo com algumas surpresas. Rui Machado estreia-se esta terça-feira na Catedral do Ténis.
26 de Junho de 2012 às 00:24
ténis, wimbledon, londres, inglaterra
ténis, wimbledon, londres, inglaterra FOTO: DR

"Anyone for tennis?", intitulava ironicamente o jornal diário 'The Sun' por baixo de uma imagem que tem sido uma constante desde 1990: o desespero dos jogadores da selecção de Inglterra na sequência de mais uma eliminação pelas grandes penalidades numa grande competição futebolística. É um trauma nacional que se verificou pela sexta vez, mas pelo menos os britânicos têm agora um tradicional evento seu para centrar as suas atenções que é também o mais prestigiado torneio de ténis do mundo: Wimbledon. E em Wimbledon há outra malapata a quebrar: nenhum britânico vence o torneio desde Fred Perry, em 1936 – e, com a Inglaterra fora do Euro 2012, mais pressão haverá sobre Andy Murray.

Mas Andy Murray não é propriamente inglês, o que quer dizer que quando ganha é britânico e quando perde é escocês. Foi semifinalista nas últimas três edições da prova e surge em quarto lugar na bolsa de apostas, logo após o formidável triunvirato composto pelos três campeoníssimos que o precedem no ranking mundial: Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer – que já venceram Wimbledon e entre si arrebataram 28 dos últimos 29 torneios do Grand Slam (sendo a excepção Juan Martin del Potro, no US Open de 2009). Os feitos do sérvio, do espanhol e do suíço nos últimos anos catapultaram a modalidade para um patamar qualitativo estratosférico e vai ser muito difícil alguém conseguir roubar a um deles o troféu de Wimbledon.



NÚMERO UM É O PRIMEIRO

Como manda a tradição, o campeão em título abriu solenemente o torneio no vetusto Centre Court às 13h em ponto de segunda-feira e Novak Djokovic não teve grandes problemas em despachar o ex-número um mundial espanhol Juan Carlos Ferrero, por 6-3, 6-3 e 6-1. No Court 1, Roger Federer foi ainda mais expedito diante de outro espanhol, bem menos veterano, Albert Ramos: 6-1, 6-1 e 6-1. Pela 15ª vez nos últimos 17 torneios do Grand Slam, Federer e Djokovic ficaram do mesmo lado do quadro, o que significa que – caso as hierarquias pré-estabelecidas sejam respeitadas – poderão medir forças nas meias-finais, enquanto que a semifinal teórica da metade inferior da grelha emparelha Rafael Nadal e Andy Murray, que nesta terça-feira fazem a estreia na competição.

Novak Djokovic, por ser número um e detentor do título, é o favorito para os corretores de apostas e para a crítica especializada porque lhe custou tanto a derrota na final de Roland Garros diante de Rafael Nadal que o sérvio está hipermotivado para exorcizá-la e porque a relva não só premeia a grande qualidade da sua resposta ao serviço como as suas pancadas mais chapadas e profundas. Mas o espanhol melhorou tremendamente e atenuou os seus pontos mais fracos, como se viu na cimeira de Paris que lhe deu um sétimo título em Roland Garros. Roger Federer entretanto distanciou-se ligeiramente dos dois primeiros e não ganha qualquer troféu do Grand Slam desde o 16º da sua contabilidade recordista, em Janeiro de 2010 no Open da Austrália. Um triunfo do helvético em Wimbledon permitir-lhe-ia regressar ao posto de número um mundial e não só igualar o recorde de sete títulos de Pete Sampras na Catedral do Ténis como também bater o recorde de semanas do americano na liderança do ranking, mas ultimamente o suíço tem apresentado demasiados altos e baixos nos eventos do Grand Slam e em encontros à melhor de cinco sets.

SURPRESAS NO MASCULINO

A jornada inaugural vitimou inesperadamente dois representantes do top 10: o checo Tomas Berdych, número 7 e vice-campeão em 2010, sucumbiu perante o talentoso (e tantas vezes irregular) letão Ernests Gulbis em três tie-breaks (7-6, 7-6 e 7-6!), enquanto o gigante americano John Isner, número 10, foi surpreendido em cinco sets pelo mesmo colombiano Alejandro Falla que há dois anos quase surpreendia Roger Federer na primeira ronda.

Ficou assim gorada mais uma sequela do mais longo encontro de sempre, porque John Isner e Nicolas Mahut eram favoritos para se reencontrarem na segunda ronda… após terem convivido durante 11h05m na primeira ronda de 2010 e os caprichos do sorteio terem determinado que voltassem a defrontar-se na eliminatória inaugural de 2011!

A ESTREIA DE MACHADO

Rui Machado estreia-se nesta terça-feira (a partir das 11h30) no quadro principal do mais prestigiado torneio de ténis do mundo, após quatro infrutíferas passagens anteriores pela fase de qualificação entre 2008 e 2011. “Porque o qualifying se joga sempre fora do All England Club, Wimbledon era o único Grand Slam que não tinha vivenciado e pude constatar que é o mais bonito, o mais emblemático, o mais especial. Estou deslumbrado”, confessou o número um português – que terá uma difícil missão diante do americano Brian Baker.

O algarvio logrou passar uma ronda no Open dos Estados Unidos em 2008 e também aceder à segunda eliminatória de Roland Garros em 2009, mas desde então ou não tem conseguido sobreviver ao qualifying ou tem perdido na ronda inaugural. O seu estilo de jogo é mais adaptado à terra batida, pelo que a rápida superfície relvada será uma dificuldade adicional para além da qualidade de Brian Baker, finalista há cinco semanas no torneio de Nice e com confiança no seu jogo atacante após passar incólume pela fase de qualificação.



AVE, MARIA E O ECLIPSE DE VENUS

No sector feminino, e como também manda a tradição, a detentora do título estreia a jornada de terça-feira às 13h no Centre Court – mas a checa Petra Kvitova, que tão perto esteve de chegar à liderança do ranking no fim da época transacta e no início deste ano, chega ao local da sua maior consagração bem menos confiante e, apesar da tremenda demonstração de potência apresentada na pretérita edição, não é a principal favorita. Quem está no topo das preferências dos bookmakers é a russa Maria Sharapova (impôs-se facilmente na jornada inaugural a Anastasia Rodionova), derrotada precisamente por Petra Kvitova na final de há um ano mas que há duas semanas e meia venceu o seu quarto título do Grand Slam em Roland Garros e recuperou o estatuto de número um mundial. Logo depois vem a americana Serena Williams, que em pisos rápidos – e em condições normais – continua a ser a jogadora a abater e com uma elevada qualidade no serviço (tanto no primeiro como no segundo) que faz a diferença; para mais, o desaire precoce em Roland Garros deve tê-la espicaçado…

No entanto, a sua irmã Venus Williams – que até venceu mais vezes do que ela em Wimbledon (cinco, entre 2000 e 2008) – já está fora de prova, vítima da russa Elena Vesnina e da rara doença (Síndrome de Sjogren, uma condição debilitante) que faz com que por vezes se sinta com pouca energia para as exigências da alta competição. Outras baixas de realce na jornada de sexta-feira: a ex-número um mundial sérvia Jelena Jankovic (perdeu diante da campeoníssima Kim Clijsters), a italiana Flavia Penetta e a eslovaca Daniela Hantuchova.

Enviado-especial do Correio da Manhã no Twitter: http://twitter.com/MiguelSeabra

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