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Correio da Manhã

Desporto
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Treinador de João Almeida em cadetes lembra "uma joia de moço"

Português descrito como dedicado, humilde e talentoso, que "nunca desiste".
Lusa 19 de Outubro de 2020 às 09:12
João Almeida
João Almeida
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João Almeida
O treinador Célio Apolinário, que orientou João Almeida, líder da Volta a Itália em bicicleta, em cadetes e juniores, lembra "uma joia de moço", dedicado, humilde e talentoso, que "nunca desiste".

Em entrevista à agência Lusa, um dos treinadores que marca o percurso profissional do 'miúdo' de 22 anos que lidera, ao serviço de uma Deceuninck-QuickStep que sempre quis representar, o 'Giro', descreve-o como alguém que sempre foi "muito focado".

Apolinário, de resto, foi um dos treinadores que ficou cativado pelo 'miúdo' de A-Dos-Francos, nas Caldas da Rainha, pois viu-o muito cedo, quando corria "na EcoSprint, das Caldas, uma equipa virada para o BTT".

Numa das provas que fizeram na estrada, gostou de o ver, "tinha ele 14 anos".

"Noutra prova voltei a olhar para ele. Nem sequer andava ali na frente, mas era sempre muito 'raçudo', sem desistir. Disse 'epá, este miúdo é ciclista, tenho de o convidar'", conta.

Falou com o adolescente e com o pai, Dário, e levou-o para o Cartaxo, e logo na Volta a Portugal de cadetes do primeiro ano em que trabalharam juntos, ficou no 'top 10' e ganhou um convite para a seleção, pela mão de José Poeira.

Mais tarde, seguiu o treinador para o Bombarralense, onde "evoluiu ainda mais", e, no primeiro ano de júnior, 'brilhou' na Volta dos Campeões, uma corrida com três etapas em que participavam ciclistas sub-23. Na altura, tinha 17 anos.

"Na Volta a Portugal de juniores, ganha no Larouco, faz quarto na geral e ganha a juventude", recorda Célio Apolinário, lembrando um ciclista que despontava ao lado de Daniel Viegas, que hoje corre na Kometa Xstra, criada por Alberto Contador.

Apolinário, que agora treina os juniores da Academia Joaquim Agostinho, lembra ainda que o facto de Almeida não ter "um pingo de maldade" colocava o jovem ciclista à mercê de várias brincadeiras.

"Quando foi a primeira vez ao controlo antidoping, decidimos brincar com ele. Fui com ele, como treinador de um menor, e pisquei o olho à médica. Disse-lhe: 'ó João, olha que há novas regras no controlo'. 'Então, Célio?'. E eu: 'então, tu agora pegas no copo, metes o copo no chão, andas metro e meio para trás, e tens de acertar no copo'. Claro que o João ficou todo aflito, [a dizer] que não ia acertar e ia sujar o chão todo. Foi uma galhofa. Ele acreditou que era verdade. Ia tentar", conta, numa de muitas "brincadeiras" com o agora 'herói' no Giro.

A humildade, a dedicação, até o treinador ter de lhe "ralhar por treinar demais", levaram-no ao topo, com um perfil discreto que o mundo agora vai conhecendo aos poucos.

"O João sempre foi assim, mesmo que a coisa corresse menos bem, não se passava nada. Sempre tranquilo, uma joia de miúdo, sempre lutador, nunca por nunca o João teve uma má ação para comigo ou os colegas. Sempre um miúdo tranquilo, e é o que se vê hoje", conta.

Fez a 'dobradinha' nos juniores, com título de contrarrelógio e de fundo, depois de já ser campeão de cadetes, então em 2014, e também venceu Nacionais na pista, num domínio crescente que comprova a evolução ao longo dos anos, antes de sair para correr no estrangeiro, primeiro na Unieuro Trevigiani - Hemus 1896 e, depois, na Hagens Berman Axeon, antes de chegar à Deceuninck-QuickStep.

"O João sempre foi muito focado. Foi um evoluir natural, porque sempre 'voou' nos contrarrelógios, sempre rolou bem, e nas etapas de montanha nunca teve dificuldade nenhuma. (...) O João, quando cometia um erro, só o cometia uma vez. Era muito atento e gostava muito de aprender. E também era um excelente aluno", revela.

De resto, desde cedo que sabia o que queria. "O sonho dele sempre foi a QuickStep. O primeiro capacete que comprou foi um Specialized da QuickStep, era a sua equipa de sonho".

Este "miúdo humilde, que sempre soube estar, independentemente de ganhar ou perder, só falava da QuickStep" quando era novo.

Quanto ao sucesso que está a ter, já tinha sido preconizado meio na brincadeira, em conversa entre os dois: "Falámos quase diariamente, quando possível, e disse-me que ia bem preparado para o 'Giro', e eu até lhe disse que estava na altura de bater o recorde do Acácio da Silva", que em 1989 também vestiu a 'maglia rosa', assevera.

João brincou: "'então, vamos lá ver se consigo'", e o resultado prova que havia fundo na "expectativa que existia". "Mas ninguém pensava que fosse tão cedo", alerta.

"Enquanto puder, vai lutar até ao último dia. Muito sinceramente, estou esperançoso e acredito que o João nos possa trazer o 'Giro'. Só se ele tiver um dia mau. (...) Vai vender cara [a vitória] ao [Wilco] Kelderman, que vai ter de suar muito", comenta.

No domingo, ficou na retina uma imagem do ciclista luso de língua de fora, a percorrer vários quilómetros, a solo, da subida final atrás do holandês, que agora é segundo da geral, a 15 segundos, para acabar em quarto e manter-se na liderança.

"Foi sempre assim, sempre lutou até ao fim. Às vezes chegava à meta, com os pais à espera, e agarravam-no porque ele vinha mesmo exausto. Dava sempre tudo. Hoje, os profissionais fazem o trabalho deles e abrem para o lado. O João, a trabalhar para o Remco [Evenepoel, colega de equipa], dava tudo e depois ainda dava mais, para ver se chegava a um bom lugar para ele. Nunca desiste", explica.

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