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TREINADOR FAUSTO RIBEIRO PEREMPTÓRIO: OBIKWELU É MADE IN PORTUGAL

O sportinguista Francis Obik-welu escreveu na Suíça uma da páginas douradas do atletismo português ao estabelecer dois recordes nacionais 100 metros (10,09 segundos) e 200 metros (20,26 segundos) no ‘meeting’ de Lausanne, e ontem classificou-se no quinto lugar (10,12) no meeting de Gaz de France numa corrida ganha pelo homem mais rápido do mundo, o norte-americano Maurice Greene (9,99), duas semanas após ter obtido a nacionalidade portuguesa.
5 de Julho de 2002 às 22:41
O jovem velocista nigeriano chegou a Lisboa para o campeonato do Mundo de juniores em 1997 e recusou-se a regressar ao seu país, optando por ficar a trabalhar na construção civil. Ao longo dos últimos seis anos uma enorme vontade de se tornar um cidadão português. O processo resolveu-se e ele fez questão de mostrar o seu agradecimento com dois triunfos incontestáveis no "meeting" de Lausanne , o que o colocam desde já entre os favoritos ao ouro no Campeonato da Europa de pista, a realizar no Estádio Olímpico de Munique (Alemanha), em Agosto.

Indissociável a este trajecto vitorioso está o treinador português Fausto Ribeiro, que, ao serviço do Belenenenses, conseguiu recuperar Obikwelu e Sylvester Omodiale das obras, colocando-os a viver no Estádio do Restelo. Perante tamanha matéria prima foi com naturalidade com os resultados começaram a surgir… Uma união que lhes valeu uma transferência para Alvalade para integrar uma equipa de sonho elaborada por Moniz Pereira.

A progressão foi enorme e Fausto Ribeiro foi o obreiro desse sucesso. "É do conhecimento geral que o Obikwelu era uma atleta de 400 metros e o seu registo nem era nada de especial para um atleta júnior, mas ao aperceber-me das suas capacidades optei por colocá-lo em distâncias mais curtas, nomeadamente nos 100 e 200 metros", começou por adiantar o treinador, acrescentando: "Os resultados começaram a surgir e confirmaram que tinha razão em apostar nestas distâncias".

Com o desenrolar das provas, confirmou-se o talento inegável de um atleta vocacionado para os grandes feitos. Em Portugal encontrou uma estrutura federativa, clubística e técnica que não tinha na Nigéria e a progressão foi inevitável. Fausto Ribeiro, vestiu também o papel de "pai" deste jovem de 23 anos, e não poupa elogios ao seu pupilo: "Ele é uma pessoa extremamente inteligente e aprende tudo muito depressa. Tem ainda uma grande margem de progressão, tem vindo a melhorar, mas não há dúvidas que é um atleta cheio de capacidades. Estou convencido que poderia ser um bom barreirista ou saltador em altura"…

No entanto, os resultados obtidos na Suíça, apesar de serem recordes nacionais ainda estão longe dos recordes pessoais do atleta, que já baixou da barreira dos 10 segundos aos 100 metros (9,97) e regista 20,01 segundos aos 200 metros. "Estes resultados estavam a custar a sair, pois as referências dos treinos demonstravam que ele estava bem. Contudo, considero que os triunfos foram mais benéficos porque vieram reforçar o seu aspecto psicológico".

Apesar de ter conseguido a naturalização portuguesa, Francis Obikwelu optou por rumar às Bahamas para iniciar um novo ciclo de preparação, o que levou algumas pessoas a afirmarem que o velocista tinha mudado de treinador, passando a preparar-se sob a orientação de Steve Riddick.

Fausto Ribeiro explicou a situação: "O que sucedeu foi que tentou--se uma experiência nova, porque no treino específico de acções intensas e curtas é difícil arranjar alguém que o consiga acompanhar. Daí termos optado em experimentar que ele fosse para as Bahamas, com um grupo forte, onde posso destacar o nome de Frank Fredericks e aproveitar um clima melhor do que a chuva e frio do nosso Inverno".

“SOU CONTRA A IMPORTAÇÃO”

A comunicação entre ambos é boa, mas Fausto Ribeiro confessa que não telefona diariamente a explicar ao atleta que tipo de treino deve efectuar. "Ele é um atleta que assimila bem as minhas ideias. Tem uma minuta que serve como referência e as sessões são adaptadas. No entanto, penso é que algumas pessoas têm inveja de que eu treine o Francis e dos seus sucessos".

Quanto à naturalização do seu pupilo, Fausto Ribeiro não se coíbe em afirmar que é contra a importação de atletas. "Não sou apologista da importação de atletas e se assim não fosse teria lutado desde os primeiros momentos para a sua naturalização. O caso do Francis é diferente daquele que se verifica em alguns países europeus, onde naturalizam atletas apenas para ganharem medalhas, pois o Obikwelu foi formado no ponto de vista atlético em Portugal e durante os anos que cá esteve procurou sempre a aceitação social. Isto não significa que ele renegue a família e a pátria. Tem 23 anos e passou 1/3 da vida em Portugal".

Aliás, Fausto Ribeiro relembra mesmo que "ele já se comportava como um português, identifica-se com a organização e tem um povo a gostar e a apreciar os seus feitos. É, sem dúvida, um produto made in Portugal".
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