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Correio da Manhã

Desporto
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Valentim Loureiro não tem espaço para voltar ao futebol

O presiden-te do Marítimo apela a mudanças na direcção da Liga, lançando o nome de Paulo Carvalho para substituir o Major. No que respeita ao referendo para a existência de um clube único na Madeira é peremptório: “Por que não apostar no mais representativo da região?”
26 de Março de 2005 às 00:00
Correio da Manhã – Alberto João Jardim levantou suspeitas graves sobre a contabilidade do Marítimo e algumas transferências.
Carlos Pereira – É um direito que lhe assiste. Ele pode dizer o que bem entender e, hoje, a Comunicação Social é livre. Estou tranquilo porque quem não deve não teme e, por isso, o clube já lhe enviou toda a documentação. Ele já disse publicamente que está esclarecido e que o Marítimo está a ser bem gerido.
– Ele chegou a pôr em causa a honestidade de algumas transferências...
– O presidente do Governo Regional estava desinformado, mas a mentira tem perna curta. As contas do Marítimo foram aprovadas em Assembleia Geral por unanimidade e na presença dos representantes do Governo. No Marítimo tudo está devidamente contabilizado, contratualizado e facturado. As contas são auditadas e temos revisores oficiais.
– Ele referiu-se directamente à transferência de Leo Lima para o FC Porto. Que valores estão em causa neste negócio?
– Não vou falar em números, mas Alberto João Jardim conhece todos os pormenores da transferência. Tudo está contratualizado, o que não está é pago.
– O FC Porto está a falhar compromissos?
– O Marítimo já devia ter recebido a 31 de Janeiro uma das tranches e o FC Porto falhou. Já insistimos, eles alegam algumas dificuldades e estamos a aguardar. Mas se o FC Porto está atrasado, o Sporting está atrasadíssimo.
– O negócio Dani?
– Exactamente. O Sporting leva já um superatraso no pagamento das tranches. Sabemos que os clubes não nadam em dinheiro e sabemos que no mercado estrangeiro há flexibilidade. Por isso, para não perder negócios, temos de ter alguma paciência, mas, no Marítimo, o dinheiro também não cai do céu e relativamente ao Dani os prazos estão mais do que ultrapassados.
– Recentemente, a PJ esteve no Marítimo e levou alguns contratos. Há contabilidade paralela no clube?
– Supomos que esse problema tenha sido levantado durante o julgamento com o Inácio. A PJ visitou o Marítimo, já nos devolveu as cópias de contratos que foram, na altura, pedidas e nada receamos. O Marítimo teve inspecções rigorosas e tem a contabilidade perfeitamente clara.
– Alberto João Jardim defendeu esta semana a criação de um clube único na Madeira. Concorda?
– A ideia não é nova. Ele já a teve em 1997, voltou agora ao assunto, mas também disse que só daqui a três anos pensaria a sério nele. Em primeiro lugar, penso que o referendo levanta alguns problemas jurídicos no quadro político- administrativo da região. Segundo, não me parece possível conjugar clubes como o Marítimo, que tem uma SAD e o União, também uma SAD. Parece-me uma impossibilidade.
– Mas defende a ideia de Alberto João?
– Ele quer um clube único e eu defendo um único clube. É impossível fundir os três clubes da Madeira, por isso, por que não apostar naquele que é representativo da região e do qual Governo regional tem já 40 por cento?
– Acha que o Marítimo devia ter mais apoios do que os outros?
– Claro. O Governo dá ao Marítimo exactamente o mesmo que dá ao Nacional: 600 mil euros. Não me parece justo. E na Madeira isso é feito de maneira absolutamente clara e transparente. Aqui não há bombas de gasolina, nem terrenos.
– No continente há promiscuidade entre o futebol e poder político?
– Com a legislação que temos há promiscuidade e situações dúbias. Éssa é a verdade. Deviam seguir o exemplo da Madeira.
– Foi um dos subscritores do manifesto a favor da transparência no futebol. O movimento acaba nesse manifesto?
– Esse movimento não se esgota no manifesto. Lutarei pela mudança. Até porque há quem já não tenha espaço para voltar ao futebol.
– Valentim Loureiro?
– Sim. O meu desejo para 2005 é que o Major ponha o lugar à disposição. Neste momento, na Liga, não há uma linha de orientação, um rosto forte e, estatariamente, tenho muitas dúvidas sobre a legalidade da situação.
– Quem seria um bom presidente da Liga?
–Já há muito tempo que apontei Paulo Carvalho como uma pessoa capaz de promover a mudança. É urgente alterar os estatutos de forma a acabar com a necessidade de uma pessoa precisar de 20 por cento de apoio para ser candidato e de mais 31 por cento dos votos para ser eleito. Esses 51 por cento, obrigam a arranjos e a compromissos indesejáveis e retiram independência aos candidatos. A criação de um tribunal desportivo é, também, essencial.
– O Benfica, o Belenenses e o Sporting também assinaram o manifesto. Por que não mais clubes?
– A iniciativa partiu de mim. Começei a falar com vários presidentes e todos viram com bons olhos a iniciativa. Dias da Cunha e Luís Filipe Vieira foram os últimos. Fui de propósito ao Sporting-Benfica para falar com eles e os dois mostraram-se disponíveis para aderir ao movimento. Reconheço que o manifesto deveria ter sido assinado por mais presidentes, mas na altura não se pensou nisso.
– Pinto da Costa foi contactado?
– Foi o primeiro com quem falei. E ele mostrou-se imediatamente de acordo com a necessidade de alterar o actual estado do futebol, da arbitragem aos estatutos, defendendo ainda a criação do tribunal desportivo.
– Como é que vai acabar o ‘Apito Dourado’?
– Ou a alteração das medidas de coação decretadas no início significa que as provas são seguras e suficientes ou, então, o facto de os arguidos estarem em liberdade quer dizer que não há grande sustentação do caso e que mais de 90 por cento das pessoas ouvidas são apenas testemunhas. Vamos ver se é muita parra e pouca uva...
– Pinto da Costa não gostou de ver o árbitro madeirense Elmano Santos abraçar o ‘adjunto’ do Sporting, também madeirense, no final do clássico. É normal entre madeirenses?
– Normalíssimo. Só me admiraria se a seguir não fossem jantar. Mas reconheço que no calor do jogo haja quem possa pensar de maneira diferente.
“ESTE ANO ACREDITEI QUE O MARÍTIMO PODIA SER CAMPEÃO”
– Depois do nome dele ter surgido no julgamento da Casa Pia, acha que Mariano Barreto tinha condições para continuar no Marítimo?
– Julgo que sim, mas já durante o jogo percebi que ele não estava normal, não fez as alterações que se impunham e estava alterado. No final, vi-o muito perturbado e mal cheguei à cabina disse-me logo de que não estava em condições. A notícia caluniosa abalou-o muito. Disse-lhe para reflectir com a família e adiámos a decisão para o dia seguinte.
– Já falou com ele depois da morte da mãe?
– Já, e ele acredita que houve uma relação directa entre a notícia e a morte da mãe. É provável que isso tenha acontecido. É tudo muito lamentável. A saída dele hipoteca muito as nossas aspirações. Mas nada está perdido. Continuamos a lutar pelo acesso à UEFA.
– Como define este campeonato?
– Numa década acontece um campeonato como este. Tudo pode mudar a qualquer momento. Este ano acreditei que podia ser campeão. E depois, tudo mudou. O Benfica leva seis pontos da avanço, mas pode perdê-los e espero que começe já com o Marítimo.
PERFIL:
Carlos Pereira, casado, com dois filhos, especializou-se em Direito Desportivo. Em 1976 é dirigente do Juventude Atlético Clube e, durante seis anos, presidiu ao Fc pátria. Em 1983 chegou ao Marítimo, ficando a seu cargo o futebol juvenil do clube. Estava-se em 1983 e, um ano depois, com a subida da equipa principal à primeira divisão, toma a chefia do futebol profissional. Em 1991 deixa o clube para voltar seis anos mais tarde, na condição de presidente. Carlos Pereira tem ainda mais dois anos de mandato.
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