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Correio da Manhã

Desporto
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Vitória da pressão alta

Uma excelente exibição do árbitro Pedro Henriques permitiu um jogo pleno de tempo útil, com a bola a rodar de pé para pé. Este é o caminho para a arbitragem portuguesa, se a intenção dos dirigentes da Liga não for desertificar os estádios ainda mais. Falta apenas que os artistas, e mesmo o público, entendam que o futebol não é um suposto palco para concertos de apito e que morre um pouco sempre que a bola pára. O jogo merecia mais golos, que só as boas exibições de Ricardo e Helton evitaram, e o Sporting foi um vencedor justo. Vieram de Alvalade os donos da bola, fruto de um esquema táctico que se revelou ganhador.
18 de Março de 2007 às 00:00
Leões rodeiam Tello na festa do golo que rendeu ao Sporting a primeira vitória no Dragão
Leões rodeiam Tello na festa do golo que rendeu ao Sporting a primeira vitória no Dragão
A pressão alta do Sporting, assente num 4x4x2, confundiu o FC Porto desde o início, com a saída para o ataque a esbarrar nos primeiros passes e na capacidade de desdobramento do jovem meio-campo dos leões. O FC Porto não encontrou fluidez pelos flancos e Quaresma entreteve-se a jogar sozinho numa regressão no caminho que tem trilhado nos tempos mais recentes. O mote para um grande espectáculo foi dado logo aos dois minutos, com Quaresma a obrigar Ricardo a boa defesa e, na resposta, Yannick a acordar Helton para uma noite de grande acerto. A colocação de Alan e Quaresma nos flancos, com a equipa em 4x3x3, revelou-se uma má opção para Jesualdo Ferreira.
No segundo tempo, o técnico corrigiu. Postiga entrou e as equipas passaram a jogar em sistemas idênticos. O encaixe total dos jogadores levou a mais choques e faltas, mas o jogo continuou empolgante.
O FC Porto começava a dominar as operações quando Paulo Bento, aos 67’, retira Romagnoli e lança Pereirinha para o lado direito do meio-campo. Com este movimento, Moutinho reforçou a luta pela bola no centro e o Sporting voltou ao comando. Fruto de nova fase de domínio, aos 72’ a equipa ganha um livre directo a cerca de trinta metros da baliza. Tello arranca um excelente pontapé que acaba em golo.
A partir daí, o Sporting recua excessivamente e as ocasiões de golo passam para a baliza de Ricardo. Mas o acerto de uma defesa muito bem comandada por Polga e a desinspiração portista mantiveram o resultado. Nos minutos finais, o jogo despede-se com intensidade. Aos 89’, Nani obriga Helton a defesa com os pés e, na recarga, Yannick não consegue o golo devido a uma extraordinária defesa do brasileiro, que leva ainda a bola à barra. Logo 4’ depois, um remate de Quaresma é desviado com classe por Ricardo. Na sequência do canto, Pepe tenta arrancar um penálti mas Pedro Henriques termina o jogo e perdoa um amarelo ao central.
POSITIVO: GUARDA-REDES
Ricardo e Helton foram um espectáculo à parte. Só a classe dos dois impediu a soma de golos no marcador. Dois guardiões de classe mundial que abrilhantaram uma óptima propaganda ao futebol. Para o nível de emoção também contribuiu decisivamente o árbitro. A forma como apita deveria fazer escola nos novos árbitros. Eis um juiz que gosta da bola a rolar.
NEGATIVO: MIOPIA TÁCTICA
Jesualdo demorou demasiado tempo a perceber o que estava a acontecer à sua equipa. Com dois alas bem abertos, o FC Porto perdeu a guerra do meio-campo e só após o intervalo corrigiu o erro. Para a derrota também contribuiu a atitude de Quaresma, que se agarrou demasiado à bola e sofreu prolongados eclipses nas acções colectivas.
LEÕES FICAM A SEIS PONTOS
O Sporting estava obrigado a ganhar para permanecer na corrida pelo título nacional e cumpriu o objectivo traçado para o Estádio do Dragão. Um excelente golo do chileno Rodrigo Tello, na marcação de um livre directo, já no segundo tempo, foi quanto baste para a equipa de Paulo Bento vencer e reduzir para seis pontos a desvantagem para o líder FC Porto.
Outro grande beneficiado desta 22.ª jornada pode ser o Benfica. Caso os encarnados consigam vencer amanhã o Estrela da Amadora, na Reboleira, ficam a apenas um ponto dos dragões, quando na próxima jornada a Luz vai ser palco do Benfica-FC Porto. Refira-se que o Benfica também recebe o Sporting na 2.ª volta.
PAULO BENTO: "TRIUNFO JUSTO"
Paulo Bento considerou “justo” o triunfo do Sporting no jogo de ontem. O técnico leonino fez uma análise fria ao jogo que relança a sua equipa na Liga. “Durante a primeira parte dominámos o jogo e fomos a melhor equipa. Podíamos ter chegado ao intervalo em vantagem. Na segunda parte o FC Porto fez uma alteração, que nós já esperávamos, e isso permitiu-lhe entrar melhor. Teve períodos de domínio, mas nunca deixámos de controlar o jogo. Depois chegámos ao golo, num lance de bola parada, e perto do final podíamos até ter feito o 2-0. Pelo que mostrámos na primeira parte e pelo espírito que tivemos na segunda o resultado é justo”, reforçou o técnico.
Nas contas da Liga, Paulo Bento reconheceu que em caso de derrota as contas do título ficariam “muito complicadas. Queríamos ficar a seis pontos do primeiro lugar e conseguimos”.
Com um Benfica-FC Porto marcado para a próxima jornada, o treinador do Sporting garante que o mais importante “é ganhar ao Beira-Mar”.
FC PORTO: BLOQUEADOS AO MEIO
HELTON – Decisivo no início, com grande defesa a Alecsandro, esteve mais em jogo do que esperaria. Sem hipóteses no livre de Tello, evitou o 0-2 aos 89’.
FUCILE – Pouco atacante na 1.ª parte porque Nani caía na sua zona e Romagnoli e Tello auxiliavam-no. Passou a subir mais após o intervalo e cruzou bem para Moraes aos 81’.
PEPE – Menos mandão do que de costume, permitiu veleidades aéreas a Alecsandro.
BRUNO ALVES – Marcou bem a posição defensivamente, mas raramente criou perigo.
CECH – Menos ocupado do que Fucile, não aproveitou para atacar.
ASSUNÇÃO – Bem nos equilíbrios, não deu mais nada à equipa.
LUCHO – Bloqueado pela organização leonina, saiu quando Jesualdo quis mais gente à frente.
MEIRELES – Foi sempre o mais activo dos médios. Perigoso a chutar de longe, criou o primeiro lance de ruptura do FC Porto indo à linha, aos 63’.
ALAN – Solto a receber, foi inconsequente.
ADRIANO – Fora do jogo na 1.ª parte, melhorou quando a equipa subiu o bloco, mas nunca foi perigoso. Saiu zangado.
QUARESMA – Procurou sempre assumir o jogo, derivando muito para o meio, mas não está no seu melhor. Quase empatou já nos descontos.
POSTIGA – Entrou para as costas de Adriano para forçar o recuo do meio-campo leonino. Conseguiu-o, mas nada mais: percebe-se porque é suplente.
JORGINHO – Não influente.
MORAES – Teve o golo na cabeça, aos 81’, mas falhou.
SPORTING: TELLO FOI O REI E ROMAGNOLI O ESCUDEIRO
RICARDO – Numa equipa que foi melhor, teve uma noite quase tranquila. Três boas defesas a tiros de Quaresma (2) e Raul Meireles.
ABEL – Começou mal mas melhorou. Algumas asneiras sem comprometer.
CANEIRA – Marcou mais Adriano. Fez algumas faltas a mais, mas deu conta do recado.
POLGA – Um jogo simples porque o FC Porto atacou pouco com a cabeça.
TELLO – Para além do golo, esteve sempre bem a defender, também beneficiando de um Quaresma aluado. Já no final da 1.ª parte tivera um bom remate de primeira que Helton defendeu.
MIGUEL VELOSO – Jogo certinho, atento a Quaresma e Lucho.
MOUTINHO – Desta vez, viu-se mais até em tarefas defensivas. Sempre atento a todas as movimentações.
ROMAGNOLI – Outra das grandes exibições do Sporting. Enorme 1.ª parte, a dar muito que fazer aos adversários e esteve mesmo perto do golo por mais de uma vez.
NANI – Boa 1.ª parte, desceu algo na segunda. Mas o seu talento viu-se em muitos pormenores e foi sempre pela esquerda que o Sporting atacou.
DJALÓ – Muito intermitente. Começou com um remate isolado que Helton defendeu para canto, acabou com um remate à barra.
ALECSANDRO – Sem fazer um grande jogo, trabalhou e batalhou muito com Pepe e Bruno Alves. Movimentou-se muito, vindo atrás e abrindo espaços para Romagnoli, porque a defesa portista, na primeira parte, demorou a adaptar-se.
PEREIRINHA – Nada acrescentou ao jogo.
CUSTÓDIO – Entrou para defender na parte final.
UM GOLO VISTO DE DOIS LADOS
Tello explicou no final do jogo o golo que garantiu a vitória do Sporting: “Os livres anteriores tinham sido marcados pelo Nani e pelo João Moutinho. Naquele lance o Helton talvez estivesse à espera do remate do João Moutinho de pé direito. Ficou surpreendido. Felizmente a bola entrou.”
Do outro lado, o guarda-redes do FC Porto viu assim o lance: “Só dei pela bola depois de ela ter batido lá dentro da baliza. Tenho de dar os parabéns ao Tello, pois rematou muito bem.”
Helton recusou admitir um cenário de ansiedade entre os jogadores. “Mas é claro que agora só queremos que o jogo seguinte chegue depressa”.
NOTAS
PRIMEIRA VITÓRIA NO DRAGÃO
Com o 0-1, o Sporting venceu pela primeira vez no Estádio do Dragão. Rodrigo Tello foi o autor do golo que ficará para a história.
NANI ATINGE OS 50
Nani foi ontem titular e completou o seu 50.º jogo na Liga. O médio do Sporting iniciou o trajecto na temporada 2005/06.
CLUBES ESPIAM CLÁSSICO
Chelsea, Man. United, Tottenham, Newcastle, Espanhol, Liverpool e Juventus espiaram o clássico.
TONEL VIU O JOGO NO ESTÁDIO
O defesa central leonino Tonel, que está a recuperar de uma operação ao ombro, deslocou-se em carro próprio até ao Porto para assistir ao encontro no estádio.
MOUTINHO VÊ QUINTO AMARELO
Moutinho viu o quinto amarelo na Liga e, pela primeira vez, vai falhar um jogo. O médio vai assistir ao Sporting-Beira-Mar da bancada.
BRASILEIROS PROMETIDOS
O lateral direito Pio, de 19 anos, e o defesa central Marcelo, 20, ambos ex-Corinthians, estão prometidos ao Sporting.
FICHA DO JOGO
Local: Estádio do Dragão, no Porto (49.428 espectadores)
Árbitro: Pedro Henriques (Lisboa)
FC PORTO: Helton, Fucile, Pepe, Bruno Alves, Cech, Paulo Assunção, Lucho (Jorginho, 74m), Raul Meireles, Alan (Hélder Postiga, 46m), Adriano (Bruno Moraes, 77m) e Quaresma. Treinador: Jesualdo Ferreira.
SPORTING: Ricardo, Abel, Caneira, Polga, Rodrigo Tello, Miguel Veloso, Nani, Romagnoli (Bruno Pereirinha, 67m), João Moutinho, Yannick Djaló e Alecsandro (Custódio, 83m). Treinador: Paulo Bento.
Marcador: 0-1, Rodrigo Tello (72m)
Acção disciplinar: cartões amarelos – João Moutinho (81m)
Melhor jogador: Tello
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