O polémico Boavista-Sporting da época passada motivou uma suspensão de seis meses ao dirigente ‘axadrezado’. João Freitas diz que a Comissão Disciplinar da Liga não respeitou as regras mais elementares do Direito e deixa no ar a ideia de que já avançou para outras instâncias que não as desportivas.
Correio da Manhã – Vai aceitar a suspensão por seis meses?
João Freitas – É uma decisão injusta e incompreensível e, por isso, o Boavista vai recorrer. O acórdão da Comissão Disciplinar baseia-se exclusivamente no testemunho de duas pessoas – o Rui Jorge e o Sá Pinto –, arguidos no mesmo processo. Ou seja, sou condenado com base no testemunho de dois dos interessados na minha condenação, quando nos relatórios do árbitro, delegados da Liga e forças policiais nada há quem me dê como agressor. Sucede que a Comissão Disciplinar passou por cima destes relatórios, nem lhes faz qualquer referência. Numa das audições, o quarto árbitro disse que eu tinha sido agredido. Pois isso também não foi tido em conta. Os senhores da Comissão Disciplinar não seguiram as regras mais elementares do Direito.
– Agrediu ou não Sá Pinto?
– Não agredi ninguém. O que aconteceu, tirando a agressão de que fui vítima, foi um chega para lá. A Comissão Disciplinar tomou a decisão mais fácil, aquela que lhe traria menos problemas tendo em conta que Sá Pinto e Rui Jorge estavam envolvidos na SuperLiga. No entanto, vou exigir que tudo fique esclarecido e, inclusivamente, já segui para outras vias.
– Seguiu com o caso para tribunal?
– Não vou falar sobre isso. E sobre Sá Pinto posso dizer que, enquanto jogador, continua a ser um bom valor do futebol português. Até há bem pouco tempo era seleccionável.
– Foi um ‘anus horribilis’ para o Boavista: falharam o acesso à UEFA e a Operação ‘Apito Dourado’ envolveu Valentim e João Loureiro. Viu o presidente desanimar?
– Em Portugal não há direito ao bom-nome. É assustador. Mas tudo ficará clarificado e há-de ser feita justiça. João Loureiro acredita nisso, é um batalhador, e nunca o vi de cabeça baixa.
– Acredita numa recandidatura dele?
– Ele não deixará o Boavista enquanto o clube não tiver um equilíbrio sustentado.
– O negócio anunciado com a venda do controle da SAD por apenas 2,5 milhões de euros significa a falência?
– Não, longe disso, e esses números estão totalmente desfasados. O que está em causa é um aumento de capital de 11 para 20 milhões de euros.
– Confirma o interesse de Abramovich?
– Há vários interessados nas praças de Paris e Londres mas nada está ainda decidido. Depende das propostas e da capacidade negocial da SAD.
– Apenas com contratações a custo zero, o Boavista pode esperar mais desta época?
– Assumimos que estamos em contenção. Mas actualmente, é possível contratar a preço baixo e a custo zero. Para quê comprar caro se podemos comprar barato? Temos a certeza que a equipa está mais forte. O Manuel José foi uma das revelações da SuperLiga, o Paulo Jorge foi o melhor da II Liga e trouxemos o William Sousa, que chegou a ser alternativa ao Deivid, só que este custou 3 milhões ao Sporting.
– E o tal criativo que o presidente já prometeu?
– Há-de chegar. Tem que chegar, mas ainda não está escolhido.
– Com o desinvestimento na equipa, para onde foram as receitas que receberam de vendas e das competições europeias?
– A última vez que entrou dinheiro foi em 2001 e foi investido na equipa, que ficou em segundo lugar. Mas não entrámos na Liga dos Campeões. Fomos às meias-finais da Taça UEFA. Depois, há o estádio. Para além dos 25 por cento do orçamento inicial, não recebemos mais nada. Fizemos o estádio sozinhos ao contrário de todos os outros. Foi uma injustiça que não nos permite uma disponibilidade parecida com a que se calhar têm o Braga, o Guimarães ou até o Belenenses.
– O que pediram a Carlos Brito?
– Um lugar nas competições europeias. Penso que será possível. Carlos Brito é um treinador de grande valor. Tem a vantagem de ter feito a sua formação no Boavista e espero que fique por cá muitos anos.
– Acha que ele é um treinador capaz de suportar, por exemplo, salários em atraso?
– Os atrasos foram mínimos e pontuais. Os problemas foram sempre resolvidos. Se compararmos com o que se passou noutros clubes, pode dizer-se que o Boavista não teve problemas.
– Quantos ordenados chegaram a estar por pagar?
– No máximo verificou-se um mês de atraso.
"JOÃO PINTO FEZ CEDÊNCIA"
– Com uma proposta tão tentadora do Médio Oriente que acha que levou João Pinto a ficar no Boavista?
– Ao contrário do que se tem dito, o João Pinto não veio ganhar somas astronómicas. A verdade também é que o salário dele foi sempre suportado pela Boavista SAD e não por uma empresa como chegou a ser escrito. No final da época, o jogador informou-nos que tinha um convite de um país árabe, muito tentador, e nós compreendemos. Mais tarde, voltámos a falar e não tendo ainda o Boavista um número 10, e estando o João Pinto interessado em continuar em Portugal, chegou-se a um acordo. E posso dizer que o João foi fantástico.
– O salário dele destaca-se muito dos restantes. Isso prejudica o grupo?
– Não. As pessoas estão muito enganadas em relação a isso. Para esta época foi feito um reenquadramento do João Pinto e, em relação à época anterior, pode até dizer-se que o jogador fez uma cedência.
– Carlos Brito não estava a contar com o jogador...
– Carlos Brito sempre perguntou se podia contar com João Pinto ou se ele iria ficar. E disse mesmo, muito claramente, que gostava de poder contar com João Pinto.
– A ligação do jogador à família Loureiro é conhecida dos treinadores. Jaime Pacheco foi pressionado quando o deixou no banco?
– Nunca. A postura de João Loureiro não é essa. Sabe ser equidistante e o Jaime Pacheco nunca sofreu qualquer pressão. O João Pinto sabe que veio para uma realidade diferente e nunca deu qualquer problema. Soube sempre qual era o lugar dele. Ninguém gosta de ficar no banco, mas ele sempre aceitou as razões do técnico.
"JAIME SAIU MAIS BOAVISTEIRO"
– Foi um erro o regresso de Jaime Pacheco?
– Jaime Pacheco regressou numa altura difícil. A SAD estava em contenção e a fasquia foi colocada demasiado alta. Mas foi uma saída pacífica. Depois do jogo com a Académica, ele entendeu que era o melhor apesar de o cenário não ser tão negro quanto isso. Equipas com orçamentos superiores ficaram para lá do 10.º lugar.
– ‘À posteriori’ é fácil falar. Colaborei com o presidente no regresso do Jaime mas não é fácil voltar depois do sucesso que conseguiu no clube.
– Os dirigentes não deveriam ter assumido que sem ovos não há omeletes?
– O Jaime nunca sentiu falta de apoio e ele sabe isso. Sei que ele deixou o Boavista ainda mais boavisteiro.
– Para ir para o grande rival...
– Ele é um profissional. Também já veio de lá para aqui.
João António Soares Freitas tem 43 anos e é licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo do Porto, cidade onde nasceu. Exerceu a actividade de jornalista durante 22 anos. Começou no ‘O Comércio do Porto’, passando, depois, por vários títulos:
Esteve dois anos no ‘Norte Desportivo’ e depois de uma passagem pela ‘Gazeta dos Desportos’, escreveu durante quatro anos para o jornal ‘Record’. Transfere-se depois para ‘A Bola’, onde trabalha ao longo de 13 anos. Em 2003 abandona o jornalismo e, em Maio desse ano, assume o cargo de director-executivo da Boavista SAD.
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