Ex-vice aperta Rui Costa sobre entrada de americanos na SAD do Benfica
Fernando Tavares quer saber motivos para “ausência de iniciativa” de comprar ações que eram do 'Rei dos Frangos'.
A entrada na SAD do Benfica de mais um fundo norte-americano, que se junta a outro já com 5,24% das ações, para um total de 21,62%, está a agitar o universo benfiquista. O tema deverá ser levantado nas próximas assembleias-gerais, previstas para o mês de junho, mas já tem motivado posições públicas de ex-candidatos ou sócios notáveis.
Fernando Tavares, ex-vice nas direções de Luís Filipe Vieira e Rui Costa, depois de se ter manifestado nas redes sociais, escreveu mesmo uma carta ao presidente da Mesa da Assembleia-geral a pedir esclarecimentos e que seja “disponibilizada aos sócios a ata, ou atas, das reuniões da Direção em que tenha sido discutido o posicionamento estratégico do Clube”. No documento - que o CM transcreve na íntegra mais abaixo -, Tavares destaca que “estamos perante a potencial transmissão do maior bloco privado de ações” da SAD, com “impacto direto na estrutura acionista e no equilíbrio de poder no seio da sociedade”.
O antigo dirigente quer saber “quais as razões que determinaram a ausência de iniciativa por parte do Benfica” para comprar as ações de José António dos Santos, num negócio “estimado em cerca de 45 milhões de euros, quando tal permitiria elevar a posição do clube para aproximadamente 80% do capital social”. Até porque a 1 de outubro de 2025 foi aprovado em AG “um programa de recompra de ações próprias até ao limite de 10% do capital”, mediante o investimento “estimado entre 15 milhões 18 milhões”.
Leia a carta na íntegra:
"Exmo. Senhor Presidente da Mesa da Assembleia Geral
do Sport Lisboa e Benfica, Dr. José Pereira da Costa
Na qualidade de sócio do Sport Lisboa e Benfica, e com o mais elevado respeito institucional pelos Órgãos Sociais do Clube e pelos seus associados, venho, por este meio, requerer a V. Exa. que sejam prestados esclarecimentos formais, completos e devidamente documentados aos sócios relativamente ao processo de alienação de 3.767.400 ações da Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD, detidas pelo Senhor José António dos Santos e pelo Grupo Valouro.
Em particular, considero essencial que seja disponibilizada aos sócios a ata, ou atas, das reuniões da Direção em que tenha sido discutido o posicionamento estratégico do Clube face a esta operação, incluindo quaisquer deliberações, análises ou pareceres produzidos pelos órgãos competentes do Sport Lisboa e Benfica.
Estamos perante a potencial transmissão do maior bloco privado de ações da Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD para a sociedade Entrepreneur Equity Partners SPV V, operação com impacto direto na estrutura acionista e, consequentemente, no equilíbrio de poder no seio da sociedade. Trata-se, portanto, de matéria de inequívoca relevância estratégica para o Clube e para todos os seus associados. Adicionalmente, solicita-se que seja prestada informação clara sobre se o Sport Lisboa e Benfica tem conhecimento de qualquer relação direta ou indireta entre o referido adquirente e outros acionistas relevantes, designadamente a Lenore Sports Partners, que possa consubstanciar a formação de um bloco de voto ou de influência, suscetível de colidir com as disposições estatutárias aplicáveis, nomeadamente com o disposto no artigo 6.º, n.º 2 dos Estatutos do Sport Lisboa e Benfica, que impede a existência de acordos, de natureza parassocial ou outra, que limitem a capacidade do Clube de manter o controlo societário e exercer a liderança da gestão das sociedades desportivas.
Neste contexto, afigura-se indispensável esclarecer, de forma objetiva e transparente:
1. Quais as razões que determinaram a ausência de iniciativa por parte do Sport Lisboa e Benfica no sentido de adquirir a referida participação, estimada em cerca de €45 milhões, quando tal permitiria elevar a posição do Clube para aproximadamente 80% do capital social da Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD, reforçando de forma inequívoca o seu controlo estratégico;
2. De que forma se compatibiliza essa decisão com a aprovação, em 1 de outubro de 2025, de um programa de recompra de ações próprias até ao limite de 10% do capital, o qual implicava já um compromisso financeiro estimado entre €15 milhões e €18 milhões, e por que motivo esse programa não foi ajustado ou expandido, total ou parcialmente, de forma a permitir a aquisição do referido bloco acionista estratégico, concentrando o esforço financeiro numa operação com impacto estrutural no controlo da sociedade;
3. Se foi devidamente ponderada, em termos económicos e estratégicos, a possibilidade de direcionar o esforço financeiro associado ao programa de recompra, já aprovado, para a aquisição de um bloco acionista estruturante, em detrimento de aquisições dispersas em mercado, maximizando assim o impacto desse investimento ao nível do reforço do controlo e da estabilidade acionista da sociedade;
4. Se, atendendo à atual situação económico-financeira, designadamente ao resultado líquido positivo de €34 milhões apresentado pela Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD no exercício de 2024/2025, aprovado em Assembleia Geral, bem como à referência expressa da gestão à existência de eventuais excessos de liquidez, não existiam condições para, de forma prudente e responsável, suportar um investimento desta natureza, com impacto direto no reforço do controlo, estabilidade acionista e alinhamento estratégico de longo prazo da sociedade.
Os sócios do Sport Lisboa e Benfica têm o direito de compreender, de forma clara e fundamentada, as decisões que influenciam o futuro do Clube, sobretudo quando está em causa uma oportunidade relevante de reforço da sua posição acionista numa sociedade que assume carácter central na sua atividade desportiva e económica.
A transparência, o rigor e o respeito institucional pelos associados exigem que matérias desta natureza sejam objeto de plena clarificação.
Nestes termos, requer-se a V. Exa. que promova a disponibilização da referida documentação e dos esclarecimentos solicitados, assegurando que os sócios possam formar uma opinião informada sobre decisão de manifesta relevância estratégica.
Com a mais elevada consideração,
Fernando Tavares
Sócio número 5690 do Sport Lisboa e Benfica
30 de abril 2026"
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